A crise dos refugiados: naufrágio da União Europeia

In this Nov. 1, 2015 photo by Sergey Ponomarev, migrants arrive by a Turkish boat near the village of Skala, on the Greek island of Lesbos. Ponomarev, Mauricio Lima, Tyler Hicks and Daniel Etter, of The New York Times, won the Pulitzer Prize for breaking news photography for photographs that captured the resolve of refugees. Thomson Reuters staff also won for photos of migrants covering hundreds of miles. (Sergey Ponomarev/The New York Times/Columbia University via AP)

As capas da imprensa estão normalmente ocupadas pela “crise económica” e  por gráficos com os altos e baixos da bolsa de valores. Raramente se concentram na verdadeira “crise social” que desagrega a Europa. A “crise dos refugiados” expôs o verdadeiro rosto desta União Europeia e dos Governos que a constituem.

Num sistema em decomposição, a pobreza e as guerras aumentam. Os números são incontestáveis: a nível global, havia, em 2005, 6 pessoas deslocadas por minuto. Uma década depois, esse número multiplicou-se para 24 pessoas por minuto. Metade dessas pessoas são crianças, parte delas viajando sozinhas. As principais nacionalidades de origem são a Síria, o Afeganistão e a Somália.

A UE rejeita os refugiados

Frente a este drama humano, a UE e os seus Governos – do Syriza a Le Pen, passando pelos Governos “socialdemocratas” ou “conservadores-liberais-democratas-cristãos” – têm respondido com uma política semelhante. A principal resposta tem sido “subcontratar” a receção dos refugiados à Turquia, cujo Governo é bem conhecido por assassinar refugiados a tiro nas suas fronteiras. Em troca, o Governo turco recebe milhares de milhões de euros. Só os barcos para enviar os refugiados para lá custam 3 milhões de euros, mas poupa-se nos custos de acolhimento. Cavaram-se valas, usou-se a Polícia e o Exército para impeder violentamente a passagem dos refugiados, encerraram-se fronteiras. Como resultado, até ao momento, o Estado espanhol apenas recebeu 474 pessoas, um número ridículo.

Perante o encerramento de fronteiras, os refugiados têm que se arriscar a atravessar o mar seja em que condições for. Quem ganha são as máfias: enquanto que uma passagem normal de barco da Turquia para a Grécia custa pouco mais de 40€, os refugiados gastam as poupanças da família em passagens de 4000€ em barcos insufláveis. Perante o endurecimento do controlo costeiro nessa rota, são cada vez mais os que optam por fazer a travessia através da rota mais perigosa: da Líbia para Lampedusa. Só neste início de ano, já se afogaram mais de 4000 pessoas no Mediterrâneo, parte delas crianças.

Quando conseguem fazer a travessia, os refugiados ficam presos em verdadeiros campos de concentração durante meses (em alguns casos há já anos). Sem escolarizaçãoo para as crianças, sem possibilidade de saírem; vivem numa verdadeira prisão em condições infrahumanas. Não há nada para fazer, vive-se em sobrelotação, com uma alimentação insalubre. As mulheres dormem com fraldas para não terem de sair durante a noite para irem à casa de banho.

Como protesto perante esta política, os Médicos Sem Fronteiras recusaram as subvenções da UE. Inclusivamente, a Defensora do Povo Europeu denunciou a União Europeia por “infringir os Direitos Humanos fundamentais”.

A extrema-direita e o racismo

A situação de crise social que já se vivia nos países europeus, serviu como terreno fértil para o surgimento da extrema-direita racista. “Se não há trabalho ou ajuda social para os nacionais, não podemos aceitar estrangeiros” é o mantra que eles repetem constantemente. A isso acrescentam a retórica “antiterrorista” (ainda que, na realidade, sejam basicamente europeus os terroristas que se mudam para a Síria e não vice-versa) e a islamofobia.

Era previsível que as organizações fascistas tentassem aumentar a sua credibilidade assim, mas todo o espectro de Governos europeus seguiu o mesmo caminho, inclusivamente os supostamente “esquerdistas”. França desencadeou a paranoia islamofóbica, com polícias armados a despirem mulheres muçulmanas à força na praia. O Syriza demoliu edifícios preparados por movimentos sociais para acolherem condignamente os refugiados para os deportar. Em Barcelona, Ada Colau declara a cidade “acolhedora” enquanto persegue os vendedores ambulantes.

A resposta solidária

Felizmente, a resposta popular tem estado muito acima da dos Governos. Milhares e milhares de pessoas em toda a Europa se mobilizaram com os seus próprios recursos para acolherem os refugiados. Manifestações, redes de acolhimento, envio de ajuda humanitária, caravanas à Grécia, voluntariado na fronteira e nos acampamentos, enfrentamento com os movimentos racistas e fascistas, denúncias dos Governos e da UE, campanhas financeiras para sustentar a atividade… Este é o rosto da Europa que queremos.

Aprofundar e alargar esta resposta é tarefa de cada ativista. É deste tipo de movimentos sociais, em aliança com o movimento operário organizado, que se poderá construir uma Europa diferentes da UE de que hoje padecemos.

Refugiados, bem-vindos! Uma política para o acolhimento

Abaixo todos os Governos e a UE: Passagem segura e fronteiras abertas para os refugiados e migrantes económicos. Acolhimento condigno: habitação, educação, saúde, emprego e integração para os que chegam.

Os recursos existem, só é preciso destiná-los a isto em vez de os gastar em resgates milionários da branca, em recolocações a dedo de corruptos como Soria no Banco Mundial ou em subsidiar parasitas e corruptos como a família real ou a Igreja. Expropriar as grandes fortunas que beneficiaram do comércio de armas, do saque imperialista de recursos naturais e da exploração laboral nos países empobrecidos da América Latina, África e Ásia.

Racistas e fascistas não passarão! Nem um minuto de descanso às iniciativas racistas, nenhuma trégua em ponto nenhum da Europa. Fim da islamofobia.

A melhor ajuda aos refugiados é ajuda-los a poderem voltar aos seus países. Contra as ditaduras e o extremismo islâmico, solidarizamo-nos com as revoluções pela liberdade e pela justiça social da “Primavera Árabe” e com aqueles que continuam hoje a levantar as suas reivindicações. Rejeitamos as intervenções militares e os bombardeamentos por países como a Rússia, Irão, Turquia ou Arábia Saudita, e rejeitamos especialmente as bases norte-americanas no Estado espanhol.

Contra o crescimento da extrema-direita e frente ao fracasso dos velhos “partidos socialistas” e da “esquerda da mudança”, construamos uma alternativa revolucionaria, operária e socialista em toda a Europa. 

A União Europeia não é a Europa próspera, com direitos, solidária e em paz que nos tentaram vender. A Europa desagrega-se e a barbárie alastra. O futuro vai assemelhar-se mais às piores experiências históricas que devastaram o continente do que a outra coisa. Objetivamente, é nessa direção que vamos. O capitalismo e o imperialismo lucram com a exploração, precisam da guerra para espoliar, fomentam o nacionalismo mais rançoso e o racismo para encontrarem bodes expiatórios sobre quem descarregar a frustração popular.

Queremos uma Europa unida, mas não será esta UE. Precisamos de uma mudança de rumo de 180º, uma ruptura radical com aqueles que hoje nos governam. Queremos uma Europa dos trabalhadores e dos povos, com direitos sociais e liberdades, de paz, solidária e de acolhimento, ou seja, uma Europa socialista.

J. Parodi, da Corriente Roja, secção da LIT-QI no Estado Espanhol