O que o resultado das eleições não conta: a Geringonça governa para os ricos!

Quem visse os resultados das eleições poderia pensar que tudo vai bem por terras de Portugal. Mas será mesmo assim?

Os novos passes – de que BE e PCP se apressaram a disputar autoria – estão aí. Mas foi para favorecer os transportes públicos? O caos por que passam, todos os dias, os que os utilizam, mostra bem que a qualidade não melhorou e a quantidade não assegura o mínimo: não há uma verdadeira política pública de transportes.

Foi para melhorar o meio ambiente? Sabemos que o Governo estava preocupado em garantir a todo o custo as buscas de petróleo no Algarve e até agora nada fez para mudar a política florestal que destrói o país. Não é por motivos ecológicos que foi implementado.

Terá sido, então, para esconder a brutalidade da especulação imobiliária? A Geringonça mantém a lei das rendas de Assunção Cristas, nada faz perante as demolições em bairros autoconstruídos ou os desalojamentos para favorecer o turismo e agora apresenta um programa de “rendas acessíveis” (para ricos) que legaliza a especulação imobiliária. Enquanto expulsa os trabalhadores das cidades, baixa os transportes, para garantir que conseguem vir trabalhar.

Para o Governo e seus mandantes, como se viu no caso da Autoeuropa, a nossa vida é trabalhar, trabalhar, com baixos salários e a um ritmo cada vez mais destruidor da saúde física e psicológica. Família, descanso ou lazer são um privilégio para os mais ricos.

O caso Berardo ou a gestão privada da TAP mostram a duplicidade de critérios. O trabalhador tem que dar todas as garantias para conseguir um crédito; se falha um pagamento, é duramente punido; os capitalistas e banqueiros utilizam o dinheiro do Estado para beneficíos próprios e sabem que, no final, estão protegidos.

A Geringonça continua a lógica de governos de PS/PSD/CDS: pagam a privados para fazerem grandes lucros, enquanto destroem o que é público: são as PPPs na saúde, as isenções fiscais aos proprietários das “rendas acessíveis”, o pagar aos privados para garantir transportes público, etc. A verdade é que Costa governa para os ricos, com o voto e o apoio de BE e PCP.

Contra o regime estabelecido, só as lutas dos trabalhadores e da juventude podem conseguir vitórias. Foi assim no caso da Cova da Moura, no qual a mobilização conseguiu que, pela primeira vez, houvesse punição da violência do Estado nos bairros negros. É também esse o caminho que nos mostram os trabalhadores no Brasil com a greve geral contra Bolsonaro. E só pode ser o caminho dos trabalhadores em Portugal, depois das corajosas greves dos enfermeiros, professores, estivadores e motoristas de matérias perigosas. Esse é o nosso caminho – o de construir uma alternativa dos trabalhadores – não o de querer disputar a próxima Geringonça, que nada mudará para quem trabalha.

Editorial, Em Luta nº 16 (Junho 2019)