5 lições da luta dos estivadores

A luta dos estivadores do porto de Setúbal ganhou dimensão nacional. Parou um setor determinante da economia – por uma coisa tão básica como o direito a um contrato de trabalho. Colocou em causa o Governo de Costa e a esquerda que o sustenta. Um exemplo para todos os precários do país (e do mundo). Um exemplo de combatividade e de união. Que lições deste processo?

1. É possível lutar contra a precariedade

A maioria do movimento sindical português, e mesmo a maioria dos trabalhadores precários, está refém da premissa de que apenas pode lutar quem já é efetivo. Os trabalhadores precários teriam de “comer e calar”, pois “não há nada a fazer”. O que os estivadores de Setúbal mostraram é que os “precários” só resolvem a sua situação se forem à luta. É preciso perder o medo e unir todos na mesma voz, por direitos para todos.

2. Os estivadores são capazes de parar o país

Os patrões, os governos, a comunicação social, entre tantas outras organizações, querem nos fazer crer que quem move a economia são “as empresas” e os “patrões”, que são eles quem cria riqueza (Ai, ai, ai que a Autoeuropa e as outras empresas vão embora se lutarmos por direitos, sem eles não há nada a fazer). Mas quando os estivadores param, fica claro que quem produz a riqueza e faz girar o mundo são os trabalhadores; é do seu trabalho que depende a economia e não dos patrões. Aproveitemos a imagem dos milhares de carros da Volkswagen parados no porto de Setúbal para relembrar o poder que têm os trabalhadores – quando produzem e quando param.

3. As vitórias só podem vir da luta intransigente e não das esperanças no Parlamento e nos Tribunais

Os estivadores não estiveram à espera que os tribunais resolvessem uma total irregularidade (20 anos a trabalhar à jorna, trabalho permanente com 90% de trabalho precário) e saíram à rua para lutarem com as suas próprias forças e ferramentas, porque as instituições do Estado não respondem (onde está o ACT, Ministério do Trabalho e Tribunais há 20 anos?). Não estiveram à espera da “viragem de página da austeridade” no Parlamento ou do fim da precariedade prometida pela Geringonça: tomaram o seu destino nas suas próprias mãos e contaram com a força da luta e da solidariedade de quem trabalha. O que antes era inaceitável para a Operoestiva afinal já é possível: só a força da mobilização pode mudar a realidade.

4. O Governo de Costa é mais um comité de defesa dos interesses multinacionais – e da Autoeuropa em particular 

O Governo enviou a polícia de choque para garantir a entrada dos fura-greves que iam embarcar os carros. Já no conflito da Autoeuropa, o Governo esteve disposto a tudo – até a fazer creches para a empresa – para garantir que os operários da fábrica iam trabalhar ao fim-de-semana e produzir os carros. Não interessa a vida e a saúde dos trabalhadores, não interessa se trabalham à jorna e ao fim de semana: Costa está disposto a esmagar tudo e todos para garantir os lucros da Volkswagen ou de outra grande empresa do país. A mensagem deve ficar clara: nós pagamos os impostos que suportam o Governo e votamos nas eleições para o Parlamento, mas ele está lá para servir os interesses, não dos trabalhadores e contribuintes, mas da minoria de grandes empresários e banqueiros.

5. SEAL – um sindicato combativo faz a diferença para a luta

 A maior parte dos sindicatos do país não quer saber dos precários e dos que não estão associados ao sindicato; sucumbe à pressão da empresa e do governo e levanta greves por uma mão cheia de nada, quando a greve é a arma do trabalhador. É fundamental que os trabalhadores tenham nos sindicatos um intrumento de luta, e não um travão burocrático e traidor, como aconteceu na luta da Autoeuropa, em que sindicatos e CTs entregaram o trabalho ao fim de semana e, com ele, a saúde e a vida dos trabalhadores, contra a sua votade. Por isso, experiências como a luta dos estivadores ou novo sindicato na Autoeuropa (STASA) são fundamentais para abrir caminho a novas alternativas sindicais, mas também políticas, em oposição à direita e à Geringonça, e incondicionalmente ao lado dos trabalhadores.

Texto originalmente publicado no jornal Em Luta, nº 12 (Dezembro 2018), p. 6