Entrevista: “Para que os nossos objetivos comuns sejam atingidos, temos de colocar, de vez, a vida à frente do lucro”

Perante a pandemia do Coronavírus, dependemos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para enfrentar a situação. Entrevistámos Hugo Bastos, médico psiquiatra do Centro Hospitalar Universitário do Algarve sobre as atuais medidas em curso.

Em que condições está o SNS a encarar esta pandemia? E, dentro disso, como se estão a organizar os trabalhadores para responder?

Os profissionais que compõem o Serviço Nacional de Saúde estão a encarar esta pandemia com bastante apreensão, mas também com enorme sentido de responsabilidade.

Estamos preocupados porque já trabalhamos habitualmente com recursos muito escassos, decorrente de um crónico subfinanciamento (em condições normais já faltam profissionais e equipamentos) e, se as medidas de contenção da propagação do vírus não forem cumpridas, tememos que o número de doentes aumente de uma forma demasiado rápida para conseguirmos garantir os cuidados necessários a todos.

Estamos também preocupados porque, pelo menos até agora, as respostas políticas foram sempre titubeantes e em reação aos acontecimentos, quando deveriam ter sido tomadas de forma mais proactiva. Apesar da epidemia já se estar a desenvolver há várias semanas, nomeadamente na Itália, a preparação prévia foi claramente insuficiente. Agora, todos os hospitais estão a elaborar planos de contingência para dar resposta à situação, mas os profissionais continuam a notar que não há um plano concertado por parte das autoridades nacionais, o que leva a que cada hospital tenha de se organizar por si e, dentro de cada hospital, são os profissionais que, pela base, se estão a organizar.

Suspendemos toda a atividade clínica presencial que não seja urgente, substituindo-a, sempre que possível, por consultas por telefone. Muitos profissionais estão a receber formação para poderem reforçar as linhas telefónicas: a SNS24, para a população em geral, e a LAM (Linha de Apoio ao Médico), que é a linha para onde nós temos de ligar sempre que estamos perante um caso suspeito de COVID-19, de forma a que este possa ser validado como suspeito, para que possa aceder ao teste de diagnóstico e se sigam a partir daí os procedimentos previstos. Outros profissionais estão a preparar-se para reforçar as equipas de urgência e as enfermarias onde serão internados os doentes, caso a situação evolua como está a acontecer em Itália ou Espanha. No caso dos profissionais de saúde mental, estamos a preparar vários modelos de intervenção, para diminuir as consequências psicológicas desta crise na população e também nos próprios profissionais.

Mas muitas destas iniciativas estão a partir dos próprios profissionais, inclusivamente através de grupos nas redes sociais (nas últimas horas foram criadas várias plataformas, incluindo algumas que juntam médicos portugueses e espanhóis, por exemplo), sem que se note uma boa coordenação dos órgãos de decisão nacionais.

Por outro lado, estamos a organizar a gestão de recursos humanos a prazo (o próprio Governo já admitiu como cenário mais provável que o pico da crise só se atingirá em Maio), uma vez que, pela sua exposição permanente aos doentes infetados, muitos profissionais de saúde poderão adoecer, ou ter de ser colocados em quarentena. A preocupação com a possibilidade de também nós, profissionais, adoecermos é reforçada pela escassez, até ao momento, dos equipamentos de proteção individual, que tardam em chegar aos hospitais (o que também já tem vindo a ser admitido pela Ministra da Saúde).

Por que razão é tão importante a quarentena geral?

Várias entidades internacionais, incluindo a OMS, admitem que este vírus veio para ficar. O que significa que 40 a 70% da população mundial pode vir a ser infetada. 80% dos casos de infecção darão origem apenas a um quadro de sintomas ligeiros. O problema é que entre 5 a 10% dos doentes evoluirão para casos graves, com necessidade de internamento hospitalar, nomeadamente em unidades de cuidados intensivos, muitas vezes com necessidade de ventilação mecânica.

Por isso é que se tem falado tanto da necessidade de se fazerem todos os esforços para atrasar a progressão da pandemia e se tem falado tanto das curvas de crescimento exponencial do número de casos e da necessidade de se “achatar a curva”. Ou seja, é completamente diferente se tivermos um pico de 10 mil casos numa semana, ou 10 mil casos, mas repartidos por várias semanas. Se muitas pessoas forem infetadas num curto período de tempo, o número de casos graves vai claramente ultrapassar a capacidade de resposta dos serviços de saúde e a mortalidade vai aumentar.

De Itália, chegam relatos assustadores de como os médicos têm de decidir quem tem direito aos poucos ventiladores disponíveis. É essa situação que todos temos de evitar. Se conseguirmos atrasar a progressão da infecção, mesmo que até ao final do ano o número total de infetados seja semelhante, desde que estes se vão repartindo ao longo do tempo, os cuidados de saúde prestados a cada doente grave serão muito melhores e as consequências serão minimizadas. Para além disso, o atraso na progressão da infecção poderá dar mais tempo para que surjam medicamentos eficazes e, até, uma vacina.

As medidas restritivas que têm vindo a ser defendidas têm como objetivo afastar as pessoas e diminuir os contactos entre elas, precisamente porque esta é a única forma que temos até ao momento para conseguirmos atrasar a progressão da pandemia. É importante lembrar que as pessoas podem transmitir a doença sem saberem que estão infetadas, quando só têm sintomas ligeiros ou (como parece ser o caso nas crianças) sem sintomas nenhuns. Apesar de tudo, Portugal reagiu mais cedo do que outros países e a população parece estar a perceber a importância destas medidas.

O que é que é fundamental o Governo fazer? Que medidas fundamentais deve tomar?

No que toca às decisões políticas não diretamente relacionadas com os serviços de saúde, o Governo poderá ter de equacionar a implementação de medidas ainda mais restritivas em relação aos movimentos/atividades económicas. Estas serão tanto mais eficazes e terão menor impacto na saúde (física e psíquica) da população quanto mais forem acompanhadas de medidas que diminuam o impacto económico negativo na vida da população.

Para que as pessoas possam, de facto, ficar em casa têm de ter condições para isso. Os apoios sociais até agora anunciados são insuficientes e os trabalhadores que se vêm forçados a continuar a trabalhar estão a pôr em causa a sua saúde e a de toda a população.

No que toca diretamente à saúde, neste momento não é possível reverter todos os problemas que decorrem do crónico subfinanciamento do SNS. Por exemplo, não é possível eliminar completamente a escassez de profissionais e equipamentos no espaço de dias ou poucas semanas, simplesmente porque não os conseguimos formar ou produzir assim. Mas, para além de ser importante retirar daqui uma lição, que convém não ficar esquecida depois de ultrapassarmos esta crise, há medidas que podem ser tomadas agora e que poderão melhorar a situação.

Em primeiro lugar, tem de haver um reforço orçamental imediato para os hospitais e centros de saúde do SNS. Este reforço permitirá proceder à contratação rápida de profissionais de saúde e técnicos operacionais, bem como garantir a existência de materiais consumíveis, nomeadamente todos os equipamentos de proteção (luvas, máscaras, produtos para higienização das pessoas e dos espaços), meios de diagnóstico e medicação.

Para além disso, o Governo tem de garantir que todos os recursos de saúde existentes no país estão disponíveis. O que significa que os profissionais e recursos materiais que existem nos hospitais/clínicas privadas têm de poder ser utilizados em prol de todos e não apenas dos que os podem pagar.

Por fim, queria ainda acrescentar que todos os momentos de crise nos colocam perante vários cenários possíveis. Esta pandemia não é exceção. Podemos reagir a ela com medo e isso trará o risco de aumentarem comportamentos racistas, xenófobos ou egoístas (açambarcamento de produtos, especulação nos preços). Para além disso, esta crise de saúde pública irá causar uma crise económica, que os governos poderão querer resolver às custas de quem trabalha e menos tem.

Por outro lado, podemos ver nesta situação um exemplo claro de como a Humanidade é uma só e as respostas às crises globais exigem esforços internacionais de solidariedade e de partilha. Podemos perceber como só a ciência e a informação credível podem trazer conhecimento útil, mas para que os nossos objectivos comuns sejam atingidos, temos de facto de colocar, de vez, a vida à frente do lucro.