George Floyd foi a gota de água

AUCKLAND, NEW ZEALAND - JUNE 01: Protestors march down Queen Street on June 01, 2020 in Auckland, New Zealand. The rally was organised in solidarity with protests across the United States following the killing of an unarmed black man George Floyd at the hands of a police officer in Minneapolis, Minnesota. (Photo by Hannah Peters/Getty Images)

Precisamos de acabar com a violência policial racista, já e lutar por justiça, emprego, habitação e saúde para TODOS

Desde o assassinato racista de George Floyd pela polícia de Minneapolis a 25 de maio de 2020, uma nova onda de protestos nacionais contra os assassinatos racistas e a injustiça social varreu os Estados Unidos. Nos últimos dez dias, quase 600 cidades tiveram protestos. Essa rebelião, liderada pela juventude negra, mobilizou uma verdadeira coligação multirracial da juventude trabalhadora – com o apoio de outros setores da população que não podem lutar por causa do alto risco de contágio durante a pandemia.

Em resposta, mais de 76,000 soldados da Guarda Nacional foram mobilizados em 33 estados, e mais de 80 cidades (incluindo Washington D.C.) declararam recolher obrigatório. A escala dessas mobilizações ecoa os levantamentos de massas nos anos 60, que começaram em Watts, em 1965, e atingiram o ápice na onda de protestos que se seguiu ao assassinato de Martin Luther King, em 1968, assim como o levante de Los Angeles por justiça para Rodney King, em 1992, que se espalhou por todo o país e além fronteiras. Até agora, os protestos arrancaram algumas vitórias parciais e preliminares – o indiciamento dos quatro polícias envolvidos no assassinato de Floyd, e a retirada de parte das medidas de recolher obrigatório, mas a luta está longe de terminar.

O assassinato racista de George Floyd foi a acendalha

Este levantamento ocorre durante uma pandemia e uma crise social e económica histórica, comparável à dos anos 30. Como muitos manifestantes disseram, este assassinato foi a gota de água de duas formas: primeiro, o assassinato de Floyd foi o terceiro assassinato racista por parte de polícias que chegou aos meios de comunicação social a nível nacional desde o início da pandemia; segundo, a violência policial racista é mais um elemento nos efeitos devastadores de uma pandemia que continua fora de controle, com mais 100.000 vítimas, e uma crise económica crescente. Além dos 40 milhões de desempregados, há uma crescente insegurança alimentar em todo o país, e estima-se que 54 milhões de norte-americanos irão passar fome se o Governo não intervier.

O assassinato de George Floyd acendeu uma revolta de negros e de setores mais amplos da classe trabalhadora que dizem chega. Muitos jovens manifestantes brancos, latinos e asiáticos estão a juntar-se aos protestos, assim como muitos sindicalistas.

A pandemia e a crise mostraram que o capitalismo só tem um único objetivo – o aumento do lucro – e que as grandes empresas e o Governo estão dispostos a sacrificar as vidas dos trabalhadores por ele. Mas esse sistema que mata trabalhadores é racializado: o racismo é endémico no sistema capitalista, que atribui um valor menor aos corpos de negros e não-brancos e ao seu trabalho.

Como mostram os dados, a pandemia tem uma taxa de vítimas maiores entre latinos e, especialmente, negros, que morrem a um ritmo quase três vezes superior ao das pessoas brancas:

  • 1 em cada 1,850 negros morreram (ou 54.6 mortes por 100,000)
  • 1 em cada 4,000 latinos morreram (ou 24.9 mortes por 100,000)
  • 1 em cada 4,200 asiáticos morreram (ou 24.3 mortes por 100,000)
  • 1 em cada 4,400 brancos morreram (ou 22.7 mortes por 100,000)

“Mais de 20.000 afro-americanos – cerca de uma em cada 2000 pessoas de toda a população negra nos Estados Unidos – morreram da doença.” “Coletivamente, os afro-americanos representam 13% da população nas áreas dos EUA que divulgam dados de mortalidade por Covid-19, mas sofreram 25% das mortes.”  A Polícia está a usar o distanciamento social para atacar, cada vez mais, comunidades de pessoas não-brancas, ao mesmo tempo que diminui o policiamento de pessoas brancas:  “Em Nova York, os negros representam a impressionante cifra de 93% das detenções relacionadas com coronavírus. Há disparidades raciais semelhantes em Chicago.” Mais recentemente, os governos municipais têm imposto o recolher obrigatório, em gritante contraste com a proteção policial e a liberdade de movimento dos gangues armados da extrema-direita branca que exigiam reabrir a economia no início de maio  e que, inclusivamente, chegaram a invadir o legislativo do estado de Michigan e forçar o adiamento de várias atividades governamentais.

Trump e os governadores estão a aumentar a repressão aos protestos

A resposta das autoridades estaduais a estes protestos tem sido extremamente militarizada e brutal desde o primeiro momento. Os governos rapidamente enviaram a Guarda Nacional e recorreram a gás lacrimogéneo, espancamentos selvagens e tiros de balas de borracha contra manifestantes pacíficos, às vezes jogando carros da Polícia contra multidões. Além disso, o Pentágono, por ordens de Trump, ofereceu-se para enviar as Forças Armadas, e algumas tropas já foram enviadas. No seu discurso de dia 1 de junho, Trump ameaçou usar a Lei da Insurreição para enviar os militares para esmagar os protestos. Enquanto ele falava, podia ouvir-se a Polícia e a Guarda Nacional a usar gás e cassetetes para abrir caminho para ele poder caminhar até uma igreja próxima para tirar fotos publicitárias.

Minneapolis é uma cidade governada pelos Democratas, assim como o estado de Minnesota. Até agora, não há nenhuma diferença entre Democratas e Republicanos na resposta aos protestos; existe um consenso bipartidário nítido de que essas manifestações precisam ser suprimidas. Trump quer usar a força para “dominar” e derrotar militarmente os protestos por qualquer meio necessário. Os Democratas querem reprimir o movimento e, ao mesmo tempo, procuram uma alternativa para cooptarem eleitoralmente a fúria do povo negro. Por exemplo, polícias em várias cidades ajoelharam-se para se dizerem solidários com as lutas contra o assassinato de George Floyd. Representantes dos governos fazem questão de verbalmente se oporem ao racismo no seio do aparato policial. Dizem opor-se à brutalidade policial, ao mesmo tempo que reprimem manifestantes. O facto de, pela primeira vez na história dos EUA, sentirem a necessidade de fazerem estes gestos mostra a profundidade, a amplitude, a força e a ira deste movimento.

Mas os Democratas não podem ter duas coisas ao mesmo tempo e, ao contrário do que conseguiram fazer com o movimento Black Lives Matter (que agora se tornou o “Movimento Pelas Vidas Negras”, com um amplo programa reformista e eleitoralista), estes protestos mostram o enorme abismo entre as necessidades e aspirações das pessoas negras e o Partido Democrata.

Nós exigimos a imediata retirada de toda a Guarda Nacional de todas as cidades e também das unidades da Polícia Militar norte-americana de Minneapolis, assim como o fim de todos os recolheres obrigatórios. Nós defendemos os direitos políticos da classe trabalhadora à liberdade de expressão, de reunião e de protesto, pois precisamos poder organizar-nos contra aqueles que estão a tentar matar-nos, direta e indiretamente, ao negarem saúde, emprego, habitação e alimentação.

Quem são os saqueadores?

Nós opomo-nos também à criminalização dos protestos, seja sob o pretexto de que há saques e vandalismo, seja por causa do “antifa” e outras qualificações. Reconhecemos esses nomes como tentativas, por parte da classe capitalista e dos seus políticos, de deslegitimar o levantamento e de demonizar e dividir os seus participantes. A maioria dos protestos são pacíficos, mas defendemos o nosso direito a defender-nos quando somos atacados. Apoiamos essa rebelião de massas, apesar dos estragos que causa, e para os que estão preocupados primeiro ou apenas com a destruição de propriedade privada, dizemos: é a classe trabalhadora que gera toda a riqueza. Podemos destruir tudo e depois construir novamente.

Como Tamika Mallory apontou, “os Estados Unidos da América saquearam os negros. Os EUA saquearam os povos nativos da América quando vieram para cá. Nós aprendemos o que é violência com vocês.” E ela está obviamente correta, seja essa violência o trabalho expropriado dos negros sob o sistema da escravatura, a exploração do trabalho de presidiários ou os recursos pilhados pelo imperialismo norte-americano na América Latina ou no Oriente Médio. De facto, a própria terra em que esse país foi construído foi roubado aos povos nativos durante dois séculos de expansão violenta. Os EUA são um país construído através do saque, e continuam a sobreviver usando o saque. Esta realidade está a tornar-se cada vez mais evidente para a classe trabalhadora hoje.

Os atuais protestos estão a acontecer num contexto de desemprego massivo e sem precedentes: 40 milhões de norte-americanos, e incontáveis outros não-norte-americanos, perderam os seus empregos; muitos estão a dever meses de aluguer ou de hipoteca. Há uma sensação de profundo desespero social no nosso país, e o estímulo de $1,200 dólares é um escárnio, insuficiente até para necessidades básicas. Esse escárnio torna-se mais ofensivo ainda com os biliões de dólares luxuosamente dados aos ricos sob a forma de isenções de impostos e resgastes de empresas.

Precisamos organizar uma ampla solidariedade e mobilizações conjuntas com sindicatos e comunidades da classe trabalhadora

Os choques da crise económica, da Covid-19 e, agora, o escandaloso assassinato de George Floyd têm o potencial para abanar as coisas, e o setor organizado da classe trabalhadora dos EUA tem a chave para avançarmos na luta de classes. Desta vez, estamos a ver uma reação dos movimentos operários e das organizações dos trabalhadores que vai além do apoio retórico: a recusa de motoristas de autocarros municipais de transportarem manifestantes presos ou polícias para a repressão levou várias secções da União Amálgama do Transporte (ATU, o sindicato nacional de trabalhadores de transportes) a posicionarem-se contra colaborar com a Polícia. Precisamos aprofundar esse movimento para romper os elos entre os nossos sindicatos e as instituições de repressão e policiamento e quebrar quaisquer laços formais que existam com essas instituições. Estamos comprometidos com organizar a base para mobilizar os seus sindicatos e os seus colegas para se juntarem aos protestos, e também com ligar os protestos atuais com as lutas contra a austeridade, as demissões e os cortes salariais.

Como socialistas, temos de participar ativamente nesta rebelião das massas, agitando entre todos os setores da nossa classe – inclusivamente sindicatos, mas também organizações comunitárias, grupos de jovens, a enorme maioria de trabalhadores que está desorganizada e os desempregados – para apoiar estes protestos e unir-se às lutas contra o racismo e a violência policial. Precisamos juntar-nos e ajudar a organizar as ações de desobediência civil das massas de maneira democrática e independente, com segurança organizada por nós mesmos e com uma plataforma política clara que unifique as nossas lutas para arrancarmos mudanças reais. 

  • Vidas Negras Importam!
  • Abolição da polícia!
  • Prisão de TODOS os polícias assassinos! Justiça para George Floyd, Ahmaud Arbery e Breonna Taylor!
  • Retirada imediata da Guarda Nacional e de todos os efetivos militares!
  • Fim imediato de todas as imposições de recolher obrigatório e detenções em massa! Retirada de todas as acusações!
  • Empregos, rendimentos, saúde, habitação e justiça para todos!
  • Trump tem de sair!

 

Declaração dos editores da Rede Socialista Revolucionária (RSN), 06/06/2020
Membros da RSNRSN:
  • Socialistas Revolucionários de Ohio Central
  • Comunistas de Denver
  • Socialistas Revolucionários de Seattle
  • Workers’ Voice / La Voz de los Trabajadores
  • Resurgência Socialista