Instabilidade no setor automóvel | Que programa devem os trabalhadores levantar para o setor?

A separação entre a FCA e a Renault, antes mesmo do casamento, são reflexo dos tempos atribulados que o setor automóvel vive no mundo. Os trabalhadores do setor precisam organizar-se para lutarem por um setor automóvel ecológico e ao serviço das necessidades humanas.

A fusão da FCA com a Renault

Em maio deste ano, a FCA, grupo composto pelas marcas ligadas à Fiat e à Chrysler, propôs uma fusão com o grupo Renault. Este proceso reflete uma tendência para o crescimento de grandes monopólios que existe no setor automóvel, assim como em outros setores da economia mundial, e é uma tentativa de estes dois grupos resistirem aos gigantes Volkswagen, Toyota e General Motors. Com a proposta que partiu do grupo da italo-americano FCA, pretendia-se formar o terceiro maior grupo do setor, com uma produção anual estimada em quase 9 milhões de veículos. Por obstáculos causados pelo governo francês, que detém 15% da Renault, a FCA acabou por recuar da proposta.

Esta situação reflete um período de instabilidade no setor automóvel, já indiciado com a redução da produção mundial em 2018, pela primeira vez desde 2009.

Que tem isso que ver com os trabalhadores do setor?

O mundo do automóvel está a mudar e, portanto, os trabalhadores devem apropriar-se deste tema. Não basta levantar um programa vago pela manutenção do emprego e contra a indústria 4.0 e o carro elétrico, que aumenta a robotização e a digitalização da produção em detrimento dos direitos dos trabalhadores. Face aos problemas que o setor atravessa, os grandes grupos preparam-se para, procurando novos mercados e retirando direitos aos trabalhadores, manterem um modelo de produção de veículos insustentável mas lucrativo, baseado no carro individual.

É preciso avançar com um programa global para o setor automóvel que responda às necessidades imediatas dos trabalhadores do setor, mas também a um modelo de transporte económica e ecologicamente sustentável.

Contra a perda de direitos, por um modelo de transporte coletivo

Muitos têm sido os estudos que suportam a ideia de que o transporte individual degrada o ambiente, torna as cidades um caos e impróprias para usufruto dos trabalhadores e do povo.

Um programa dos trabalhadores para o setor automóvel deve partir de um modelo de transportes que permita resolver as necessidades de locomoção dos trabalhadores ao passo que reduz a poluição, não só na circulação como na produção dos veículos. Esse programa deve, portanto, discutir uma verdadeira mudança nas fontes energéticas que nos retire a dependência dos combustíveis fósseis, o que de momento não parece passar pelo motor elétrico, cuja produção é demasiado poluente. Sendo uma necessidade dos trabalhadores, o transporte coletivo deve ser assegurado quanto à operação e produção pelo Estado.

Ainda que não deva ficar pelas necessidades imediatas dos trabalhadores do setor, um programa para o setor automóvel tem de passar também pela defesa de quem nele trabalha. Contra os despedimentos fruto das mudanças do setor, deve ser levantada a necessidade da redução do horário de trabalho sem redução de salário, voltando o desenvolvimento tecnológico a favor dos trabalhadores. Da mesma forma, a redução da idade da reforma para trabalhos desgastantes, como é o trabalho por turnos e a produção automóvel, devem ser parte das reivindicações dos trabalhadores para o setor.

No entanto, tal não será possível sem os trabalhadores assumirem as rédeas do poder para acabarem com a lógica do lucro e permitirem que os avanços da humanidade se convertam num avanço coletivo das condições de vida.