Em Luta: Como caracterizas o regime de Sissocó Embaló ?
Kumpaku Bua Poha (KBP): Eu caraterizo o regime de Embaló como um regime ditatorial, porque aprisionou as liberdades democráticas. Ele (PR) instrumentaliza e sequestra o poder das instituições, os tribunais, o Ministério Público. A Assembleia da República foi derrubada sem realização das eleições, e o povo está a ser (des)governado por um governo ilegal e ilegítimo de iniciativa presidencial, que manda espancar, assassinar os opositores, silenciar as rádios. Este regime representa um perigo enorme também para os recursos naturais do povo guineense, já que Sissocó quer por tudo negociar pelos seus próprios interesses inconfessáveis com o presidente Macky Sall do Senegal. No que tange ao petróleo por exemplo, e sabemos bem quem ganha com isso, que é o estado imperialista de França, e o Senegal fica com migalhas enquanto um estado satélite.
EL: Porque razão esse regime tem enfrentado tanto a UNTG [central sindical guineense]?
KBP: Esse regime tem enfrentado a UNTG-CS por três razões principais:
1) A UNTG é a maior central sindical dos trabalhadores na Guiné e enquanto um instrumento de luta dos trabalhadores qualquer greve terá impacto na vida do povo e, consequentemente, na vida política. Deixá-la livre é uma pedra no sapato do regime.
2) A UNTG tem feito o papel da oposição política na Guiné ao servir como a voz do povo na miséria, ao denunciar o regime, com seu O.G.E e impostos adicionais, não combinados com salários dos trabalhadores, e criação de subsídios milionários para os titulares dos órgãos de soberania. O Presidente da República recebe um subsídio anual de 650 milhões de francos CFA (um milhão de euros) e fazem viagens ao exterior de 650 mil francos CFA por dia (mil euros).
3) A UNTG declarou, numa manifestação frente à Assembleia Nacional Popular, que caso viesse a ser aprovado O.G.E, o Governo enfrentaria greves combinadas com lutas nas ruas até que revogassem essa decisão, pois esta servia para enriquecer os titulares dos órgãos de soberania nas costas da classe trabalhadora, que nem recebe o seu pobre ordenado mínimo e tem condições muito precárias de trabalho. Então, desde de lá para cá, a UNTG-CS tem tido uma luta intransigente contra o regime ditatorial com greves e lutas nas ruas. Estas foram as razões de tanto ódio do regime contra UNTG.
EL: Por que razão os jovens da diáspora lutam em Portugal também?
KBP:: Estudantes e trabalhadores da diáspora denunciam o governo Costa e o Presidente da República portuguesa pela conivência e suavização do regime ditatorial na Guiné através de um total silêncio perante todas as violências perpetuadas. Mas como se não bastasse, o Governo português apoia as formações dos militares e paramilitares – quem sabe também das milícias criadas por Sissocó. Esses apoios não têm nada a ver com relações mútuas, mas com um Estado opressor e explorador que finge ser democrático, mas que apoia uma ditadura noutro país.
EL: As eleições são importantes para o futuro, mas para além disso que caminho vês para o país?
KBP:: Nós sabemos que um regime ditatorial não se combate nas urnas, mas sim nas ruas. Mas estas eleições só servem o processo dos passos a dar para uma unidade de ação concreta que é derrubar o regime através da revolução popular por qualquer que seja o meio necessário. O caminho que vemos para desenvolver a Guiné, África e o mundo, é que a classe trabalhadora se organize e passe a ser dona da sua própria riqueza, não administrada por quem não a produz, que é a classe burguesa.

