A NOSSA CLASSE Nacional SETOR AUTOMÓVEL

Trabalhar menos para trabalharmos todos

Com o começo da pandemia e a crise económica que se tem vindo a impor, o crescimento do desemprego instalou-se no quotidiano dos trabalhadores no país. Mesmo havendo vacina, a pandemia continuará por mais uns tempos, e nada indica que com a sua atenuação a crise económica desapareça.

Desregulamentação de horários e Indústria 4.0

Algozes dos trabalhadores na Autoeuropa

O Em Luta desenvolverá ao longo dos próximos meses uma campanha que procurará abordar o tema do desemprego, apontando alternativas na perspetiva da classe trabalhadora. O lema da campanha é “Trabalhar menos para trabalharmos todos”. Tendo como exemplo a Volkwagen Autoeuropa, este artigo é dedicado à relação entre tecnologia, desregulação de horários, saúde e o emprego.

Indústria 4.0 a serviço dos patrões – Mais robots, menos Emprego

Nos últimos anos, em vários setores, tem-se falado cada vez mais na Indústria 4.0. No concreto, ela tem estado associada ao corte direto de postos de trabalho. Apesar de parecer designar apenas a introdução na indústria da combinação entre automação e as tecnologias informáticas, o seu intuito é procurar esta junção com o objetivo de aumentar a exploração dos trabalhadores, seja aumentando a sua dependência do ritmo imposto pelas máquinas, seja cortando postos de trabalho, aumentando o exército de reserva para precarizar os direitos laborais de conjunto.

Com o aumento do desemprego, os trabalhadores têm de se opôr ainda mais à introdução da Indústria 4.0 nas empresas. Todos os processos de otimização da produção que forem levados a cabo devem ser acompanhados pelas organizações representativas dos trabalhadores, comissões de trabalhadores e sindicatos. Do ponto de vista legislativo, é necessário proibir o uso da tecnologia para cortar postos de trabalho.

Laboração contínua e a desregulamentação de horários

Outra das ferramentas usadas pela burguesia para aumentar os lucros e a exploração dos trabalhadores tem sido a diversidade de horários de trabalho que a lei permite atualmente: a laboração contínua, o trabalho noturno e o trabalho por turnos (alguns com folgas rotativas). Tentando “dourar a pílula” com a necessidade de fornecer serviços essenciais à população – como hospitais, bombeiros, ou transportes – ou assegurar tecnicamente o funcionamento de indústrias que possuem processos que não podem parar – como os fornos do setor siderúrgico – a laboração contínua alastrou já a vários setores onde é usada unicamente com o objetivo de obter mais lucro para os patrões, que podem assim usar uma linha de produção 24 horas/7 dias por semana, não precisando, portanto, de investir em mais linhas para produzir de acordo com os seus objetivos. A disseminação do trabalho por turnos e do trabalho noturno tem também sido indiscriminadamente usados com este propósito.

O recurso a estas ferramentas de forma desregrada tem consequências sociais significativas ao nível das relações sociais e da saúde dos trabalhadores, com fortes impactos também nos serviços de suporte social, como o Serviço Nacional de Saúde e a Segurança Social. A laboração contínua tem de ser limitada aos setores que atendam a necessidades sociais imperiosas, ou que por motivos técnicos necessitem de laborar 24 horas por dia. Por outro lado, a implementação de turnos rotativos e de trabalho noturno tem de depender do aval das organizações representativas dos trabalhadores para poder avançar, ao passo que o trabalho neste regime, pelas consequências que traz para o trabalhador, tem de ser considerado de desgaste rápido. Deve assim compensar-se o trabalho neste regime com menos horas de trabalho e antecipação da idade da reforma.

Autoeuropa | Laboração contínua e tecnologia não asseguram emprego

A escolha do caso da Volkswagen Autoeuropa deve-se ao processo de perda de postos de trabalho que se tem vivido no último ano nesta empresa. Considerado o maior investimento estrangeiro no país, nos últimos anos, a empresa viveu um aumento estrutural no seu processo de produção, dupicando a sua capacidade produtiva.

Na implementação dos horários na empresa, fortemente contestados pelos trabalhadores pela imposição do trabalho regular e normal ao fim de semana, a empresa procurou passar a ideia aos trabalhadores de que, com estes horários e com o desenvolvimento tecnológico, seriam garantidos os postos de trabalho. Contudo, se por um lado os objectivos de produção e de consequente facturação foram atingidos – a empresa é das mais produtivas do mundo Volkswagen – por outro, no último ano, foram despedidos cerca de 16% dos trabalhadores admitidos desde 2017.

A suposta laboração contínua e a tecnologia aplicada não defenderam o emprego dos mais de 300 trabalhadores da fábrica de Palmela que no último ano perderam o emprego, e tiveram custos altos para a saúde e a vida social dos trabalhadores. É necessário, para além de apontar alternativas que defendam os postos de trabalho, iniciar um processo de mobilização dos trabalhadores da fábrica contra os despedimentos.

Construir um programa dos trabalhadores para defender o emprego

Como se pode verificar, as ferramentas legais são construídas para atenderem aos interesses do lucro no mundo capitalista em que vivemos. Assim, os trabalhadores têm de erguer um programa que atenda à manutenção do emprego e à conquista de mais direitos sociais. A limitação da laboração contínua aos setores em que tal é tecnicamente imprescindível para o seu funcionamento ou para o fornecimento de serviços sociais essenciais, a forte restrição do trabalho por turnos e noturno, a proibição de mudanças tecnológicas que reduzam postos de trabalho, a redução do horário de trabalho sem redução de salário devem estar nesse programa, que não se limitando a estas propostas, tem de as colocar ao serviço de uma mobilização dos trabalhadores que aponte como estratégia a rutura com o modo capitalista de gestão do mundo.