Internacional

Um inferno na terra

É desta forma que os habitantes de Gaza descrevem o que estão a passar. O bombardeio sem trégua de Israel destrói hospitais, escolas, edifícios residenciais, campos de refugiados e vidas, muitas vidas. Já são mais de 22 mil pessoas mortas desde 7 de outubro. Um total de 57.910 ficaram feridas, em sua maioria mulheres e crianças. Cerca de 7 mil estão desaparecidos, presumivelmente mortos sob os escombros.

“Pelo 91º dia consecutivo, o governo israelita continua a sua crescente campanha de genocídio, destruição e deslocamento na Faixa de Gaza”, afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros e dos Expatriados da Autoridade Palestiniana num comunicado citado pela Aljazeera. Mais de dois milhões de palestinianos enfrentam duas opções: morte por bombardeamento, fome, sede e privação de tratamento médico ou deslocação contínua, resultando em mais de um milhão de pessoas amontoadas em Rafah, que tem agora o maior densidade populacional no mundo.

O colapso quase total do sistema de saúde, aliado à falta de alimentos e de água potável, significa que cerca de 45 mil mulheres grávidas e 68 mil mães lactantes em Gaza enfrentam o risco de anemia, hemorragia e morte. Entretanto, centenas de mulheres e crianças palestinianas na Cisjordânia ocupada continuam presas, muitas sem julgamento, e tentando sobreviver em condições abomináveis. Houve também nesse território um aumento significativo da violência dos colonos e do número de assassinatos cometidos pelas forças israelitas. Colonos e tropas sentem que têm luz verde após o 7 de outubro para implantar os seus colonatos, expulsar, prender e matar palestinianos.

“Já estive em todos os tipos de conflitos e todos os tipos de crises”, disse Arif Husain, economista-chefe do Programa Alimentar Mundial da ONU, ao New Yorker esta semana. “Na minha vida, nunca vi nada parecido em termos de gravidade, em termos de escala e depois em termos de velocidade.”

Uma criança palestiniana olha para os túmulos de pessoas mortas no bombardeio israelita da Faixa de Gaza e enterradas nas dependências do Hospital al-Shifa, na cidade de Gaza, em 31 de dezembro de 2023 [Aljazeera/Mohammed Hajjar/AP]

Uma nova ordem no Médio Oriente

Fica claro que os EUA e Israel estão mais uma vez a tentar estabelecer uma nova ordem no Médio Oriente, desta vez através do genocídio. A atual agressão de Israel aos palestinianos ultrapassa todos os crimes que já cometeu até hoje. Como relembra um artigo do Guardian, em Julho de 2006, na guerra contra o Líbano, Israel matou aproximadamente 1.200 pessoas em 34 dias – a maioria delas civis. Na Operação Chumbo Fundido, na Faixa de Gaza, Israel matou cerca de 1.400 pessoas durante 22 dias de dezembro de 2008 a janeiro de 2009. Na Operação Margem Protetora em Gaza, em 2014, os militares israelitas mataram 2.251 pessoas em 50 dias. Hoje, são mais de 22 mil em menos de três meses.

“O governo israelita é dirigido por colonos, e estes colonos não passam de fascistas, se falarmos de Ben-Gvir ou Smotrich ou dos outros”, disse o político palestiniano Mustafa Barghouti. O ministro das finanças, Bezalel Smotrich, e o ministro da segurança nacional, Itamar Ben Gvir, defendem abertamente a limpeza étnica: “O que precisa ser feito na Faixa de Gaza é encorajar a emigração”, disse Smotrich. “Se houver 100 mil ou 200 mil árabes em Gaza e não 2 milhões de árabes, toda a discussão no dia seguinte será totalmente diferente.” Ben Gvir apelou à migração forçada de centenas de milhares de pessoas para fora de Gaza.

Há outros que defendem alternativas ainda mais radicais: Tally Gotliv, do partido Likud de Benjamin Netanyah, defendeu o lançamento de uma bomba nuclear em Gaza; outro parlamentar do Likud foi à televisão e disse que era claro para a maioria dos israelitas que “todos os habitantes de Gaza precisam de ser destruídos”; a embaixadora de Israel na Grã-Bretanha, Tzipi Hotovely, disse à rádio que não havia outra solução para o seu país senão arrasar “cada escola, cada mesquita, cada casa” em Gaza para degradar a infraestrutura militar do Hamas.

Já o ministro da defesa de Israel, Yoav Gallant, apresentou outra proposta, igualmente repugnante: sugeriu que Israel mantivesse o controlo da segurança de Gaza depois de o Hamas ter sido derrotado, com um órgão palestiniano indefinido e liderado por Israel a gerir a administração diária, e os EUA, a UE e os parceiros regionais a assumirem a responsabilidade pela reconstrução de Gaza.

Crítica internas

Frente à escalada generalizada de apelos ao genocídio, um grupo de proeminentes israelitas, incluindo antigos legisladores, intelectuais e cientistas, entre os quais David Harel, membro da Royal Society, escreveu uma carta a condenar as autoridades judiciais de Israel por não se oporem a essa retórica e a exigir medidas para impedir a normalização de uma linguagem que viola o direito internacional. “Pela primeira vez que nos lembramos, os apelos explícitos à prática de crimes atrozes, conforme declarado, contra milhões de civis tornaram-se uma parte legítima e regular do discurso israelita”, escrevem.

Um discurso – e uma prática – que a ONU não consegue travar, que os Estados Unidos e a União Europeia apoiam e que a generalidade dos governos parecem ver com relativa indiferença. Entre os poucos países disponíveis a passar de vagos apelos humanitários à ação, a África do Sul apresentou um processo no tribunal internacional de justiça acusando Israel de genocídio. Entretanto, outros argumentos poderão ser mais persuasivos para sacudir a inércia da chamada comunidade internacional, como a extensão do conflito ao Líbano e ao Irão. O assassinato por Israel do número 2 do Hamas, no Líbano, Saleh Al-Arouri, acendeu todos os alertas para uma possível radicalização do conflito, com o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, a projetar futuras retaliações ao agressor.

O genocídio e a remoção forçada de populações é a linguagem e a prática do colonialismo. Nos últimos três meses, Israel matou, mutilou e deixou dezenas de milhares de palestinianos famintos. Homens e mulheres estão a desenterrar os seus entes queridos debaixo dos edifícios bombardeados e a enterrar os seus filhos com as próprias mãos.

Cabe a nós, trabalhadores, estudantes, jovens, a arraia-miúda deste e de todos os países, continuar a nossa luta nas ruas – em vigílias, manifestações, etc. – em solidariedade à Palestina e para pressionar os governos a mudarem de atitude, a condenarem o genocídio e passarem a boicotar Israel, rompendo as relações diplomáticas e comerciais com este país usurpador e assassino.

Toda a nossa solidariedade ao povo palestiniano e à sua luta. Não se pode aniquilar um povo que se recusa a deixar de existir.