Contra o racismo e a crise social! Para resgatar o futuro, é preciso acabar com o capitalismo!

O processo de rebelião que dura nos EUA há mais de uma semana, devido à morte de George Floyd, um homem negro de 46 anos, tem trazido milhões às ruas por todo o país; uma onda de solidariedade, indignação e exigindo justiça que se tem espalhado por todo o mundo.

A humilhante e animalesca tortura e assassinato de George Floyd, cuja vida vimos a esvair-se aos poucos às mãos da polícia, foi a gota de água! A ordem política norte-americana não tem qualquer resposta para a maioria dos cerca de 14% da população que é negra, a não ser a violência em todas as suas dimensões e o racismo secular, que nada mais traz do que morte, pobreza e penúria a estes trabalhadores. Morrer por estar a correr na rua, morrer por se chegar ao guarda-luvas, morrer por ser confundido, morrer por estar a mudar a fechadura de casa, morrer por chamar a polícia para resolver uma disputa alheia, morrer por ter uma doença psiquiátrica: para a classe trabalhadora negra o perigo é quotidiano e eminente. Quando os negros e negras sofrem toda a espécie de abuso sistémico, desde o sobre-encarceramento da juventude negra à sua condição sócio-económica, que os coloca como principais vítimas na pandemia, a mobilização contra o racismo de Estado é a única saída.

Estas mobilizações mostraram a solidariedade massiva de amplos setores da classe trabalhadora norte-americana, de todas as cores, na luta contra o racismo. Mas mostraram também algo mais global: a incapacidade e falência do sistemacapitalista, nomeadamente o dos EUA, enquanto coração do sistema, em dar uma saída para a vida de milhões de negros e negras e de toda a juventude e classe trabalhadora norte-americana.

À luta contra o racismo juntou-se a luta contra a crise social, despoletada pela  pandemia do Covid19. São milhões de pessoas a endividarem-se para poderem ter acesso a saúde, são cerca de 108 mil mortos por Covid19 (com uma grande incidência entre os afroamericanos), quase 39 milhões de desempregados (em abril, os EUA atingiram 14,7% dedesempregados, a taxa mais alta desde 1930, durante a Grande Depressão), e outros milhões em grandes dificuldades devido aos cortes ou à perda total de rendimentos.

A tudo isto juntamos ainda a criminosa atuação da administração Trump, que procura ativamente desinformar, dividir pelo discurso de ódio e aumentar os fossos entre pobres e ricos. Estas mobilizações mostram, assim, como milhões de trabalhadores começam a olhar para a questão racial como um reflexo também da restante política de exploração capitalista.

É neste contexto que temos sido presenteados com as posturas hipócritas dos governos europeus, com o governo francês a afirmar que França não é um país racista. Relembremos o caso de Adama Traoré em Paris, no ano de 2016, envolvido numa perseguição policial, sendo que foi sufocado após a sua detenção, ou o caso de Mame Mbaye, vendedor ambulante perseguido pela polícia por se manifestar, que acabou por morrer de ataque cardíaco, em Madrid, no bairro operário de Lavapiés, no ano de 2018.

Estes casos mediáticos colocam em evidência não só a atuação impune das polícias, mas também o racismo estrutural no qual os modernos estados europeus assentam, depois de décadas de sangue derramado pela exploração colonialista e da desigualdade entre países e povos que até hoje isso causa.

Em Portugal não é diferente. Os casos de Elson Sanches (Kuku), executado por uma bala disparada a 30 centímetros de distância da sua cabeça aos 14 anos, ou mais recentemente da tortura na Esquadra de Alfragide ou da agressão policial bárbara a Claúdia Simões, na Amadora, são a expressão da selvajaria policial, que continua impune e se combina com a densa exploração sócio-económica das trabalhadoras negras.

Apesar da governação da Geringonça e do agora Governo PS ser diferente do racismo escancarado de Trump, também em Portugal os trabalhadores negros sofrem às mãos da polícia, vivem mais longe, têm piores salários, têm dificuldades no acesso à autorização de residência e são tratados como estrangeiros no seu próprio país (apesar das pequenas alterações na lei da nacionalidade, resultado da mobilização).

Também aqui a pandemia coloca a nu a podridão do sistema capitalista. O Governo permite a destruição dos postos de trabalho, as políticas de layoff, que atacam ferozmente os trabalhadores,  e a perda de rendimentos dos mais pobres, que lutam para sobreviver recorrendo a apoios que não chegam, enquanto dá 850 milhões ao Novo Banco e salva os lucros dos grandes patrões com o dinheiro da Segurança Social. São dois pesos e duas medidas gritantes do Estado. O Governo utilizou o estado de emergência (com a conivência do BE e PCP) para proibir o direito à greve, à manifestação e reunião, ao mesmo tempo que, em nome da luta contra a pandemia, reprime trabalhadores e os bairros da periferia.

O sistema que agride os negros e negras é o mesmo que não tem qualquer solução para o conjunto da classe a não ser a crise social. Aqui, como nos EUA, a classe trabalhadora deve aproximar-se para impedir que sejam os trabalhadores a pagar pela crise.

Para isso, deve recusar que lhe joguem areia para os olhos apontando os bairros negros, de ciganos ou pobres como o problema da pandemia na Área Metropolitana de Lisboa hoje. Quando o Governo fecha os mini estabelecimentos comerciais do Bairro da Jamaica com um aparato policial grotesco ou se fala de fazer um cordão sanitário à volta do Bairro da Mina, na Azambuja, querem fazer esquecer os verdadeiros focos numerosos de Covid19 nos armazéns da Sonae (10 vezes mais que no Bairro da Jamaica e 20 vezes mais que no Bairro da Mina), em milhares de postos de trabalho sem condições de segurança ou nos transportes públicos sobrelotados. O que interessa é salvaguardar os negócios dos grandes patrões, mesmo que isso signifique a morte de trabalhadores.

Por isso, apelamos, também em Portugal, a uma resposta unitária da nossa classe, que precisa de voltar a lutar. Mas não basta apontar o dedo aos banqueiros sem apontar o dedo a quem para eles governa. Não basta apontar o dedo à cara mais selvagem do capitalismo sem perceber que o sistema capitalista como um todo é incapaz de resolver o problema da fome, da exploração, do racismo e de qualquer outro tipo de opressão.

Por isso, para resgatar o futuro da garra dos patrões e da ditadura dos lucros, é preciso acabar com o capitalismo e os trabalhadores tomarem o poder. Só assim poderemos acabar com a exploração, o racismo e qualquer outra forma de opressão!

Dia 6 estaremos ao serviço desta tarefa na coluna antirracista da manifestação Resgatar o Futuro, e Não o Lucro.

Os trabalhadores não podem pagar pela crise!

Não morrer nem de pandemia nem de fome!

George Floyd presente!

Lutar contra o racismo nos EUA e em Portugal!