Adeus, Tio Bel

Presidente da República, ex-presidentes e Presidente da Assembleia da República compõem o início da fila de rasgados louvores a um homem que morreu empresário, Belmiro de Azevedo, “tio Bel”, como carinhosamente alguns lhe chamavam. Também vários opinion makers, que se confundem com jornalistas, escreveram na imprensa, com insuspeito destaque para o jornal da Sonae, que lhe devem quem são, desfazendo-se em elogios. Previsível lealdade ao patrão. Também os trabalhadores do grupo Sonae podem dizer o mesmo, que não seriam quem são se não fosse o “tio Bel”, mas por outras razões.

Belmiro de Azevedo – chega a defender um dos jornalistas – “era um trabalhador no sentido mais nobre da palavra”; afirmação desprovida de rigor e que, ironicamente, na cabeça do opinador profissional, esconde o empresário no manto de trabalhador, glorificando-o no papel do explorado e escondendo o papel real de explorador. Belmiro de Azevedo era um patrão, sim, de milhares de trabalhadores, explorados, e isto não há como apagar.

O grupo Sonae tem cerca de 40.000 trabalhadores, a maioria no sector do retalho, principal actividade do grupo e onde é líder nacional. Neste sector, a grande maioria dos trabalhadores tem uma média salarial ao redor do salário mínimo. O “melhor patrão português” vincou sempre bem as suas intenções, fez questão de ficar conhecido pela afirmação da necessidade de mão-de-obra barata como forma de gerar emprego ou pela sua desresponsabilização pelos salários baixos que pagava por não ser sua tarefa a redistribuição da riqueza.

A liberdade de imprensa no Público e a filantropia de Belmiro

O jornal “Público”, como era de esperar, fez capa da morte do seu patrono no dia seguinte. Uma edição com mais de 20 páginas dedicadas a Belmiro que reedita o texto conhecido como o “Pacto do Público”. O texto fundador do diário é interpretado como o respeito do investidor para com a liberdade de imprensa, afastando a deferência dos jornalistas para com o investidor, o seu patrão, do qual estão dependentes pelos seus salários. Ilusão ou ingenuidade, consciência ideológica.

Embora o Público tenha sido e possa ser uma referência jornalística em Portugal, não acreditamos que Belmiro e o grupo Sonae tenham no seu seio uma empresa deficitária sem que pudessem ter proveito com isso. Os capitalistas filantropos sabem bem que o mecenato que praticam não é um investimento perdido, pelo contrário, resulta num lucro indirecto, criando uma imagem positiva deles próprios e retirando vantagens para as suas empresas. Fê-lo também Champalimaud ou Gulbenkian, seguindo as pisadas filantrópicas de grandes capitalistas internacionais como Rockefeller, Ford ou Soros.

Belmiro, o mais mediático e bem aceite de todos os capitalistas portugueses, imagem para a qual o “Público” contribuiu positivamente, era visto como o melhor patrão português, o que empregava mais, esquecendo-se a imaginação que quem emprega mais também despede mais. Portugal está de luto, mas é uma ínfima parte. A grande maioria, os trabalhadores e trabalhadoras, farão luto pelos seus parceiros e camaradas.

Carlos Ordaz