Dez anos depois acabou a crise?

IMF head Christine Lagarde reacts during a news conference at the G20 meeting at the ministry in Paris October 15, 2011. REUTERS/Charles Platiau (FRANCE - Tags: POLITICS BUSINESS TPX IMAGES OF THE DAY) - RTXXSN8

Para quem pensa que a crise económica iniciada em 2007/8 já era coisa do passado (ou para os não tão otimistas, mas que, apesar de tudo, acreditam que o pior já passou) aconselhamos a leitura da transcrição da conferência de imprensa do Fundo Monetário Internacional (FMI) disponível aqui. 

Este painel de ilustres economistas convocado pelo FMI para discutir a economia mundial conclui que o crescimento económico mundial posterior a 2008 foi “dececionante” e que, como resultado, deixa a economia mundial sob “ameaça”. Na verdade, tais ilustres economistas repetem a caraterização que Christine Lagarde fez no ano anterior sobre o estado da economia: “Não estamos em estado de alarme, mas estamos alerta”.

O que Lagarde disse em 2015 e que o FMI repetiu em 2016 é que o sistema capitalista, malgrado todos os louvores ao mercado livre e ao espírito empreendedor do capitalismo, se arrasta numa profunda crise desde 2007 cujo fim os seus principais economistas reconhecem não conseguir vislumbrar.

Esta crise de 10 anos do sistema capitalista justifica que regressemos 1974/75, tempo em que o modelo económico keinesiano dava os últimos suspiros.

A estabilidade do capitalismo só pode ser garantida debaixo de duas condições: a expansão constante dos mercados e os ganhos, também eles constantes, de produtividade no trabalho. Porém, a partir dos anos 70 os ganhos de produtividade revelaram-se insuficientes para compensar o decréscimo da taxa de lucro e nem a tão proclamada “revolução tecnológica” se mostrou capaz de reverter esta tendência.

Incapaz de manter taxas de lucro aceitáveis para o grande capital só havia uma solução: baixar salários e desregular o mercado de trabalho. Foi com este objetivo que Margaret Thatcher e Ronald Reagan chegaram ao poder em 1979 e 1981, respetivamente. As duas maiores potências capitalistas reagiam assim ao mesmo tempo e em prol do mesmo objetivo: baixar salários e aumentar a taxa de lucro do capital.

Mas a recuperação do crescimento da taxa de lucro iniciada pelos dois grandes líderes do chamado neoliberalismo deparou-se com outro problema: o capital acumulado pelo crescimento da taxa de lucro não se traduziu num crescimento da acumulação de capital. Dito de outro modo, o capital acumulado não encontrou fontes de investimento suficientemente interessantes do ponto de vista da taxa de lucro.

Este desvio do capital da esfera produtiva para a financeira é vista por alguns como o efeito colateral do capitalismo financeiro. Um pouco à maneira da rabula hollywoodesca do polícia bom e do polícia mau, aqui haveria um capital bom (o que investe na indústria) e um capital mau (o que investe no mercado financeiro).

Mas Hollywood é Hollywood e o capitalismo é o capitalismo. Ao forçar a redução dos salários, o neoliberalismo criou outro problema: Quem vai comprar os bens produzidos pelos trabalhadores cujo poder de compra diminui mais do que o valor dos bens produzidos?

A grande burguesia consumirá apenas uma pequena parte. As camadas sociais privilegiadas do capitalismo podem consumir outra parte um pouco maior, mas tudo somado não chega para garantir uma taxa de lucro “decente”. Neste cenário, tornou-se normal as grandes empresas compensarem as suas perdas na produção de bens com os ganhos obtidos nas operações realizadas no mercado financeiro. A fusão dos diversos setores da economia unificou a produção, a comercialização e o capital financeiro em novas formas. Na verdade, não há um capitalismo bom e um capitalismo mau, há apenas um capitalismo e todo ele é predatório.

Até agora o capitalismo tem tentado resolver esta contradição de dois modos: impondo o decréscimo do rendimento do trabalho e estimulando o endividamento, o que por sua vez alimenta os mercados financeiros. Para o capital, isto seria o melhor dos mundos possíveis, não fosse um pequeno detalhe: a permanência e crescimento contínuo de grandes quantidades de capital que não tem correspondência na economia produtiva. É, portanto, um caminho que não pode ter um final feliz.

No final deste processo, arriscamo-nos a vaticinar, o capitalismo só terá uma solução para a sua sobrevivência: a destruição de uma parte do capital financeiro que não é aplicado na economia produtiva. E esta destruição de capital é normalmente feita violentamente.

Por isso a crise está longe de acabar e o FMI sabe-o bem.

Jose Luis Monteiro