Entrevista a ativista dos Coletes Amarelos: Fora, Macron!

Protesters wearing yellow vests, a symbol of a French drivers' protest against higher diesel taxes, face off with French gendarmes during clashes at the Place de l'Etoile in Paris, France, December 1, 2018. REUTERS/Stephane Mahe

A Voz Socialista (SV)[1]  entrevistou Philippe, professor, sindicalista do Sud Education e da central Solidaires e membro ativo da luta dos Coletes Amarelos em França.

SV: A luta dos coletes amarelos começou a 17 de novembro de 2018 com uma enorme explosão de raiva. Que razões a motivaram?

É fruto das políticas de grande austeridade levadas a cabo durante décadas e que pioraram dramaticamente as condições de vida de uma grande parte da população devido aos baixos salários e ao trabalho precário. Começou fora de Paris, nas províncias, e a partir de janeiro desenvolveu-se em Paris e nos arredores da cidade.

Nicolas Sarkozy foi eleito presidente em 2007. Agindo em nome da classe dominante e dos privilegiados tentou ver-se livre de todas as proteções e salvaguardas existentes no nosso sistema social, incluindo a segurança social, as pensões públicas e as leis do trabalho.

Entre 2007 a 2012 foi apenas parcialmente bem-sucedido devido à resistência generalizada dos trabalhadores. Perdeu as eleições seguintes para François Hollande (social-democrata do Partido Socialista). Este prometeu que ia lutar contra o capital financeiro, mas continuou o ataque aos direitos dos trabalhadores e perdeu toda a credibilidade muito antes de sequer chegar ao fim do mandato.

Nas eleições seguintes, Emmanuel Mácron, que ficou conhecido como o “presidente dos super-ricos”, foi eleito. Mácron tentou esconder a brutalidade do seu programa autointitulando-se progressista e modernizador. Mas continuou a alargar as leis antitrabalhadores aprovadas por Holland em 2016.

Quando tomou posse, em setembro de 2017, impôs leis que retiravam direitos aos trabalhadores, mas antes viu-se livre do imposto sobre os lucros do capital de investimento e baixou os impostos para as grandes empresas através de uma taxa fixa sobre os dividendos obtidos com ações bolsistas.

A reação dos dirigentes sindicais foi miserável. Houve algumas manifestações, mas não organizaram nada que pudesse parar este projeto e Mácron ganhou a primeira batalha.

Na primavera de 2018, Mácron atacou os direitos educativos. O método de seleção dos estudantes foi alterado e tornou-se mais difícil para os estudantes da classe trabalhadora entrarem nas universidades. De março a junho de 2018, houve várias lutas nas universidades.

Ao mesmo tempo, continuou a desmantelar a empresa pública de caminhos de ferro e restringiu os direitos de organização e mobilização dos trabalhadores ferroviários. Isso abriu o caminho para a privatização dos caminhos de ferro e está previsto o encerramento de 9000 Km de linha férrea.

Mácron enfrentou os ferroviários porque queria dar uma lição a trabalhadores com uma grande história de luta. A estratégia de luta decidida pela maioria dos dirigentes sindicais ferroviários, em particular o CGT (o principal sindicato da ferrovia) estava errada, pois consistia em fazer greve dois dias por semana e anunciar previamente os dias das greves, o que deu oportunidade ao SNCF (a empresa pública de caminhos de ferro) e ao Governo de se organizarem em torno da greve, tornando-a ineficaz.

Também há ataques às pensões, ao subsídio de desemprego e ao investimento público em educação, o que significa um aumento da desigualdade. Por exemplo, os pensionistas tinham de pagar valores mais altos para a segurança social nacional.

Por isso, quando Mácron aumentou os impostos sobre o gás e gasóleo, foi a gota de água para muita gente, porque aqueles que vivem nos subúrbios ou zonas rurais gastam uma grande parte dos seus salários em transportes. O Governo apresentou a decisão como uma medida para proteger o ambiente, mas os manifestantes encheram as ruas e três semanas depois Mácron cancelou o aumento do imposto sobre os combustíveis.

SV: Porque é que os protestos continuam?

O recuo de Mácron encorajou os coletes amarelos. Continuaram a encontrar-se nas rotundas, a ocupar as portagens nas autoestradas, a bloquear refinarias, estradas e bombas de combustível. Discutiram os temas que alimentavam a sua raiva e decidiram lutar por salários mais altos e pensões melhores, porque os seus salários e pensões são muito baixos.

Os coletes amarelos estão determinados a verem-se livres de Mácron, a reivindicação “Fora Mácron” unificou a luta e ela continua.

As pessoas no movimento acham que a democracia é uma farsa e eles precisam de uma verdadeira democracia.

Mácron disse que o salário mínimo ia aumentar 100 euros por mês, mas na verdade mentiu e tentou manipular as pessoas. A maioria não recebe um grande aumento, os problemas sociais são muito profundos e mantêm-se.

SV: Qual é agora a resposta de Macron ao movimento?

A primeira resposta de Mácron é a repressão, com a Polícia a destruir as barricadas dos coletes amarelos e os locais estes construíram para se reunirem. Enviou muitos agentes da polícia contra os coletes amarelos – 10,000 agentes em Paris e até 89,000 agentes a nível nacional. Usaram “armas não-letais” que estão “proibidos” de apontar ao rosto ou aos genitais, mas mesmo assim fizeram-no! A Polícia usa todo um arsenal de armas controversas. Entre elas contam-se as bombas de gás lacrimogéneo, que criam nuvens de gás com 600 m de altura, as balas de “borracha”, que já causaram inúmeros ferimentos, e granadas de balas de borracha, que podem rebentar uma mão ou um pé se lhes tocarmos.

Cerca de 2200 pessoas já foram feridas, 100 delas severamente: 22 pessoas perderam um olho (algumas com tiros disparados à queima-roupa), 5 perderam uma mão… algumas ficaram de tal forma mutiladas que não podem mais trabalhar. Dezenas de pessoas estão gravemente feridas.

Até agora, cerca de 8000 pessoas foram detidas, 1796 foram condenadas e há 316 mandatos de detenção. Algumas das sentenças são ridiculamente duras.

O Governo disse carradas de mentiras sobre os manifestantes. Por exemplo, disse que eram “contra o ambiente”, quando na verdade eram contra o pesado aumento do preço do combustível, e que eram “antissemitas”, quando foi um pequeno bando de fascistas vestidos com coletes amarelos que usou linguagem antissemita. Tentaram manipular a opinião pública criando um “grande debate” com o objetivo de pôr as pessoas a discutir quais os serviços públicos que preferiam salvar, enquanto as medidas de austeridade já implementadas não podiam ser questionadas.

Nos dias que antecederam a grande manifestação nacional agendada para 16 de março, intelectuais de extrema-direita e destacados jornalistas denunciaram os colegas amarelos na televisão. Diziam que eram “idiotas” com “baixos QIs” com quem era impossível argumentar ou debater.

Foi assim que o Estado se preparou para justificar a brutal repressão policial durante a manifestação nacional e até antes de ela começar, com a Polícia a atacar com gás lacrimogéneo e detenções. Não tiveram problemas em disparar e foram extremamente agressivos. Grandes nuvens de gás lacrimogéneo envolveram o Arc de Stations. A Polícia prendia pessoas que depois libertava sem qualquer acusação.

No entanto, é provável que a luta tenha conseguido atrasar algumas contrarreformas-chave e mais ataques às pensões.

SV: Como é que a luta pode avançar?

A questão do controlo democrático tem vindo a ganhar terreno porque houve pessoas do movimento que falavam em seu nome sem estarem mandatadas para isso. Mas um dos problemas do Governo é que não pode manipular os dirigentes porque não existe uma verdadeira autoridade. Por exemplo, o Governo convidou oito dirigentes em dezembro, mas só um apareceu e queria gravar a reunião; o Governo não autorizou e, portanto, a reunião acabou.

Há assembleias democráticas e algumas tentativas de construir assembleias nacionais democráticas. A primeira assembleia de assembleias foi no final de janeiro, em Commercy, uma pequena vila no Leste de França. Há 75 assembleias locais que enviaram dois delegados, um homem e uma mulher. No total viajaram 400 pessoas para ir à assembleia nacional.

Houve longos debates e, no início, foi difícil determinar quem tinha legitimidade para votar. Uma assembleia local podia ser uma vila, uma cidade ou um grupo de coletes amarelos constituído em torno de uma rotunda.

Foi decidido convocar uma greve geral. A assembleia acabou por ser a favor de uma melhor ligação com os sindicatos organizados, mas houve também duras críticas aos líderes sindicais. A maioria compreende que há uma diferença entre os sindicalistas que fazem as lutas e as lideranças sindicais, que atacam os coletes amarelos e são venenosas.

A assembleia defendeu uma greve geral renovável, porque a CGT tinha convocado uma greve geral de um só dia para 5 de fevereiro. A CGT não organizou nem mobilizou muito em torno da greve. Outra greve geral foi convocada pela CGT para 19 de março.

A ideia principal era construir uma assembleia de assembleias, construir democracia local e não permitir que ninguém decidisse pelo movimento. A próxima assembleia nacional será no porto de St. Nazaire.

Os coletes amarelos em muitas áreas e setores compreendem que é necessário trabalhar com militantes sérios e honestos para construir uma aliança estratégica e que a greve geral é essencial para conseguirem as reivindicações da sua luta. No sul de França e noutras áreas, como Nanterre, próximo de Paris, os coletes amarelos escreveram aos sindicatos locais para construírem uma luta comum e defenderem os coletes amarelos.

A central sindical Solidaires é a que mais apoia os coletes amarelos, mas em termos gerais muitos sindicatos estão divididos. Por exemplo, alguns ativistas e filiais do CGT trabalham com os coletes amarelos, mas alguns seguem os líderes do CFT que atacaram os coletes amarelos.

Os coletes amarelos têm força suficiente para perturbar o Governo de Mácron. A burguesia estava muito preocupada no início porque o movimento pode bloquear a economia em alguns locais, mas a verdade é que é necessária uma greve geral para parar a economia nacional.

É absolutamente necessário que os revolucionários participem no movimento dos coletes amarelos. Muitos na extrema-esquerda tinham outra opinião, mas o movimento é aberto e receptivo e tem um enorme potencial anticapitalista. Na minha perspetiva, os coletes amarelos têm de tomar a iniciativa de continuarem a auto-organizar-se geograficamente e a construírem a sua organização como parte da luta pela derrota do capitalismo.

O movimento dos coletes amarelos pode evoluir para algo muito mais amplo e incluir a luta nas fábricas e locais de trabalho, mas apenas através de uma greve geral. Estamos a plantar as sementes que podem ser usadas como pano de fundo de uma nova democracia, porque precisamos de controlar a produção e definir as necessidades locais.

Muito importante: o movimento dos coletes amarelos rejeitou forças fascistas em muitos sítios e os fascistas foram expulsos das manifestações.

Há um número crescente de manifestações e de greves (e algumas ocupações) na educação e na luta das mudanças climáticas. Pode haver uma aliança entre os coletes amarelos, os estudantes e as greves locais – um apoio que tenha dois sentidos.

ISL – International Socialist League

Traduzido por Em Luta a partir do original em inglês publicado aqui.

[1]Refere-se ao Socialist Voice, jornal da International Socialist League (ISL), secção da LIT-CI na Grã-Bretanha.