A discriminação racial no trabalho

Em Portugal, falar da discriminação racial continua a ser tabu e a nível laboral torna-se ainda mais complicado.

Nos locais de trabalho, são poucos aqueles que ousam falar do assunto, isto porque têm medo de represálias por parte da entidade empregadora ou porque se teme o julgamento que os colegas possam vir a fazer pelo simples facto de a “vítima” decidir pronunciar-se sobre o problema. “Alguma vez foste discriminado?” ou “Não sabia que pensavas assim de mim” são algumas das “consternações” ouvidas quando se aborda o tema.

A verdade é que, nos últimos dez anos, 20% das queixas apresentadas na Comissão Contra a Discriminação Racial foram sobre situações laborais. Segundo o ENAR (Rede Europeia Contra o Racismo), a discriminação no contexto laboral dá-se de várias maneiras: falta de segurança no trabalho, sobre-representação em profissões de baixas qualificações e de desgaste rápido, salários baixos, menos oportunidades de ser promovido no emprego e de estar protegido pela Segurança Social.

Ser negro ou estrangeiro, em qualquer empresa/serviço é sinónimo de ser “burro de carga”. É ganhar menos para a mesma função. É ser executor dos trabalhos mais pesados e que não impliquem muito raciocínio. É ser aquele que não merece a confiança das chefias para desempenhar funções de responsabilidade. E quando desempenha essas funções, vê-se obrigado a provar que é capaz, tornando-se num “caso de estudo”, ainda que tenha sido avaliado de forma objetiva para conseguir a promoção.

Se a discriminação racial no trabalho tem cor e sotaque, é no género e na religião que ela se aprofunda mais. As mulheres, concretamente das mulheres negras, são as que recebem os salários mais baixos e, segundo os estudos recentes, as muçulmanas são ainda as que têm mais dificuldade em encontrar emprego.

O racismo nas relações de trabalho serve diretamente os interesses patronais: salários mais baixos e mais exploração, trabalhadores divididos entre si, manter sob controlo social e rebaixamento de todo um setor oprimido da classe trabalhadora. Só lutando contra o racismo nas relações de trabalho é possível construir a unidade entre trabalhadores que tanto amedronta os patrões.

Etiandro Costa

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