Em breve seremos chamados a votar para o cargo de Presidente da República. Este processo eleitoral surge num contexto de profunda crise política e de representatividade do regime que se consolidou após a derrota da revolução portuguesa há 50 anos. A dispersão de candidaturas e o peso do discurso do “apartidarismo” não são sinais de vitalidade da democracia das elites, mas antes sintomas de um sistema que não consegue traduzir as aspirações e lutas reais da maioria da população, dos trabalhadores e da juventude.
Um mundo doente
Esta crise não pode ser dissociada do desnorte estratégico de Portugal num quadro europeu que caminha para um beco sem saída. A submissão das potências europeias por um lado à dependência energética da Rússia e ao mercado chinês, e por outro aos interesses dos EUA, traduz-se numa escalada militarista, visível tanto na cumplicidade com o genocídio do povo palestiniano, como na passividade diante das ingerências norte-americanas contra países soberanos. Este contexto internacional de crise agrava também as contradições internas em cada país e leva a novos ataques aos direitos sociais e laborais, que são fruto da tentativa de governos e patrões de procurarem enfrentá-la a partir do aumento da exploração e da degradação das condições de vida dos trabalhadores e da juventude.
Ataques do governo e a resistência dos trabalhadores
Em Portugal, podemos confirmar esta dinâmica. O governo de Luís Montenegro, apesar de minoritário, governa com o apoio cúmplice, ora explícito ora tácito, quer do Chega, quer do PS. Esse bloco de sustentação tem permitido um ataque generalizado às condições de vida da população: agravamento da crise da habitação, degradação do SNS, políticas racistas e discriminatórias em matéria de imigração e nacionalidade, e um pacote laboral que representa uma ofensiva, como há muito não se via, contra os direitos dos trabalhadores.
Face a estes ataques, os últimos meses do ano de 2025 mostraram que existe vontade de lutar. A juventude, em particular, esteve na linha da frente da mobilização contra o genocídio na Palestina, rompendo a cumplicidade do governo e da extrema-direita, mas também do PS. Mais tarde, o conjunto da classe trabalhadora, através de uma grande greve geral contra o pacote laboral, demonstrou que não aceita resignar-se a uma vida de precariedade e exploração. Milhares de norte a sul participaram em plenários e nas ações do dia da greve geral de 11 dezembro, marcando uma agenda política onde não coube a narrativa do governo e perante a qual o Chega se teve de reposicionar, de forma oportunista, vendo-se forçado a dizer que afinal votaria contra a reforma se o Governo não fizesse cedesse em algumas medidas.
No entanto, perante a dimensão dos ataques, e mesmo com esta disposição de luta que vimos na greve geral, o sindicalismo tradicional, CGTP e UGT,dirigidos pelo PCP e pelo PS respetivamente, recusa-se até ao momento a construir uma estratégia consequente. A ausência de um plano para a continuidade das mobilizações e de uma estratégia de confronto abriu espaço à paralisia, desviando energias para o calendário eleitoral destas presidenciais.
É por isso indispensável arregaçar as mangas e trabalhar para a construção de um plano de lutas que enfrente o pacote laboral e todos os ataques do governo Montenegro, articulando os diferentes setores e movimentos sociais, reforçando a organização de base e recuperando a iniciativa dos trabalhadores.
Ventura: dividir os trabalhadores para fazer o jogo dos patrões
Atravessamos um momento desafiante. É incontornável, também neste processo eleitoral, o crescimento da direita e da extrema-direita, cujo discurso têm tido impacto na consciência dos trabalhadores, mas também nas políticas dos governos de turno e dos principais partidos do regime. Veja-se o PS de Loures contra os habitantes do Talude, ou as propostas sobre imigração e nacionalidade do governo Montenegro, do PSD. Não achamos que isto signifique, neste contexto, uma impossibilidade para o avançar das lutas dos trabalhadores, mas identificamos um obstáculo que os trabalhadores têm de confrontar para avançar na defesa dos seus interesses a partir da resistência aos ataques do governo.
É necessário combater o discurso da extrema-direita no terreno, retirando-lhe a máscara de “antissistema”. Demonstrando nas ruas, nas escolas, nas empresas e locais de trabalho, que estamos diante do projeto da ala mais radical desse sistema, que está organizado contra os trabalhadores. Desmascarando o seu apoio ao pacote laboral da ministra Palma Ramalho e a sua ausência de solução para a crise na habitação e a saúde pública. Ao mesmo tempo, combatendo o discurso de ódio que André Ventura usa de forma utilitária para dividir os trabalhadores, ao colocar nacionais contra imigrantes, perseguindo a comunidade LGBTQIA+ e endossando o discurso machista.
Isso começa por combater as políticas do governo, de forma consequente, a partir da mobilização dos trabalhadores. Foi aquilo a que assistimos: cada vez que os trabalhadores saíram à rua, o governo e o Chega ficaram à defensiva. André Ventura e os temas da extrema-direita saíram de cena, sendo substituídos pela necessária resposta dos trabalhadores na luta pelos seus interesses.
No entanto, não se combate a extrema-direita sem entender que o seu aparecimento é reflexo de um capitalismo em crise, no quadro da ausência de um campo político que proponha a sua superação por um sistema social e político que atenda às necessidades dos trabalhadores e do povo mais pobre. A esquerda parlamentar, agarrada a um regime em decadência, ao invés de procurar construir alternativas que sejam verdadeiramente contra o sistema, propõe-se a ser suporte da manutenção desse mesmo regime. Assim, não é possível intervir neste contexto sem um balanço crítico ao apoio da esquerda parlamentar, PCP e BE, aos governos de António Costa, a Geringonça, que ficou na memória dos trabalhadores como um governo de “esquerda” que não representou uma mudança para a classe trabalhadora e antes foi um dos principais responsáveis pela situação em que o país se encontra hoje. No mesmo sentido, também é importante expor os limites de uma esquerda parlamentar que não assume como seu um programa de ruptura com um projeto europeu que não é mais que uma arma de ataque das potências europeias contra os trabalhadores dos seus países e da periferia do continente, e ao mesmo tempo endossa crimes brutais como o genocídio do povo palestiniano.
Um país mais presidencialista é menos democrático
Sendo estas eleições presidenciais, é fundamental também refletir sobre a evolução do papel do presidente no contexto deste regime em crise. É indiscutível que o último período trouxe um presidente bastante mais presente na disputa e condução da política quotidiana do país. Tem sido assim durante os mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa. Vimo-lo, principalmente, durante os tempos do Covid-19 na defesa da limitação das liberdades democráticas do conjunto da população e em particular do recurso a ferramentas de luta por parte dos trabalhadores (p.ex. requisições civis, ou restrições à greve e às reuniões no local de trabalho). Esta reflexão ganha ainda mais importância no contexto do crescimento de uma extrema-direita que traz como proposta a alteração da Constituição. É por isso importante opormo-nos à normalização do peso da figura do presidente no dia-a-dia do país. Um país mais presidencialista será sempre mais antidemocrático.
À esquerda, um vazio de alternativas
À esquerda, partimos da constatação de que não existem candidaturas que coloquem no seu centro as lutas dos trabalhadores e da juventude. As lutas que marcaram os últimos meses de 2025 não aparecem com a centralidade em nenhuma candidatura à esquerda. Ao mesmo tempo, nenhuma questiona o regime no contexto da sua decadência. Limitam-se a propor melhorias, mantendo o sistema e sem propor uma superação do capitalismo, a necessidade de uma revolução.
Por um lado, temos a candidatura de Jorge Pinto, apoiado por um Livre cada vez mais preso ao PS. Colocando mesmo a hipótese de abdicar para António José Seguro.
Por outro, a candidatura de António Filipe, com uma centralidade entregue à defesa de uma Constituição que, na sua origem, foi arma para acabar com a verdadeira democracia dos trabalhadores: a democracia participativa dos conselhos de soldados, trabalhadores e de bairro que nos 70’s, durante o processo revolucionário, procuravam um caminho alternativo ao das elites do país. Ao mesmo tempo, uma Constituição que já se demonstrou letra morta na defesa dos setores públicos e dos direitos dos trabalhadores, a um trabalho digno, à habitação, saúde e educação. Esta centralidade deixa esta candidatura agarrada à defesa deste regime podre.
É verdade que, diante de uma possível revisão constitucional, defendemos todo e qualquer direito consagrado que seja colocado em causa. No entanto, consideramos acima de tudo que este regime, enquadrado por esta Constituição, não precisa e nem deve ser mantido, mas sim superado pelos trabalhadores e a juventude. Muito mais quando cada vez menos é garantia de uma vida digna para a maioria da população.
Ao mesmo tempo, a candidatura apoiada pelo PCP defende uma visão da política internacional contraditória. Veja-se a diferença entre a posição correta de defesa da Venezuela diante da ação militar dos EUA e aquela adotada aquando da invasão russa na Ucrânia, que implica a entrega de um estado ucraniano, geografia historicamente oprimida pelo imperialismo russo.
Por fim, entre as candidaturas à esquerda com alguma capacidade de alcance, temos também Catarina Martins, do Bloco de Esquerda. Uma candidatura que na nossa opinião carrega limites importantes ao não dar centralidade à divulgação e organização das lutas em curso contra o governo e, por outro lado, ao manter uma visão europeísta no quadro da União Europeia. Discordamos profundamente desta visão de que é possível um país voltado para atender as necessidades dos trabalhadores e do povo pobre no quadro de uma União Europeia que representa um travão para um desenvolvimento do país. Veja-se aquilo que significou o pacote de medidas de austeridade dos governos da PAF, de Passos Coelho, e da Troika (composta pelo Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia) no aumento da pobreza e da exclusão social. Ao mesmo tempo, uma União Europeia que é cada vez mais violenta contra os imigrantes e refugiados, e que é hoje abertamente cúmplice do genocídio do povo palestiniano.
Muitas críticas, um voto e um convite à reflexão
Apesar de encontrarmos várias debilidades entre as candidaturas existentes à esquerda, consideramos importante assumir uma posição que, ainda que crítica, procure combater o governo, o crescimento da extrema-direita e a desmoralização entre os ativistas.
Entre os vários problemas que identificamos nas candidaturas à esquerda, é para nós impossível defender o voto em quem escolhe a defesa do regime atual como eixo de campanha, como António Filipe, ou a consideração de apoio a uma candidatura de António José Seguro, como Jorge Pinto. É por isso que defendemos, nestas eleições, o voto em Catarina Martins. Um voto com várias críticas ao seu programa e proposta, mas ainda assim aquele que achamos a melhor localização possível neste processo eleitoral, entre as candidaturas que à esquerda terão mais impacto, e que permite acompanhar um setor do ativismo, dos trabalhadores e jovens, na batalha por um campo à esquerda, contra o governo e a extrema-direita.
No entanto, votamos em Catarina Martins não como um fim em si mesmo, mas como parte de um esforço mais amplo. Um voto como convite à reflexão aos e às ativistas dos movimentos sociais e do movimento sindical. É muito importante que o Bloco de Esquerda abra um profundo debate de balanço sobre a sua participação na Geringonça, que significou abrir mão de uma alternativa independente à esquerda para ajudar a sustentar um governo que manteve todas as medidas da Troika e aprofundou este projeto de país submisso à UE, voltado para o turismo e serviços, no qual os salários não chegam para as rendas. Ao mesmo tempo, em tempos em que se acentua cada vez mais a brutalidade da Europa Fortaleza, cúmplice do genocídio palestiniano, é urgente que o BE rompa com a visão europeísta, que não permite disputar por um projeto de país que esteja verdadeiramente a serviço dos trabalhadores. Por tudo isso, apelamos, acima de tudo, aos e às ativistas, aos trabalhadores e à juventude preocupada com o seu futuro, para que reflitam sobre a crise de representatividade à esquerda: como chegámos até aqui, que limites revelaram as soluções adotadas e de que forma podemos — e devemos — superá-los.
Recentrar o debate num plano de lutas contra o governo
Mais importante que a posição de voto, o nosso foco é na contestação ao governo e às suas políticas. Na ausência de candidaturas que elejam como eixo de campanha as lutas dos trabalhadores, é importante neste contexto debater a necessidade de, no futuro, construir candidaturas que não apenas dêem voz às lutas, mas que as impulsionem, as legitimem e as coloquem no centro do debate político.
Para nós, as eleições são um campo importante de disputa política, mas não um substituto da luta concreta do dia-a-dia dos trabalhadores por uma vida melhor. A nossa aposta central é na construção da resposta organizada dos trabalhadores aos ataques do governo. É aí, na mobilização coletiva, que reside a força capaz de abrir caminho a uma alternativa política e social à altura dos desafios do nosso tempo, que não apenas derrote as contrarreformas do governo da direita, mas que reabra os horizontes de que o capitalismo não é o fim da história.
Uma crise à esquerda que exige uma resposta
A profunda crise da esquerda exige reflexão, balanço e debate. Uma crise resultado de anos de uma política para melhorar o capitalismo e não para o superar. Uma política que se concretiza no esvaziamento do movimento sindical limitando-o à concertação social, roubando-lhe a sua combatividade, anulando os espaços de participação democrática e não incluindo as reivindicações dos setores mais oprimidos e explorados, como os imigrantes ou a juventude precária. Uma política que levou ao apoio e sustentação das políticas de governos ditos progressistas, mas que sequer repuseram retrocessos impostos pela direita.
Este processo conduziu a um isolamento e à entrega de parte dos trabalhadores ao discurso da direita e da extrema-direita, que apresenta-se como “contra o sistema” quando a esquerda insiste em defendê-lo. As eleições recentes são demonstrativas do ponto crítico a que se chegou. É por isso fundamental que o conjunto dos ativistas dos movimentos sociais (p.ex. de solidariedade com a Palestina) ou do movimento sindical, que o conjunto dos trabalhadores e jovens que procuram uma saída para um mundo que lhes barra o direito a um futuro digno, comecem a abraçar a necessidade de construir uma ferramenta política. Uma organização que não se fique pela luta por melhores condições de vida e de trabalho, mas que confronte um mundo limitado ao lucro e abra caminho a outro, orientado à resolução das necessidades da maioria da população.
Para isso faz falta espaços de debate franco e democrático, sem sectarismos, entre ativistas, organizações políticas e movimentos sociais, sobre qual o programa para a revolução do país que temos. Simultaneamente, urge a construção de espaços de unidade na ação, que permitam combater os ataques que aí vem e, ao mesmo tempo, abrem espaço para construir uma saída alternativa à crise da esquerda parlamentar.
O Em Luta está ao serviço desse caminho de construção de uma alternativa revolucionária, e por isso apelamos a todos, e também aos militantes do BE e do PCP que não encontram este espaço de debate no seio das suas organizações, que venham construir esta saída connosco.

