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Em Luta lança livro : “50 anos de abril: um debate sobre reforma ou revolução em Portugal”

Nos 50 anos do 25 de abril, lançamos um livro que é produto de um trabalho militante de elaboração política e programática coletiva do Em Luta. Ela teve como ponto de partida a obra do revolucionário Nahuel Moreno Revolução e contrarrevolução em Portugal, escrita no verão de 1975, como parte das polémicas entre a esquerda trotskista da época. Recuperando as suas principais leituras políticas para os dias de hoje, quisemos, todavia, ir além desta obra.

Hoje vivemos em Portugal uma profunda crise social e política. Como vamos sair dela? Uma parte da esquerda propõe-nos um caminho de reformas assentes numa política essencialmente parlamentar. Outros, como nós, defendem que é necessária uma nova revolução para sair da barbárie em que o capitalismo nos vem encurralando e construir verdadeiramente o socialismo (uma sociedade sem exploração e opressão), tanto em Portugal como internacionalmente.

Este não é um debate novo ao nível do movimento histórico dos trabalhadores. Em 1900, Rosa Luxemburgo polemizava contra a estratégia de chegar ao socialismo através de reformas, defendida por Eduard Bernstein dentro do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), o maior partido da II Internacional da época, reafirmando, pelo contrário, a necessidade de uma rutura revolucionária.

Estudar a revolução portuguesa para nós é, por isso, conhecer e aprender com aquela que foi a última grande revolução operária da Europa Ocidental, mas acima de tudo buscar as respostas para entender como chegámos até aqui.

Por isso, começamos com uma cronologia, que pretende familiarizar o leitor com os principais acontecimentos do período revolucionário.

Seguimos com um artigo sobre a avaliação do processo revolucionário, os projetos em disputa das principais direções políticas e as derrotas que estas infligiram aos organismos de duplo poder e auto-organização da classe trabalhadora. Este artigo fala-nos ainda de como a forma como a revolução foi derrotada nos trouxe às características do país que temos hoje, concluindo com algumas lições centrais do processo para a construção de um programa revolucionário frente à atual crise social.

No artigo “PCP: indispensável para a democracia burguesa”, a partir de uma breve história do percurso deste partido, analisamos o seu papel na revolução portuguesa, mas também na construção do regime democrático, para melhor entender porque este não é, na nossa opinião, uma alternativa frente à crise atual.

Para enquadrar o contexto em que surgiu a revolução portuguesa, o artigo “A ditadura portuguesa nos anos 60-70: às portas da revolução socialista” explora a reorganização operária e na juventude que antecede e prepara a revolução, mas também as contradições que advinham da crescente integração da economia portuguesa no capitalismo internacional. Estes dois elementos lançam as bases para compreender a história da reorganização do movimento operário, mas também as contradições de Portugal no pós-II Guerra e a sua relação com a subordinação da economia portuguesa hoje à UE.

Falar do 25 de Abril é também voltar à sua ligação umbilical com as revoluções anticoloniais africanas, mas também as tarefas incompletas que ficaram por cumprir no que toca à herança do nacionalismo colonialista e a sua relação com a luta antirracista nos dias de hoje em Portugal, bem como alguns dos desafios que enfrentaram as revoluções nos países africanos de língua portuguesa depois da independência.

Frente à incontornável crise da habitação nos dias de hoje, procurámos também olhar como este problema foi encarado pela luta popular durante a revolução e como o que ficou por fazer nos dá pistas para pensar alternativas frente à situação atual.

No âmbito da crítica, para nós fundamental, aos projetos de conciliação com a burguesia, debatemos com a obra “Anti-Dimitrov”, de Francisco Martins Rodrigues, onde este polemiza com as frentes populares também numa crítica às saídas reformistas da esquerda, mas não vai até ao fim na rutura com o projeto estalinista que está na sua origem.

No texto “Memórias de dois militantes revolucionários” recuperamos a história da nossa corrente na revolução. O Em Luta é uma organização que surgiu em 2016, mas que integra a Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI), fundada por Nahuel Moreno, cuja corrente começou a atuar e intervir em Portugal nos anos de 1974/75. Nesse sentido, solicitámos dois depoimentos de jovens que estiveram no início da construção dessa corrente em Portugal, que se iria expressar na altura no Partido Revolucionário dos Trabalhadores e no seu jornal Combate Socialista, cujas capas de jornal selecionámos como parte dessa herança e do fio condutor que nos liga de forma militante a essa época.

Finalmente, entrevistámos o dirigente sindical João Reis para entender como esta herança e lições que retiramos da revolução portuguesa podem ajudar os ativistas a pensar caminhos alternativos para a atual crise social e política.

A história das várias revoluções no mundo, e também a revolução portuguesa de 1974/75, mostra-nos, assim, que as revoluções, como defendia Trotsky, só são impossíveis até ao momento em que se tornam inevitáveis. A revolução que se abriu em Portugal a 25 de abril de 1974 mostrou que o caminho para o socialismo através de reformas no parlamento mais uma vez falhou. Mais, foi a derrota da revolução às mãos dessa estratégia que nos trouxe até ao capitalismo neoliberal e feroz que hoje enfrentamos. Este é, por isso, o ponto de partida para alicerçar uma luta ideológica e programática por uma estratégia revolucionária, que aprenda com o passado para pensar um projeto verdadeiramente socialista de país para o futuro. Este livro procura contribuir para este objetivo.