Não aos bombardeamentos de Trump na Síria! Deve ser a revolução síria a derrubar o regime genocida de Assad!

No passado dia 6 de abril, Donald Trump ordenou o bombardeamento de uma base militar do regime de Bashar Al-Assad em Shayrat, Homs. Foram 59 mísseis cruzeiro lançados do Mediterrâneo oriental. Em Washington, o ataque foi anunciado como represália pelo atroz ataque com gás sarin, que repudiamos veementemente, perpetrado há alguns dias pelo ditador sírio contra a população civil da província de Jan Sheijun, em Idlib, matando mais de cem pessoas, um terço das quais crianças.

Condenamos este ataque militar do imperialismo norte-americano com a mesma energia com que temos condenado os ataques aéreos conjuntos que, desde 2014, os EUA, França, Reino Unido e aliados árabes têm vindo a realizar em solo sírio e iraquiano. Tanto Assad como o imperialismo têm mãos sujas de sangue dos povos do Médio Oriente e ambos merecem o mais absoluto repúdio por parte de todos os explorados e oprimidos do mundo.

As motivações de Trump não são nem podem ser “humanitárias”. Mesmo assumindo que a Casa Branca tenha mudado completamente a sua política e passado a promover a saída de Assad do poder – recordemos que, até agora, todos os ataques aéreos foram supostamente dirigidos contra o Estado Islâmico, sendo Assad considerado um “aliado” na “luta contra o terror” – os mísseis Tomahawk não têm como objetivo “libertar” os sírios das atrocidades de uma ditadura genocida, que é aliada dos EUA há décadas, mas sim controlar a situação e, possivelmente, instaurar um governo nascido de uma “negociação” que certamente não descartará elementos do atual regime.

Não. O magnata Trump, transformado em presidente da principal potência económica e genocida do planeta, não é nem será “aliado” da revolução síria, nem sequer da “democracia”.

Embora o governo russo, principal aliado militar e diplomático de Assad, tenha sido alertado do ataque para evitar baixas, os seus diplomatas condenaram o ato, que dizem ter-se baseado em “pretextos inventados”, e anunciaram “graves consequências”. A Rússia não parece estar disposta a afrouxar o seu apoio ao déspota de Damasco, mas falta saber até onde irá caso os EUA decidam realmente intervir.

Obviamente, o ataque de Trump não transforma Assad num “líder anti-imperialista” nem em nada parecido, como não se cansam de dizer as correntes castro-chavistas, cúmplices das atrocidades deste regime. Antes e durante a guerra civil na Síria, Assad fez claramente todos os esforços para ganhar a confiança dos EUA e ser considerado um elemento válido na “luta contra o Estado Islâmico”. Há apenas quatro meses, por exemplo, o ditador sírio declarava que “Trump pode ser um aliado na luta contra o terrorismo”[1].

Como inicialmente Trump estendeu a mão a Putin para se diferenciar de Obama,

Assad sentiu-se mais seguro. A este contexto internacional, somaram-se as vítimas militares do regime na emblemática cidade de Aleppo e noutras localidades do país. Então, seguindo a dinâmica de ferro de uma ditadura que se agarra ao poder e continua a ser militarmente questionada pelo seu povo, Assad decidiu repetir a dose de barbárie utilizada em 2013 ao matar mais de 1.440 civis e lançou um ataque químico contra civis inocentes em Idlib. Não foi um ataque contra o Estado Islâmico, que não está presente em Idlib. Foi um ataque contra a revolução, pois Idlib é a única capital de província que ainda é controlada pela heterogénea coligação de rebeldes que se levantou em armas contra o regime em 2011.

Trump tem menos de cem dias no poder e índices de popularidade menores que qualquer outro presidente dos EUA em igual período. O ataque a um ditador genocida que acaba de jogar gás contra dezenas de crianças é possivelmente uma tentativa de se fortalecer politicamente: “Anos de tentativas para mudar a conduta de Assad falharam de forma drástica. Consequentemente, a crise dos refugiados aprofundou-se e a região continua desestabilizada, ameaçando os Estados Unidos e os seus aliados”, disse Trump, ao mesmo tempo que chamou todas as “nações civilizadas” a acabarem com o terrorismo e a “carnificina na Síria”.

Será necessário ver quais serão os seus próximos passos. Assad já não é visto por Washington como um mal necessário? Terá esta sido apenas uma intervenção “cirúrgica” para demonstrar “determinação” e que “agora sim serão respeitadas as linhas vermelhas”, aumentando assim o seu poder negocial; ou o imperialismo norte-americano vai voltar a uma linha belicista como a empreendida por Bush e que fracassou claramente?

Por ora, tanto Republicanos como Democratas apoiaram a medida da Casa Branca e classificaram-na como “equilibrada”. Até mesmo os mais críticos, como o republicano John McCain e Marco Rubio, que foi rival de Trump na corrida presidencial, expressaram o seu apoio. A própria Hillary Clinton disse horas antes que seria necessário atacar bases aéreas de Assad. E no exterior, para variar, OTAN, Reino Unido, Arábia Saudita, Turquia, Polónia e Israel aplaudiram a ação.

Desde 2014, os EUA e uma coligação de países imperialistas e árabes realizaram centenas de ataques aéreos “contra o Estado Islâmico”, supostamente, deixando o regime sírio em paz. Há poucas semanas, os EUA e a sua coligação mataram centenas de civis em Mossul. Washington conta, além disso, com 900 militares no terreno que atuam como “assessores”. Uma intervenção de grande escala não está descartada, e desde já a condenamos porque, mesmo que chegue a tirar Assad do poder, não será uma solução para os problemas pelos quais o heroico povo sírio começou a sua revolução. Mas é necessário aguardar o desenvolvimento dos acontecimentos, pois uma aposta deste calibre levaria os EUA a uma dinâmica imparável de envolvimento militar no ninho de vespas do Oriente Médio, do qual saiu derrotado no Afeganistão e no Iraque durante a primeira década deste século.

Nós, da LIT-QI, reiteramos a nossa condenação aos ataques e a qualquer tipo de intervenção imperialista na Síria e no Médio Oriente. Somente a vitória da revolução síria, começando pela destruição do regime da família Assad, pode inaugurar melhores dias para o povo sírio.

O povo dos EUA, que vem dando mostras de oposição ativa ao governo Trump, deve mobilizar-se e exigir o fim dos ataques e de qualquer ingerência deste magnata na Síria ou em qualquer parte do mundo. Todos os povos devem manifestar-se contra este ataque imperialista e pela vitória da revolução síria.

Por: Secretariado Internacional da LIT-QI

Nota:

[1] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2016/11/16/trump-pode-ser-aliado-contra-terrorismo-diz-assad.htm