Profissões de desgaste rápido: uma necessidade do setor do Handling

A necessidade constante de o capital aumentar a taxa de exploração do trabalho tem conduzido, nos últimos anos, ao aumento dos setores de atividade a laborar em regime de turnos. Este não tem sido acompanhado da necessária discussão e alerta para as consequências do trabalho por turnos. Compreende-se: para o capital é muito mais interessante atribuir à responsabilidade individual do trabalhador, ou a causas individuais,  aquilo que é o efeito nocivo do ambiente de trabalho.

 O handlingé a palavra inglesa que engloba, no âmbito aeroportuário, os serviços prestados em terra para apoio às aeronaves, passageiros, bagagem, carga e correio.

Este setor tem, por isso, importantes riscos ambientais (do ambiente de trabalho), como sejam o ruído (tanto no trabalho na placa, como dentro da aerogare) e as diferenças de temperatura e exposição a frio, chuva e calor extremo. Acrescem os riscos para a postura física devido a carregar aviões de cócoras dentro de porões, fazer trabalho repetitivo e manusear cargas, em particular os colegas que carregam várias toneladas de bagagem por dia.

Acrescem também riscos psicossociais, principalmente o stress, seja pelos curtos tempos de estadia das aeronaves em terra (que implicam um controle milimétrico dos tempos das tarefas e pressão psicológica sobre os trabalhadores que as garantem), seja pela falta de funcionários e pelas situações de conflito surgidas no apoio aos passageiros, que têm levado, nos últimos tempos, a um aumento das agressões a funcionários por parte de passageiros.

Finalmente, há ainda riscos operativos (acidentes de trabalho) devido à circulação de pessoas e máquinas, em particular na área da placa, onde o contacto com a circulação de aeronaves e veículos pesado é constante, bem como os problemas de movimentação manual e mecânica de cargas.

Trabalho por turnos

Estudos recentes permitem-nos afirmar a evidência de que o trabalho por turnos e noturno está associado a determinadas perturbações de saúde física e/ou psicológica, tais como problemas de sono, problemas digestivos, problemas cardiovasculares, sintomatologia depressiva e/ou ansiosa, entre outras. A privação de sono, a fadiga extrema e as alterações no apetite parecem ser as queixas mais recorrentes por parte dos trabalhadores por turnos.

Para a vida social e familiar são também várias as implicações. No plano social, destacam-se as dificuldades de convívio e de acesso a bens de consumo e a atividades não domésticas. No plano familiar, há muitas dificuldades na organização das tarefas domésticas e do tempo em conjunto do casal e dificuldades no acompanhamento da educação dos filhos, pois o tempo livre dos pais está em contra ciclo com o tempo livre dos filhos.

Handling:  uma profissão de desgaste rápido

Há três grandes fatores para considerar uma profissão de desgaste rápido: 1) pressão e stress; 2) desgaste físico e emocional; 3) condições de trabalho adversas. Entre outras profissões, têm este estatuto os controladores de tráfego aéreo, bailarinas/os, trabalhadores da pesca, trabalhadores do interior ou da lavra subterrânea das minas e trabalhadores do setor portuário.

Os trabalhadores do Handlingdevem reivindicar este estatuto pelo desgaste físico e emocional das tarefas que desempenham, pelos riscos ambientais e operativos a que estão sujeitos,  com a enorme agravante que significa o impacto destrutivo dos turnos na saúde e vida social, ao longo de vários anos.

As empresas do setor em Portugal querem consagrar nos acordos coletivos o aumento do horário de trabalho, as monofolgas e até horários parcelados. A essa estratégia temos de opôr a exigência da reforma ao fim de 25 anos de trabalho por turnos ou com 55 anos de idade, sem qualquer penalização. Esta deve ser acompanhada de uma redução imediata do horário de trabalho para 35h e rotações de pelo menos 4 dias de trabalho e 2 de folga.

O Handlingé uma profissão de desgaste rápido! O impacto destrutivo deste trabalho não pode ser garantido à custa da saúde e destruição dos trabalhadores, nem pela rotatividade – cada vez maior – de trabalhadores no setor! Recusamos o “usa e deita fora”! Aos lucros crescentes das empresas é preciso opor maior segurança e proteção dos trabalhadores, no presente e no seu futuro.

José Luís Monteiro