Nissan Barcelona: A necessidade de uma resposta internacional dos trabalhadores no sector automóvel

O sector automóvel já estava em mudança antes da pandemia, mas com a Covid-19 muitas empresas aproveitaram para acelerar os planos de reestruturação. É esse o caso do grupo Renault-Nissan-Mitsubishi que se prepara para despedir 23 mil famílias, com o encerramento da fábrica da Nissan de Barcelona.

No sector automóvel, a crise de 2008 não ficou resolvida. Houve de forma generalizada, em todo o sector, um aumento do ritmo de trabalho e, portanto, da taxa de exploração dos trabalhadores. Em comparação com os tempos anteriores à Grande Recessão, nome pelo qual ficou conhecida a crise de 2008, hoje produz-se mais com menos custos para as empresas. Há mais precariedade, principalmente nas cadeias de fornecedores, mas também nas linhas de montagem dos fabricantes do sector.

O carro elétrico para responder à crise

As empresas não ficaram sem lucros, mas no capitalismo o objetivo é sempre aumentar. Assim, a resposta a essa crise foi planear uma reestruturação profunda do sector, com o tema da reconversão energética da qual o carro elétrico é a principal proposta. Como sabemos, o carro elétrico ainda não é hoje uma solução mais sustentável ecologicamente. A pegada da produção de baterias, somada à sua baixa autonomia, não representam uma solução que respeite o ambiente. A persistência dos fabricantes do sector com o assunto anunciava então que a preocupação seria com a necessidade de reestruturar o sector, com menos gente e mais automatizado, ao mesmo tempo procurando um novo mercado cada vez mais preocupado com as questões ambientais. O objetivo era inverter uma tendência da queda da taxa de lucro no sector.

O aparecimento de grandes grupos para manter os lucros

Não fosse o elétrico um bom reflexo de que a crise de 2008 não ficou resolvida, todos os movimentos entre marcas que se fizeram sentir nos anos seguintes à crise, demonstraram isso mesmo. Se no pico da crise foi nos EUA que mais se sentiu este processo, com a profunda reestruturação da GM que despediu milhares de trabalhadores e reduziu significativamente os salários dos que ficaram, esta não foi caso único. Na Europa e na Ásia deram-se fusões importantes em grandes grupos, mostrando uma tendência ao crescimento de monopólios no sector, o que por norma está associado a uma dificuldade de sobrevivência dos lucros. A Fiat italiana juntou-se à Chrysler norte-americana, formando o grupo FCA. Em França, a Renault juntou-se aos japoneses da Nissan e da Mitsubishi, resultando em mais um gigante do sector.

Encerramento da Nissan Barcelona

Com a pandemia chegou a desculpa perfeita para um sector que continua com graves problemas na perspetiva dos seus patrões. Aceleram-se os processos de reestruturação e as tendências que já vinham de antes de precarização, subcontratação, aumento de ritmos e redução de salários. O caso da atualidade é a Nissan de Barcelona. A empresa prepara-se para encerrar e acabar com milhares de postos de trabalho depois de ter acumulado lucros de mais de 300 milhões de euros nos últimos 9 meses. O grupo Renault-Nissan-Mitsubishi resultou já de uma tentativa destas importantes marcas sobreviverem ao turbilhão da Grande Recessão. Lembremos que durante os últimos anos a marca francesa, por exemplo, destruiu milhares de postos de trabalho. Embora este seja o caso do momento, em breve parece que não será o único.

 Uma resposta de unidade internacional dos trabalhadores

A esta ofensiva dos patrões do sector, os trabalhadores têm de opor uma forte resistência que não poderá restringir-se às fronteiras nacionais de cada país. Não pode imperar, num sector fortemente globalizado, uma lógica egoísta nacional. Cada foco de ataque da patronal a nível nacional, deve ter uma resposta internacional de solidariedade ativa. É esse o desafio que está hoje colocado aos sindicatos, comissões de trabalhadores e a cada trabalhador do sector automóvel. Ou sobrevivemos todos, ou o futuro será de derrotas para cada um.

A esta ofensiva dos patrões do sector, os trabalhadores têm de opor uma forte resistência que não poderá restringir-se às fronteiras nacionais de cada país. Não pode imperar, num sector fortemente globalizado, uma lógica egoísta nacional. Cada foco de ataque da patronal a nível nacional, deve ter uma resposta internacional de solidariedade ativa. É esse o desafio que está hoje colocado aos sindicatos, comissões de trabalhadores e a cada trabalhador do sector automóvel. Ou sobrevivemos todos, ou o futuro será de derrotas para cada um.

Arnaldo Cruz