Também depois das Autárquicas, é preciso uma alternativa dos trabalhadores!

Depois de, nas últimas Eleições Legislativas, a coligação PSD/CDS ter saído vencedora, mas ter sido o PS a conseguir formar Governo, os resultados destas Autárquicas vêm clarificar o cenário e lições de 2015.

Em primeiro lugar, uma derrota central do PSD, em particular em Lisboa e no Porto, que mostra a rejeição do modelo de governação austeritária de Passos Coelho e dos duros ataques perpetrados pelo seu Governo em nome da burguesia nacional e internacional. O CDS, apesar de crescer sobre a hecatombe do PSD em Lisboa e de ganhar algumas autarquias (como Ponte de Lima), tem também uma queda de votos a nível nacional.

Em segundo lugar, frente à queda global do PSD à direita e do PCP à esquerda, o PS saiu reforçado, depois de ter vindo de uma importante crise, da qual apenas a solução da Geringonça permitiu recuperar.

Em terceiro lugar, o PCP, que tinha crescido a nível municipal perante a crise do PS e as suas gestões corruptas (como foi o caso de Loures), saiu derrotado destas eleições, produto do seu discurso de que é necessário apoiar o PS para derrotar a direita e acabar com austeridade.

Finalmente, o BE tem um ligeiro crescimento, mas sem equivalente ao que havia capitalizado a nível nacional, expressando a sua falta de enraizamento autárquico e de implantação nas empresas e nos bairros. Ao BE e PC falta tirarem a conclusão de que o apoio ao PS não reforçou a esquerda e as suas respetivas votações para poderem “pressionar” o PS; pelo contrário, salvou o PS e deu-lhe nova vida.

Mas como saíram os trabalhadores destas eleições relativamente aos patrões?

O voto contra o PSD (inclusivamente na sua tentativa racista e populista em Loures) é extremamente progressivo porque mostra a recusa do projeto da Troika (UE, BCE, FMI) e do seu intérprete em Portugal: Pedro Passos Coelho e o PSD.

Mas essa é apenas parte da foto. Não podemos esquecer que, hoje por hoje, o modelo de austeridade “light” do PS, ou seja, a manutenção da austeridade por outros meios, é também apoiado pela UE e pela burguesia: é o modelo atual do cumprimento do défice e da dívida. Ou seja, o modelo austeritário dos patrões e banqueiros ainda não foi derrotado, mantendo-se apenas por outras vias e estratégias.

Os patrões e banqueiros mostraram nestas eleições que, perante a crise do modelo austeritário de Passos, conseguiram voltar a levantar o PS como intérprete dos seus interesses. A austeridade “light” resulta da conjuntura económica internacional e apoia-se, essencialmente, na manutenção das medidas de Passos Coelho, e não numa rutura com a austeridade; pelo contrário, dá continuidade aos interesses da burguesia em vez de estar ao serviço dos trabalhadores.

Mas seria também um erro ler os sentimentos dos trabalhadores do país exclusivamente em função das eleições. O que mostram a greve da Autoeuropa, as mobilizações dos enfermeiros e dos professores ou mesmo o sentimento dos trabalhadores do turismo e da aviação de que o “crescimento” do país se faz dolorosamente às suas custas e através de uma exploração cada vez maior (baixos salários, trabalho mais precário, menos descanso, menos saúde) é que os trabalhadores e a população pobre sabem que a austeridade não acabou. A falta de uma alternativa dos trabalhadores que dê voz e força a este sentimento (coisa que PCP e BE não fazem) é o que faz com que, apesar disso, o PS saia reforçado.

Ficou a faltar uma verdadeira alternativa ao projeto de cidade para ricos que cada vez mais se vem afirmando, excluindo os trabalhadores do direito à mesma.

Ficou a faltar uma alternativa para os trabalhadores não só nas eleições, mas principalmente na sua luta quotidiana contra a exploração crescente.

É preciso exigir uma verdadeira reposição de direitos contra o Código do Trabalho de Bagão Félix e de Passos Coelho, contra a precariedade galopante e os salários miseráveis. Uma alternativa que coloque o dedo na ferida da dívida e do défice, pois sem os questionarmos não será possível mudar o panorama das condições de vida de quem trabalha e da destruição dos serviços públicos em Portugal.

As conclusões destas Autárquicas têm que servir, essencialmente, para sabermos que, hoje mais do que nunca, é preciso construir uma alternativa dos trabalhadores nas lutas, nas empresas e nos bairros. É ao serviço desse projeto que se coloca o Em Luta.

Maria Silva