Call centers: as ETTs lucram milhões, mas os trabalhadores ganham 3,21€ à hora!

Tanto se fala da necessidade de combater a precariedade que já é quase um chavão. Mas, para os trabalhadores, ela é uma realidade e traduz-se em problemas concretos. Os trabalhadores dos call centers sofrem com vários destes problemas.

Após a última crise económica, num período em que o desemprego bateu recordes, o trabalho nos call centers cresceu. Qualquer desempregado sabe que há muitas vagas neste setor.

Por isso, na mesma proporção em que aumenta o número de empregados cresce também o trabalho precário: 21,4% do trabalho em Portugal é com contratos a termo e quase um milhão de trabalhadores recebem o salário mínimo (SM), um aumento de 60% desde 2014.

Após longo tempo de procura, muitos trabalhadores aceitam trabalhar em call centers por falta de alternativa. Para os jovens, negros e imigrantes, esta é, muitas vezes, a única alternativa.

Profissão de desgaste rápido

Trabalhar no call center é, em si, desgastante: são chamadas atrás de chamadas; gritos ao telefone causados pelo descontentamento dos clientes com a empresa e os seus procedimentos, muitas vezes inúteis; é a obrigatoriedade de falar o que não se pensa, com a certeza de que cada palavra – e também a falta dela – será utilizada contra nós na avaliação. Os efeitos sobre a saúde são diversos: problemas nas cordas vocais e ouvidos, lesões por esforço repetitivo e, principalmente, a depressão. Os trabalhadores já sabem: se trabalhares anos seguidos no call center vais “fritar a cabeça”.

Uso e abuso da precariedade

Soma-se a isso uma precariedade sem fim. O abuso do trabalho temporário é transversal. Há trabalhadores que fazem contratos semanais. O Código do Trabalho e os contratos coletivos são uma abstração. As férias são aprovadas (ou não) no dia anterior ao seu início. É preciso pedir autorização para ir à casa de banho e se houver muitas chamadas há que esperar. Fazer a tal pausa que se deveria fazer após mais de uma hora a trabalhar frente ao computador é impensável. O assédio moral é constante. E a ameaça de perder o prémio (remuneração variável) está sempre presente, o que faz toda a diferença quando se ganha o SM.

Quem lucra são sempre os patrões!

Esta realidade mantém-se porque as empresas de trabalho temporário (ETT) e de outsourcing lucram rios de dinheiro com ela. Foram mais de mil milhões de lucro em 2016 só à custa de vender o trabalho dos outros!  É escandaloso!

Os seus clientes lucram ainda mais: MEO, Vodafone, Apple, NOS, só ganham com poderem descartar os trabalhadores a qualquer hora e não se comprometerem com as condições de trabalho. Atrás de cada grande empresa, há sempre um call center precário. Até o Estado abusa dessa condição: Saúde 24 e Segurança Social são exemplos.

A organização sindical é fundamental, mas também muito difícil. O STCC é uma importante experiência e também prova da dificuldade de organizar trabalhadores nestas condições.

Medidas concretas para acabar de vez com a precariedade.

Todos sabem destes problemas: Governo, ACT, partidos do Parlamento. E voltamos ao início: muito se fala em combater a precariedade, mas o que se faz no concreto para acabar com ela?

O Governo nem com os precários do Estado quer acabar. PC e BE exigem um pouco mais, mas não mobilizam os trabalhadores e continuam a sustentar este Governo, apoiando ou submetendo-se às suas medidas, como no caso do aumento parcelado do salário mínimo para uns insuficientes 600€.

Para uma transformação real nos call centers é preciso lutar pelo fim das ETTs e outsourcing, pela regulamentação como profissão de desgaste rápido, pela efetivação ao fim de um ano de contrato e pelo aumento imediato do salário mínimo!

Carlos Ordaz