Governo português nega bónus financeiro e oferece política de “palmas e circo” aos trabalhadores da saúde

Mais um golo contra os trabalhadores no Parlamento português: o projeto de lei que concederia um bónus financeiro temporário aos profissionais de saúde que atuam no combate ao Covid-19 foi rejeitado na Assembleia.

O PS de António Costa votou contra a proposta e contou ainda com a ajuda do PSD e CDS-PP, que se abstiveram na votação, para chumbar o auxílio. Dessa forma, o número necessário de votos para a aprovação da medida não foi alcançado.

Este resultado serve de exemplo para mostrar o grau de hipocrisia do Governo português e da grande maioria dos deputados, que não se cansam de pedir palmas para os trabalhadores da saúde, como se isso bastasse para compensar o desgaste e o risco a que estão submetidos na pandemia. Para estes trabalhadores, sobrou a “grande recompensa” de assistirem à final da Champions League. Ou seja: numa reelaboração da política do império romano, em vez de pão, oferece-se aos que se expõem diretamente ao Covid-19 a política de “palmas e circo”.

Para chumbar o projeto que daria um bónus financeiro aos trabalhadores da saúde, o Governo, mais uma vez, alegou o problema da falta de dinheiro. Essa alegação não corresponde à realidade. Basta ver a quantidade de dinheiro público despejado para salvar o Novo Banco, instituição que recebeu 850 milhões de euros recentemente.

Certamente, muitos trabalhadores que gostam de assistir a um bom jogo de futebol, sentir-se-iam mais valorizados se pudessem contar com reconhecimento salarial neste momento. Por isso, em vez de rejeitarem o bónus, o mais urgente seria que o Governo e o Parlamento aprovassem um reajuste salarial real que compensasse as perdas salariais acumuladas pelos trabalhadores da saúde nos últimos anos devido à política de ajuste fiscal mantida pelo Governo Geringonça (PS, Bloco de Esquerda e PCP).

A fórmula de Governo Geringonça pode não se ter mantido formalmente no novo desenho parlamentar, mas permanece a certeza de os trabalhadores sempre sofrerem autogolo quando um Governo que se apresenta como popular e “progressista” mostra a verdadeira cara, como no caso da rejeição de medidas mínimas, como sejam o bónus salarial para os trabalhadores da saúde ou algum tipo de apoio para universitários com dificuldades de subsistência.

 Estudantes também prejudicados

Não foram só os trabalhadores da saúde que sofreram derrotas no Parlamento por estes dias. Na mesma semana, os deputados também rejeitaram medidas que possibilitariam – ainda que de forma bastante limitada e insuficiente – algum apoio para que estudantes do ensino superior pudessem continuar a estudar diante da crise causada pelo novo coronavírus.

O resultado destas votações no universo parlamentar, somado com a situação de portas do cofre sempre abertas para agradar banqueiros – incluindo-se aqui o pagamento sempre fiel à chamada “dívida pública” – escancaram a própria essência do Estado burguês. Como dizia o filósofo e revolucionário alemão Karl Marx, os governos, no capitalismo, não passam de um balcão de negócios para satisfazer os intereresses dos grandes empresários. As sobras, se existirem, vão para as políticas de “pão e circo”. Ou de palmas e Champions League, como agora estamos a ver, para os trabalhadores da saúde. Ou, simplesmente, de abandono, no caso dos estudantes universitários com situação financeira mais delicada.

Cabe aos trabalhadores, à juventude e ao povo pobre organizarem-se e lutarem contra a grave crise que nos ronda e contra as medidas que serão apresentadas pelo Governo e empresariado, que apontam para mais perdas de direitos e degradação das condições de vida da classe trabalhadora. Mais do que isto: Portugal precisa de uma nova revolução, mas desta vez, que avance até à construção de uma sociedade socialista, em alternativa à barbárie que o capitalismo nos impõe.

Daniel Gajoni