Para fazer frente à crise, proibir os despedimentos

A cada crise, sem qualquer oposição dos governos, os patrões mostram a crueldade inerente ao capitalismo, rasgam contratos e mandam para o desemprego milhões de famílias. Nesta crise não está a ser diferente. Apesar dos milhões em pacotes de ajudas às empresas, nos quais se incluem os layoffs, já são centenas de milhares os que perderam o emprego desde o início do ano em Portugal.

A crise atual já vem de 2009

Desde março deste ano que o mundo ficou esmagado por um vírus que precipitou uma crise que já se arrastava em relativo silêncio desde a anterior. Como temos discutido já em vários artigos deste jornal, a crise económica de 2008/9 não ficou resolvida e várias têm sido as ondas de choque que se têm feito sentir em vários setores. No mundo automóvel, setor industrial que pode servir de medidor do estado da economia mundial, têm continuado os indicadores de instabilidade, que significam que, do ponto de vista da burguesia do setor, dos grupos económicos como a Volkswagen, a GM, a Toyota, ainda não se recuperaram as taxas de lucro que existiam antes. É isso que significa a busca por novos mercados que o carro elétrico reflete ou as recorrentes alianças, mais ou menos conjunturais, que temos visto com a fusão de grandes marcas.

A vacina não faz milagres económicos

Ainda não saímos da crise de 2009 e já vamos a outra queda da economia. Como dizíamos, o vírus precipitou uma crise, mas esta já vinha de antes. Com o vírus, aceleraram-se as fragilidades que a economia acumulava. Por exemplo, em Portugal, uma economia que apresentava uma aparente saúde, ficou explícita a falta de firmeza de um crescimento assente em trabalho precário e baixos salários, a que o governo da Geringonça não pôs um fim. Os primeiros a sofrer com a situação foram os mais desprotegidos, os trabalhadores temporários e os informais, que perderam o emprego ainda em março deste ano. Se o coronavírus apenas precipitou a crise atual, não sendo a sua origem, também não será da resolução da pandemia que sairá a recuperação económica. 

Governo Costa, um “Robin dos Bosques” ao contrário

Ainda não saímos do período de ajudas do governo Costa às empresas e já se percebe que a política de “salvar” a economia usando o dinheiro do Estado para pagar os deslizes dos privados não resulta. De acordo com Eugénio Rosa, economista, até julho, momento em que grande parte das empresas usavam e abusavam dos layoffs, houve um aumento de mais de 150 mil desempregados, mais de 30%. Por exemplo, a Volkswagen Autoeuropa, empresa com faturações mensais muito elevadas, recorreu ao layoff sem dele precisar e agora prepara-se para despedir muitos trabalhadores a termo. Passando por cima do legalismo, estamos a falar de uma empresa que move milhões, e na qual o peso dos salários é inferior a 5% da sua faturação mensal, poder reduzir postos de trabalho a meio de uma crise sanitária e económica. A isto chama-se crueldade, a isto se chama capitalismo.   

A nossa vida, não os lucros

Nestes momentos de crise, as empresas apresentam estes despedimentos e/ou cortes de direitos como inevitabilidades. Não descurando a crise real das micro e pequenas empresas, que vivem na mentira das ajudas do Estado e que, portanto, não têm capacidade de sobreviver, para as grandes empresas não estamos a falar de sobrevivência, mas sim da tentativa de manutenção de lucros. Face a esta lógica imposta, é necessário levantar uma campanha pela proibição dos despedimentos. Não somos responsáveis pela organização da economia, não devem ser os trabalhadores a suportar os custos da manutenção de lucros astronómicos das empresas. É necessário lutar pela redução do horário sem perda salarial, é necessário reduzir a idade da reforma, é necessário mirar na “normal” crueldade do sistema capitalista – que para manter lucros astronómicos de uns poucos leva à miséria uma grande parte – para acumular forças para construir um mundo em que não seja o lucro quem manda, mas sim quem trabalha.

Arnaldo Cruz

Texto originalmente publicado no Em Luta nº. 23 (setembro 2020)