Sobre Ken Loach e I, Daniel Blake

São inúmeras as boas críticas ao último filme de Ken Loach, I, Daniel Blake. Concordamos que o realizador denuncia a hipocrisia do sistema, mas, de facto, é contraditório  tanto consenso em torno do filme, quando, muitas vezes, os louvores vêm dos agentes do sistema que nos empurrou e empurra para o drama de vida e o abismo surreal da impotência burocrática, expressa no filme.

Estamos a pensar em Bagão Félix, por exemplo, que dedicou dois artigos da sua preciosa coluna no jornal Público de 8 de dezembro a louvar Ken Loach e o filme, dos quais retiramos esta pequena pérola: “… uma privatização de serviços descuidada e abusiva, cujas únicas regras são maximizar a eficiência e resultados e reduzir a pó a ética de cuidadores; o dualismo de uma sociedade bipolarizada entre vencedores e perdedores, velhos e novos, ricos e pobres”. O tom é compungido, como se nunca tivesse feito parte daqueles que contribuíram ativamente para que os Daniel Blake existam, no Reino Unido e em Portugal!

Se mencionamos este fazedor de opinião, é para estabelecermos desde já um ponto de diferença entre a nossa visão e a dos que, com todo o seu oportunismo, fazem o que podem para se apoderarem de obras de arte com o intuito de lhes retirarem, precisamente, a subjacência de revolta que possam ter ou inculcar. Na verdade, Ken Loach está inserido numa corrente estética ligada ao realismo e que,  diríamos nós, denuncia a bestialidade do sistema que avassala toda a Humanidade e que se deverá combater sem tréguas.

A história de I, Daniel Blake, pontuada por breves momentos de humor muito bem utilizado – nada como a virtude tão britânica de fazerem comédia no meio do drama -, é a velha questão da quadratura do círculo: o trabalhador que não pode trabalhar por ter uma insuficiência cardíaca, mas é traído pela máquina burocrática e pela tecnologia. Assim, por um lado não consegue trabalhar porque, do ponto de vista médico, não pode, mas também não consegue o subsídio porque a informatização do sistema o apanhou e o deixou encurralado.

Outras personagens igualmente decalcadas da atual realidade britânica, como os jovens que vendem ténis chineses de contrafação ou a mãe solteira com dois filhos que se cruza com Blake e cuja derradeira alternativa é prostituir-se – tema recorrente nos filmes de Loach, cf. Rainning Stones -, conferem a crueza da vida reservada à classe operária desempregada e sem trabalho.

Recomenda-se ainda que se reveja ou veja um outro filme de Loach, O Espírito de 45, passado no pós 2ª grande guerra, onde se assiste ao desmoronar das ilusões de uma geração num mundo melhor com a entrada em cena de Margaret Tatcher.

A facilidade com que se gosta e se entende a obra de Loach é um trunfo que não devemos desperdiçar. Usemos os seus filmes para ajudar a ilustrar a barbárie que temos de combater e destruir.

Lina Pereira