LEGISLATIVAS 22 Nacional

PS, PSD e Geringonça são a crise que se vê!

Não há dúvida de que o balanço dos governos da Geringonça está no centro do debate político da atualidade. É preciso explicar porquê, depois de 6 anos deste modelo de governo, PS, PCP e BE se arriscam a perder a maioria do Parlamento.

Depois da iniciativa de cidadãos autointitulada “CORAGEM!”, foi recentemente publicada uma carta que apela a uma maioria “plural de esquerda”. De alguma forma, estas duas iniciativas refletem uma preocupação, comum a uma parcela da classe trabalhadora, de combater a possibilidade de uma maioria parlamentar dos partidos de direita. Por outro lado, fortalecem uma visão positiva, suportada por PCP e BE, do que foram os governos da Geringonça, sem sequer fazer um esforço de olhar para o que tem sido a realidade de crise social dos trabalhadores e do povo nos últimos anos.

Longe de ceder à chantagem do regresso aos governos PSD/CDS e troikas – que de resto nunca chegaram a abandonar o país – procuramos, nas próximas linhas, abordar o principal tema com que se debate a classe trabalhadora no país, que não cedendo ao populismo, se vê cada vez mais sem alternativas políticas que reflitam a luta por uma vida digna e um mundo sem exploração nem opressão.

Geringonça: a boia de salvação do PS

Vínhamos de anos intensos de lutas contra os ataques do governo de Passos Coelho e da Troika. O governo PSD/CDS estava derrotado, mas PCP e BE quiseram levar “a luta até ao voto”, desmontando toda a capacidade de resistência construída e canalizando para as eleições o descontentamento. Por todo o mundo, as soluções políticas mais conotadas com a sustentação dos regimes políticos estavam em cheque, fruto da crise económica mundial. Em Portugal, durante os governos da PAF, ouvia-se nas manifestações “PS e PSD é a crise que se vê!”. Os trabalhadores e o povo não esqueciam também o percurso trilhado pelo último governo do PS, de Sócrates, que caiu por não conseguir aprovar o quarto plano de austeridade antes mesmo desta se instalar no país, com malas, bagagens e troikas. O resultado das eleições que retiraram a maioria parlamentar ao PSD e CDS, em 2015, também não elegeram sequer o PS como partido mais votado, tal era também o desgaste deste partido, identificado como  o coveiro dos direitos conquistados pela revolução de 74, junto com o PSD

Face a um resultado que não elegia  nenhuma candidatura como absolutamente maioritária, mas dava uma maioria aos partidos à esquerda, PCP e BE rapidamente se apressaram a lançar a boia de salvação ao PS. Assim nasceu a Geringonça, desde o início uma tentativa de superar o desgaste dos partidos mais identificados com os ataques aos direitos dos trabalhadores e do povo.

 A crise social como legado da Geringonça

No entanto, até hoje, BE e PCP defendem que o balanço da Geringonça é positivo,, ainda que nenhum destes partidos tenha a desfaçatez de repetir o coro que ao início faziam com o PS do “virar a página da austeridade”. Apesar da crise eleitoral, mas principalmente política, em que ficaram estes dois partidos;Apesar de António Costa liderar um partido que lavou a cara e se reergueu com a ajuda da esquerda parlamentar como a ferramenta dos patrões que sempre foi; Apesar da crise social em que se encontra uma grande parte da população, fruto da não reversão das medidas da Troika, mas também da ação de um governo que agiu contra os trabalhadores, BE e PCP continuam a fazer um balanço positivo.

O fruto deste suposto balanço positivo concretiza-se no drama em que se tornou comprar ou alugar uma casa para a maioria da população, com a consequente expulsão das grandes cidades para a periferia. Concretiza-se na entrega dos fundos da segurança social aos lucros privados sob o pretexto da pandemia. Concretiza-se nas empresas em insolvência, como na Groundforce, ou em restruturação, como a TAP, cujos trabalhadores não veem solução por parte de um Governo que se recusa a renacionalizar as principais empresas deste setor estratégico. Concretiza-se nos baixos salários, no crescimento da precariedade e da uberização do trabalho, concretiza-se numa fatia crescente da população que, ainda que trabalhe, está em risco ou em situação de pobreza.

A Geringonça travou as lutas dos trabalhadores

Infelizmente para os trabalhadores a história do que representaram os governos da Geringonça não termina aqui. Durante todo este período, os trabalhadores, alvo dos ataques mais duros, quiseram levantar a cabeça e lutar. Houve batalhas importantes, como as dos estivadores de Setúbal contra o trabalho à jorna, a dos enfermeiros pelo direito a uma carreira digna, a dos motoristas de mercadorias e de matérias perigosas, a dos trabalhadores da Volkswagen Autoeuropa pelo direito ao fim de descanso e contra a desregulação dos horários de trabalho. Diante destas lutas, a Geringonça ignorou onde pôde e onde não o pôde fazer tornou-se num dos governos com mais ataques ao direito de os trabalhadores lutarem pelos seus direitos. Um dos governos pós-ditadura que mais vezes usou a arma da requisição civil contra os trabalhadores e as suas lutas. 

BE e PCP, como alicerces do Governo PS, foram cúmplices deste processo, apoiando ou calando-se perante a repressão e colocando-se contra as lutas, negociando nos bastidores, impedindo os trabalhadores de lutar.

Com geringonças, a extrema-direita ganha fôlego

Como consequência da crise social instalada e da arregimentação do PCP e do BE, a extrema-direita conseguiu voltar a ter protagonismo, depois de décadas voltada ao ódio do povo. Durante os anos em que o PCP e o BE ficaram fechados no bolso do PS, a extrema-direita e o populismo aproveitaram a oportunidade para aparecerem como os únicos “contra o sistema”. Cresceu o ódio, a xenofobia e a violência no discurso. Cresceu também a divisão dos trabalhadores. Foi esse o papel que a extrema-direita e o populismo têm tido nos últimos anos, como resultado da desmoralização de parte da população perante a ausência de reposta de PCP e BE à crise social.

Em Luta por uma organização revolucionária dos trabalhadores

Durante os anos da Geringonça, e contra todos os obstáculos impostos pelo Governo e pelos seus aliados BE e PCP, os trabalhadores conseguiram furar o bloqueio diversas vezes. Essa experiência levou a crises importantes com que se debatem hoje estes partidos, mas acima de tudo demonstrou que diante destas adversidades muitos trabalhadores compreenderam da forma mais dura que nenhum governo que se diga querer governar para todos, ricos e pobres, trabalhadores e patrões, poderá trazer alguma coisa de bom. Esse processo levou a muitos descontentes com a direção dos seus partidos, entre as hostes principalmente do PCP, como partido com importante peso sindical, mas também do BE. Compreendemos aqueles que, no PCP e no BE, apesar das críticas que têm aos anos da Geringonça e ao que isso representou para a anulação dos seus partidos, se vejam agora remetidos à necessidade de afastar os partidos dos patrões e maiorias absolutas. Desafiamos todos esses a não se ficarem pelo descontentamento interno e pelo voto desconfiado. Diante do que aprendemos nos últimos anos, é necessário construir uma ferramenta partidária que não se fique pelos horizontes de muleta do PS a que se propõem as direções do BE e PCP e de pequenas migalhas num contexto geral de degradação das condições de vida e trabalho. Precisamos de por mãos à obra na construção de um partido revolucionário que, alicerçado nas lutas dos trabalhadores, dê corpo à necessidade de rutura com o Euro e a União Europeia e derrubar o capitalismo, como meio de (des)organização social e económica, para pôr em marcha a construção da sociedade socialista, a única forma de atender às necessidades dos trabalhadores e do povo. Desafio lançado, ao trabalho!

Por João Reis