Polémica à Esquerda: ou se está com os estivadores ou se está com o Governo

O BE e PCP estavam ao lado dos estivadores no dia 22 , quando o Governo furou e reprimiu a paralização dos estivadores, mas no dia 29 de novembro estavam com o mesmo Governo votando o OE2019. Aquilo que aparece como uma dualidade “estar com os estivadores e com Governo” só fortalece os patrões e o Governo. Por isso, BE e PCP não pediram a demissão da Ministra do Mar pela subserviência aos patrões da estiva e à Autoeuropa, nem do Ministro da Administração Interna, por usar a Polícia para furar a greve.

Em Setúbal, o Governo passou uma linha vermelha e ficará para a história como “fura greves”. O BE e o PCP mantiveram o apoio a este Governo e, por isso, mostraram de que lado preferem estar.

Mas não é a primeira vez. Catarina Martins disse que não votaria um OE sem reposição do tempo de serviço dos professores, mas votou, preferindo estar com o Governo e não com os professores. Ou no caso da Autoeuropa, há um ano, em que Governo, PCP e BE estiveram a favor do trabalho ao fim de semana e foram parte dos acordos com a Administração que o concretizaram.

Francisco Louçã acusou aqueles – como o Em Luta– que disseram que BE e PCP deveriam retirar o apoio ao Governo de quererem favorecer o PS com eleições antecipadas. BE e PCP são os únicos que têm favorecido o Governo, participando na encenação de “Governo de esquerda” que tem feito o PS crescer eleitoralmente e renovar-se perante uma parte da população.

BE e PCP dizem que as coisas boas são produto da Geringonça e as coisas más são do Governo do PS. Mas não há dois Governos: só há a Geringonça, que depende de BE e PCP para continuar a aprovar Orçamentos que não viram a página da austeridade, não mudam as leis laborais, não atacam o racismo e a violência sobre a mulher, não acabam com a precaridade ou a miséria, não revertem a subserviência do país. De que serve votar Orçamentos onde não estão as grandes reivindicações dos trabalhadores? Porquê sustentar um governo que reprime trabalhadores em greve? Porquê criticar o Tratado Orçamental da UE e apoiar o Orçamento que o cumpre à regra contra os serviços públicos e os trabalhadores?

Na guerra social da austeridade, não é possível ficar em cima do muro: BE e PCP, ao apoiarem o Governo, abandonam os estivadores e os restantes trabalhadores.

Texto originalmente publicado no jornal Em Luta, nº 12 (Dezembro 2018)