EDITORIAL | TAP: Governo opta por resgatar os patrões e mantém a instabilidade para os trabalhadores

Para o Em Luta, as notícias de ontem acerca do “controlo pelo Estado” da TAP não são boas. Significam, claramente, um endividamento da Companhia, onde mesmo o Estado, agora acionista maioritário (veremos de que tipo), irá tomar sem dúvida medidas contra os trabalhadores. Este Estado é o mesmo que, nos últimos meses, aplicou estados de emergência, utilizou a ferramenta do layoff a favor das empresas, proibiu greves, aplicou requisições civis, em suma, é um Estado que resgata os privados em vez dos trabalhadores; é um Estado que não representa a classe trabalhadora.

A indemnização dada ao acionista representado por David Neelman é mais um exemplo de quem é que o Estado representa. Os privados, há cinco anos, pagaram 10 milhões; com os empréstimos obrigacionistas, estão a ganhar milhões em juros e para sair David Neelman recebe 55 milhões pelos seus 22,5%. A Companhia ficará com o acionista nacional, que detém os outros 22,5% (Pedrosa do Grupo Barraqueiro), num claro sinal de que o caminho é aumentar a participação privada.

Desengane-se quem ouve falar da boca do Governo e de outras entidades que não vai haver despedimentos. Este empréstimo autorizado pela União Europeia (UE) diz na sua curta comunicação[i], claramente, que ou se paga o empréstimo em 6 meses (não é gozo) ou se faz um plano de reestruturação a apresentar em 6 meses que inclui redução de frota, rotas e postos de trabalho. Pela conhecida submissão e subserviência à UE, a saída será mesmo essa. Aliás, olhemos para o mundo em crise e para as outras empresas de aviação e facilmente concluímos que todas estão a aproveitar para reduzir postos de trabalho, mesmo as que antes da epidemia eram lucrativas, ao contrário da TAP. A Lufhtansa, por exemplo, apresenta lucros milionários e vai, nesta lógica, reduzir custos, despedindo mais de 20.000 trabalhadores para aumentar os lucros.

Basta de salvar os ricos! Para resgatar os trabalhadores, não os privados, precisamos de uma verdadeira nacionalização da TAP e da Groundforce, com garantia de nenhum despedimento, sem nenhuma indemnização aos privados e sob controlo dos trabalhadores! Só assim se garantem os postos de trabalho e um transporte aéreo de qualidade, seguro, tendo em conta a integração e investimentos noutros meios de transporte com coerência ambiental.

Assim, e como a “procissão ainda vai no adro”, é urgente começar desde já a combater o projeto do Governo e da UE para a Companhia. Para tal, é fundamental que todas as organizações dos trabalhadores comecem a mobilizá-los para o que aí vem, pois só a nossa mobilização poderá resolver o plano que está aqui montado.

Notas

[i] https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/ip_20_1029?fbclid=IwAR3lOcHw7pQ07-I6WQrtejCksQhGmHDbLdA-FJEHvUPnLT-OjBtkhmXnUlA