Pandemia e crise: contra a hipocria do capital, defender os trabalhadores e construir alternativas

Cresce o desemprego, os que perderam salário, cresce a fome. Cresce a crise do regime assente no pacto social que se vem desmoronando com as políticas de salvamentos dos patrões, crise atrás de crise. Por isso, cresce a indignação, a revolta e a busca de alternativas. 

PANDEMIA

A hipocrisia capitalista e a dualidade de critérios

Vivemos duas realidades paralelas no país. Por um lado, a pressão à normalização do trabalho e do consumo, como se a pandemia já não existisse. Por outro lado, o medo do coronavírus, que ainda não tem cura ou vacina e cujos contágios aumentam em toda a Europa. 

O governo e a burguesia resolvem esta contradição com a repressão sobre a sociabilidade e a organização coletiva: “está bom para trabalhar, mas não para se reunirem ou lutarem”. Exemplo disso são as constantes ações repressivas da polícia nos bairros da periferia, em particular sobre as populações mais pobres e racializadas, extremamente expostas a trabalhar sem condições, mas depois sem direito a qualquer lazer ou socialibilidade.

AVANTE EM POLÉMICA

Pelo direitos democráticos dos trabalhadores

Os mesmos que promoveram a ida a restaurantes e outros espetáculos em locais fechados com milhares de pessoas queriam impedir a Festa do Avante. Esta dualidade de critérios tem dois objetivos: só vale a pena o risco de contágio se for para engordar o capital; por outro lado, querem criar uma opinião pública contra o direito democrático dos partidos e trabalhadores de se organizarem. 

Podemos concordar ou discordar da realização de eventos de grande porte, mas  esta dualidade de critérios não pode existir, pois a única forma de combater os ataques em curso é com a luta da classe trabalhadora. Por isso, são precisas medidas e regras de proteção da saúde coletiva, sim. Todavia, não podemos aceitar restrições às liberdades democráticas dos trabalhadores e das suas organizações, como aconteceu no Estado de Emergência. Só lamentamos por isso que o PCP tenha aceitado inicialmente o Estado de Emergência contra os direitos democráticos de quem trabalha e que utilize a Festa do Avante para uma política de conciliação com o governo e os patrões, como se viu na sua disponibilidade para uma nova Geringonça.

MÁSCARAS

Necessidade coletiva ou ditadura?

As máscaras são um instrumento necessário de proteção individual e coletiva contra a pandemia em determinados contextos, como espaços fechados, porque sabemos que a transmissão do vírus também de faz no ar. No entanto, somos contra as políticas hipócritas dos governos da direita ou social-democratas em toda a Europa que não garantem máscaras gratuitas para todos e querem transformar a máscara na solução milagrosa, enquanto se recusam a tomar outras medidas de proteção e fazer investimento público que permita verdadeira segurança sanitária nos transportes, no trabalho, nas escolas, etc. O  problema da pandemia é uma responsabilidade coletiva e precisa de políticas públicas em primeiro lugar, que são responsabilidade dos governos que continuam a pôr os lucros, e não a saúde, em primeiro lugar.

Mas falar da “ditadura das máscaras” como defendido por membros do Chega e vários setores da extrema-direita internacional é ignorar o problema da pandemia (como têm feito Trump e Bolsonaro, com milhares de mortos nos respetivos países). É estar-se nas tintas para salvaguardar a vida dos trabalhadores, dos mais pobres e oprimidos – os verdadeiros afetados pela pandemia – que não têm opção se não sair para ganhar o sustento. Esta posição do Chega é por isso coerente com a sua política de defesa dos ricos – que se protegem nos seus condomínios privados e situações de privilégio – que se expressa na ausência de uma alternativa coletiva para o combate à pandemia e numa política liberal e antissosical contra os trabalhadores: defesa do mesmo imposto para milionários e trabalhadores pobres, contra o SNS, os direitos laborais, pela liberalização da habitação e dos serviços públicos. 

ECONOMIA

Uma crise económica e social que veio para ficar

A atual crise vem de trás e começou a gerar-se devido às contradições não resolvidas da crise de 2008/2009, tendo-se agravado com o coronavírus. Por isso, os trabalhadores devem preparar-se para uma crise que não terminará com o fim (ainda incerto) da pandemia e tende a ser mais mais grave que a anterior. Está claro que a pandemia e a crise económica agravaram as desigualdades sociais.Acima de tudo, os governos e os patrões já começaram a cobrar a fatura aos trabalhadores, com os cortes dos layoffs e os despedimentos, que se irão agravar em breve, ao mesmo tempo que acabam as migalhas das ajudas do governo que marcaram o período da quarentena. 

POLÍTICA NACIONAL

Na encruzilhada da crise de regime

O governo do PS faz um discurso hipócrita de defesa da saúde, mas deixou o SNS na desgraça nos últimos anos, o que se reflete nas dificuldades em garantir o combate à pandemia em simultâneo com os serviços quotidianos de saúde – levando a milhares de cirurgias e consultas adiadas – em profissionais exaustos e na incapacidade de requisitar os privados, que ainda ganham com a pandemia. Ao mesmo tempo, salvaram o Novo Banco, injetaram dinheiro nas grandes empresas através do layoff e não impediram os despedimentos. PSD e CDS fariam ainda pior, como mostraram na crise anterior. 

À esquerda, BE e PCP estão comprometidos com o que aí está. Fizeram parte da Geringonça, que não mudou o país, e abrem as portas à sua reedição. Foram incapazes de combater o Estado de Emergência e a repressão contra as liberdades democráticas. São coniventes com o layoff e propuseram apenas medidas paliativas para o desemprego e para a precariiedade que “não doa tanto”. 

O Chega tem-se tentado afirmar como oposição ao que aí está, mas por trás de um aparente discurso radical, está uma política para dividir os trabalhadores (entre os brancos e os não brancos) e liberalizar a economia, o que só favorece os ricos. 

Perante tudo isto, é normal que os trabalhadores olhem com apreensão para as próximas presidenciais, onde Marcelo aparece destacado como o grande candidato do regime, Ventura polariza à direita querendo fingir de antirregime enquanto serve os ricos, e à esquerda todos os candidatos expressam a moderação de uma esquerda institucional incapaz de meter o dedo na ferida e apresentar alternativas que sirvam aos trabalhadores. 

ALTERNATIVA

Unidade para lutar e construir uma saída revolucionária dos trabalhadores

Os nossos baixos salários e os horários exaustivos sustentaram os lucros milionários dos últimos anos. A CGTP e UGT têm-se centrado nas negociações à porta fechada com os patrões, mas isso não serve os trabalhadores. É preciso não ceder à chantagem de “todos têm que fazer um esforço”, construir uma unidade ampla independente dos patrões e organizar a resistência dos trabalhadores, para que não sejamos nós a pagar as contas. É preciso unir forças para lutar contra a repressão do governo, contra as ameaças da extrema-direita e o aproveitamento do racismo, do machismo e da LGBTfobia como forma de dividir e oprimir ainda mais os trabalhadores.

Mas é preciso mais. É preciso dizer que dentro do capitalismo não há solução para a pandemia, apenas mais bárbarie humana e ambiental. Por isso, é preciso uma nova revolução para acabar com o capitalismo e construir uma sociedade verdadeiramente socialista, onde os trabalhadores governem, sem opressão nem exploração. Para isso é preciso construir uma alternativa revolucionária, democrática e independente dos patrões e dos banqueiros, que seja verdadeiramente antissistema, sustentada apenas pelos trabalhadores, pelo seu dinheiro, pela sua força e a sua solidariedade. O Em Luta está ao serviço dessa construção. 

Maria Silva

Texto originalmente publicado no jornal Em Luta, nº 23 (setembro 2020)