Angola: da Revolução Traída às lutas do presente

Para o/a jovem angolano/a atual, de que valeram os anos de Guerra Civil, que mais não foi do que um tubo de ensaio de uma Guerra Fria entre superpotências que pouco ou nenhum interesse tinham nos angolanos?

Para a zungueira que zunga nos Congoleses, de que valeu a morte de milhões de jovens angolanos durante 30 anos?

Para o ex-combatente, de que valeu o sacrifício dos também milhares de mutilados pelas minas?

Para o trabalhador angolano dos musseques do Sambizanga, de que valeu o êxodo de centenas de milhares de pessoas em fuga da barbárie dos teatros de guerra?

Para o MPLA, e para a podre burguesia angolana valeu ouro! Hoje, o MPLA confunde-se com o Estado, controla o Governo.

Ao mesmo tempo, uma população paupérrima, brutalmente explorada, contrastante com uma burguesia capitalista punjante que controla totalmente as riquezas do país num saque a céu aberto.

Angola atual é uma miragem deformada daquilo que noutros tempos prometeu ser. A chamada Geração da Utopia morreu com o seu sonho de uma Revolução pela independência cumprida. Mas os que viveram foram ainda a tempo de ver também uma Revolução traída.

MPLA e a revolução traída

O burocrático Movimento Popular da Libertação de Angola (MPLA), “traiu” os falsos ideiais socialistas que apregoava ao povo angolano para se casar com o imperialismo burguês dos EUA e dos seus compinchas.

Em 1991, o Bureau Político do MPLA desfere um golpe decisivo em favor da sua burguesia (ou seja, em favor de si mesmos), dando início ao período de transição da economia angolana para uma economia cada vez mais aberta ao mercado.

A burguesia angolana “floresceu”, multiplicando-se a iniciativa privada e a entrada de grandes empresas estrangeiras no país. O grande capital, já presente nas petrolíferas, entrou também sob forma das empresas de consultadoria. Quem também aproveitou esta leva foi a burguesia portuguesa, na forma das grandes empresas de construção como a Mota Engil ou Soares da Costa.

Os anos 2000 marcam o fim da guerra em Angola. Era tempo de construir o país da utopia que o MPLA prometera aos angolanos. Mas a realidade era outra: multiplicavam-se os condomínios de luxo para a cada vez mais voraz alta burguesia angolana, o exército de deslocados mutilados da guerra era engolido pelas ruas e pelos musseques, um destino partilhado pelos ex-combatentes, que se tornaram numa força de trabalho ultra barata, brutalmente explorada.

O angolano comum vive abaixo do limiar da pobreza, vive inclusivamente com menos do que a média dos africanos do sul do continente, apesar de Angola ter um dos PIB’s mais altos da região.

As grandes potências, em coligação com as burguesias locais, patrocinaram uma vez mais a substituição do levante vitorioso de um povo oprimido perante o seu opressor colonialista por uma ditadura burocrática de mercado que explora o seu povo, que o pauperiza e deseduca, lançando falsos fantasmas do regresso de um imperialismo que nunca se foi. Este é o papel da burguesia angolana, enriquecer por cima do sacrifício heróico de meio-século de guerras do povo angolano pela sua libertação.

As novas lutas contra o regime mostram o caminho

Aquando do momento de maior podridão da clique de José Eduardo dos Santos (JED)- que tem na sua filha, a bilionária Isabel dos Santos, o ex-libris –  surge também mais um pequeno valioso sinal de que a classe trabalhadora angolana, mais pormenorizadamente, a Juventude angolana, não está disposta a permitir que os “gatunos do M” continuem impunes na sua tarefa histórica de subjugar mais e mais o povo angolano.

Os 16+1, através de uma série de ações simples, mas coordenadas e com o claro objetivo de denunciar o MPLA e a falta de tudo em Angola, chamaram a atenção de todo o mundo para o regime criminoso de JED. A sua tenaz resistência às torturas e às prisões cobardes por parte do aparato estatal deixou o MPLA numa situação muito delicada. O pano de fundo é o dramático momento que a crise do valor do petróleo suscitou em Angola e que, em última instância, resultou numa hecatombe humanitária e pôs a nu as fraquezas do sistema de saúde e das redes de iluminação e de saneamento nas cidades angolanas.

A burguesia angolana não tem respostas para dar às perguntas cada vez menos mudas do/as angolano/as. A cultura do medo vai esbarrando na renovação geracional e na realidade da miséria vivida. O/As jovens angolano/as querem respostas, atrevendo-se a questionar os seus governantes e a suposta “revolução” que o ex-partido revolucionário do poder apregoa.

A indepência de Angola foi uma grande vitória dos trabalhadores e do povo angolano. Na data dos seus 41 anos, estamos numa nova época, que exige novas tarefas: contra a ditadura de José Eduardo dos Santos e a sua repressão! Contra as novas burguesias angolanas, os novos e antigos imperialismos!

As lutas que surgem mostram o caminho! É preciso uma nova independência para o povo trabalhador angolano que acabe verdadeiramente com todos os tipos de colonialismo e com a exploração e opressão do povo!

António Tonga