Raça & Classe

Não houve justiça para Mike Ben Peter!

Cinco anos depois, policiais que agrediram o nigeriano de 39 anos, durante rusga antidrogas em Lausanne, na Suíça, são absolvidos. “Vergonha”, gritaram os ativistas antirracistas após o anúncio do veredito, na última quinta-feira (22 de junho).

Para deter Mike Ben Peter, a carregar um saco que supostamente continha marijuana e a negar-se a  obedecer a ordem policial para que se rendesse, seis agentes atingem-no com spray pimenta e imobilizam-no com joelhadas nas costelas e virilha, até algemá-lo no chão. Como ele continuava a resistir à prisão, foi mantido de bruços pelos seis policiais durante pelo menos três minutos. Ao notarem que o homem parecia inconsciente, enviaram-no ao hospital, onde veio a falecer doze horas horas depois de paragem cardiorrespiratória.

A viúva de Mike, o seu irmão e o advogado queriam que os seis policiais fossem condenados por homicídio culposo (quando não há intenção de matar), mas os os três juízes do Tribunal Correcional de Lausanne consideraram “que não houve nexo causal” entre a intervenção policial e a morte do nigeriano. Os seis policiais, todos brancos, foram absolvidos.

Revolta no tribunal

Quando a palavra “absolvidos” foi lida no tribunal, muitos presentes levantaram-se e gritaram “vergonha”, “escândalo”, antes de abandonaram a sala. Os protestos aumentaram do lado de fora, onde quase 100 pessoas, entre ativistas do movimento antirracista ou simplesmente indivíduos revoltados com a violência policial contra pessoas negras, aguardavam a sentença, carregando faixas em homenagem a Mike Ben Peter.

“Quero justiça para o meu marido”, desabafou a viúva de Mike, em lágrimas. Em seu testemunho durante o julgamento, ela disse que a morte do marido fora um desastre: “Como se minha vida tivesse acabado. Fiquei completamente arrasada, sozinha com meus dois filhos e grávida de um terceiro”. O irmão de Mike, também durante o julgamento, contou que a família era composta por nove irmãos e que, desde que seu pai morreu em 1995, “o amado irmão mais velho”, Mike, assumira o papel de pai de família.

Do lado de fora do tribunal, os manifestantes gritavam: “Justiça para Mike”, “Polícia em todos os lugares, justiça em lugar nenhum”. Quando o comandante da polícia municipal de Lausanne saiu do tribunal, ouviu uma sonora vaia acompanhada do coro de “assassinos”. Juízes, advogados e policiais tiveram de abandonar o tribunal pela porta dos fundos.

“Enquanto não houver um mecanismo para investigações independentes contra a polícia, estaremos presos aos mesmos problemas”, declarou o advogado de Mike, Simon Ntah, à imprensa. Segundo ele, o mesmo promotor público que trabalha com a polícia em outros casos criminais seria o encarregado de conduzir este.

Racismo mata

A morte de Mike tem muitas semelhanças com o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, em maio de 2020, no mesmo contexto de violência policial contra pessoas negras. Mike é o quarto homem negro a ser morto em decorrência de intervenções policiais apenas no cantão de Vaud desde 2016.

O advogado de Mike já disse que vai recorrer da decisão do julgamento, e a família, caso a absolvição seja confirmada pelo Tribunal Federal, declara-se determinada a levar o processo até ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) para denunciar um veredito que só serve para alimentar o racismo e a impunidade na Suíça.

Artigo feito a partir dos relatos dos seguintes meios de comunicação: Aljazeera, Renversé, RTS, Swissinfo.