Para os trabalhadores as contas…
Mas os ataques de Trump e Netanyahu estão já a impactar os trabalhadores de todo o mundo por terem desatado uma crise no fornecimento global de combustíveis. O fecho do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo e 25% do que é transportado por via marítima, e 30% do gás natural liquefeito (GNL), fez disparar os preços do barril de petróleo que foi de US$ 60 para quase US$ 120 na segunda-feira (9/3) — a maior alta já registrada em um único dia.
Por todo o mundo a alta do preço dos combustíveis tem sido repassada para os consumidores que viram um absurdo aumento de preços nos últimos dias. Em Portugal o gasóleo escalou 24,2 cêntimos e a gasolina cerca de 10 cêntimos em poucos dias e espera-se que o valor das botijas de gás sofra um aumento expressivo nos próximos dias.
Mas os impactos não ficam só por aí, o aumento dos combustíveis afeta toda a linha de produção e transporte e vai fazer-se sentir rapidamente no preço dos alimentos que já acumulavam altas de valores nos últimos meses. Em Fevereiro, antes do início dos ataques ao Irão, a inflação dos alimentos chegou a 7% e o valor do cabaz alimentar já tinha atingido o valor mais alto desde a guerra na Ucrânia, estava 70€ mais caro que em 2022, uma semana depois já tinha batido novo recorde e aumentado mais 2,63€. Para além da alta dos combustíveis o valor do cabaz vai ainda ser impactado pelas consequências do comboio de tempestades que arrasaram várias plantações, pecuárias e empresas de produção de alimentos para animais.
Para as grandes empresas energéticas, os lucros…
Mas se do lado dos trabalhadores se acumulam gastos e o esforço para chegar ao fim do mês é cada vez mais hercúleo, do lado das empresas energéticas passa-se justamente o oposto, o que se tem acumulado são lucros. EDP e GALP registaram em 2025 o seu maior lucro de sempre, ambas de cerca de 1150€ milhões, um aumento de 44% e 20% respectivamente. Para além disso, a GALP é diretamente beneficiada pelo conflito, as suas ações em bolsa aumentaram cerca de 8%.
Mas, em vez de escolher taxar as grandes empresas de energia, o Estado prefere taxar os consumidores, enquanto o imposto pago sobre rendimentos (IRC) pela Galp é de 21%, quem abastece o seu veículo com gasolina ou gasóleo paga cerca de 50% do valor em impostos. Não por acaso as receitas do Estado com ISP rondaram os 3600 a 3700€ milhões em 2025, o valor mais alto desde que há registo (1993).
Como se não bastasse, a GALP ganhou uma ação no Tribunal Constitucional para não pagar a Contribuição Extraordinária sobre o Setor Energético (CESE) sobre o gás natural, o que lhe reduziu ainda mais a carga tributária.
Já a EDP, o outro gigante do setor energético, declarou no seu relatório anual que em 2025, quando o seu lucro aumentou 44%, pagou uns míseros 31€ milhões de impostos. O valor foi menor do que o que pagou só de IRC em 2024 (37€ milhões). Também a EDP se tem recusado a pagar o CESE e reteve 47,7€ milhões deste imposto em 2024. Como se não bastasse, continua sem pagar os 335€ milhões que deve ao Estado pela venda de Barragens.
A energia não pode ser mercadoria! Nacionalização já!
Perante a ameaça da escalada da inflação, defendemos de imediato a redução do preço dos combustíveis, pela redução da carga fiscal para o consumidor e pela fixação do valor do litro de gasóleo e gasolina que deverá ser sustentada pelos lucros exorbitantes das empresas do setor energético. Defendemos também que os salários sejam aumentados a par com a evolução da inflação, para que se estanque uma perda real para os trabalhadores. Mas este tema abre outro debate necessário.
As repercussões do comboio de tempestades demonstraram que a privatização da produção e distribuição de energia elétrica está apenas a serviço do lucro dos grandes acionistas. A ampla maioria da rede de alta tensão em Portugal é da época da empresa estatal e houve muito pouco investimento estrutural significativo desde a sua privatização. Para além disso, no pós-tempestade, o centro da empresa não foi dirigir todos os esforços para repor a distribuição da eletricidade à população, mas apenas o que era possível fazer para que a viabilidade da empresa (leia-se os seus lucros) não fossem colocados em causa. A demora em restabelecer a eletricidade foi tão escandalosa (e só não foi maior porque os técnicos no terreno foram incansáveis) que o próprio Presidente da Câmara de Leiria, do PS, sugeriu timidamente que a E-Redes (da EDP) fosse nacionalizada.
Ao contrário de Gonçalo Lopes, não somos tímidos e defendemos abertamente que todo o setor energético deve ser nacionalizado, sob controlo dos trabalhadores, da produção à distribuição, sem indemnizações. A crise climática e a guerra no Irão deixam mais uma vez muito nítido que o setor energético é um bem público estratégico para o conjunto da população e não pode estar submetido às necessidades de lucro de grandes acionistas. Os impostos cobrados pelo seu consumo devem ser progressivos, ou seja, os trabalhadores e pequenas empresas devem pagar menos e as grandes empresas devem ser sobretaxadas. Os lucros gerados pela produção e distribuição de energia devem ser investidos na transição para energias renováveis e para o fim dos combustíveis fósseis. Uma transição que não se pode converter em mais uma fonte de lucro e do aumento da exploração sobre os trabalhadores, mas sim numa resposta necessária para uma vida digna e para a sustentabilidade do planeta.

