EDITORIAL: Volta à normalidade para quem?

Todos os dias ouvimos falar de volta à normalidade. E a verdade é que todos nós queremos voltar às nossas rotinas, aos braços dos nossos familiares, aos encontros com os nossos amigos – às nossas vidas. Mas de que normalidade falam realmente, e para quem?

Da doença não poderá ser. Não existe vacina nem cura, portanto a pandemia não terminou. O perigo não deixou de existir. Que normalidade existe então em ter que apanhar todos os dias os comboios, metros e autocarros sobrelotados na Área Metropolitana de Lisboa, que são um foco de contaminação por excelência, sabendo que temos que arriscar a nossa vida para ganhar o pão? Que normalidade existe em voltar ao call-center ou aos milhares de postos de trabalho sem mínimas condições de saúde antes do Covid 19, que dirá agora? Que normalidade existe hoje na região de Lisboa onde a volta ao trabalho fez com que todos os dias novos casos cresçam às centenas (quando sabemos que os números são muito superiores aos oficiais)? Que normalidade existe em colocar as crianças na creche (onde não há distanciamento social ou higiene respiratória possível), porque deixou de haver apoios para os pais ficarem em casa? A todo o momento somos obrigados a escolher entre arriscar-nos a morrer de coronavírus ou morrer de fome! Aqui não existe qualquer normalidade.

Será então a normalidade da economia? Bem, na economia capitalista, mesmo antes da pandemia, para os trabalhadores e população mais pobre, a normalidade já era bastante difícil: baixos salários, trabalhos precários, dificuldades para conseguir pagar as contas e chegar ao final do mês, falta de condições de habitação, desigualdade no tratamento para mulheres, negros, imigrantes, LGBT, etc. Mas que normalidade pode existir hoje? Mais de um milhão em lay off, centenas de desempregados e outros tantos sem qualquer rendimento. As perspetivas são de uma queda da economia em mais de 5%; falamos, portanto, de valores superiores à crise de 2008 da qual supostamente tínhamos saído. Que normalidade existe então quando mais de 30% dos trabalhadores perderam grande parte dos seus rendimentos e não têm perspetiva de os recuperar? Que normalidade existe quando milhares de trabalhadores, por mais que queiram pensar em ir jantar fora ou ir de férias, não podem ir além de tentar saber como garantir comida todos os dias? Na economia – do ponto de vista dos trabalhadores – também não há qualquer normalidade.

Não havendo qualquer normalidade na situação atual, porque insistem então Costa e Marcelo, seguidos por todos os restantes políticos da direita à esquerda, tanto em falar nela? Não será porque o objetivo é voltar o mais rapidamente possível aos lucros dos grandes empresários, mesmo que para isso seja preciso arriscar a vida de quem trabalha? Não será porque o capitalismo não tem outra solução para a crise económica que não seja explorar ainda mais os trabalhadores e enviar outros tantos milhões para o desemprego?

Aqui não existe normalidade. Aqui existe apenas um capitalismo que mata cada vez mais, um capitalismo onde mais uma vez os trabalhadores é que pagam a crise. Costa e Marcelo, com o seu discurso de normalidade, não fazem, portanto, mais do que dar voz aos interesses dos grandes patrões e multinacionais, enquanto colocam os trabalhadores perante o dilema diário da sobrevivência.

Do lado dos trabalhadores é preciso recusar qualquer discurso desta falsa normalidade capitalista. É preciso recusar o discurso que culpabiliza hoje os “jovens irresponsáveis que sociabilizam” pelo aumento da contaminação em Lisboa. É preciso recusar qualquer discurso que culpe os mais pobres – e entre eles os negros e imigrantes como parte das populações com piores condições de vida – pelo avanço da doença na Área Metropolitana de Lisboa. É preciso recusar uma resposta repressiva e policialesca do estado contra os ajuntamentos e do controlo dos bairros mais pobres, em vez de criar soluções e alternativas sociais e coletivas para a saúde de todos. Este discurso que culpa o indivíduo (e em particular os mais explorados e oprimidos), serve apenas para desviar atenções do essencial e esconder as opções políticas de Costa e Marcelo.

São as condições de transportes e trabalho que amontoam milhares de trabalhadores o grande foco de crescimento da doença; e, por isso, ao contrário do que dizem as televisões, claro que o crescimento da pandemia está relacionado com a volta ao trabalho na zona de maior concentração de trabalhadores que é a Área Metropolitana de Lisboa. É disso que Costa não quer falar, pois significa mostrar que ele escolheu os lucros e não a saúde coletiva como critério para enfrentar a atual crise de saúde e económica.  Para proteger a saúde teria que enfrentar os interesses dos patrões e isso ele não está disposto a fazer.

Não podemos confiar que serão Costa e Marcelo a proteger as nossas vidas. A alternativa tem de vir dos trabalhadores, que não só mostraram que são o garante de tudo o que funciona na nossa sociedade, mas também a capacidade de solidariedade e criatividade para dar novas respostas aos problemas colocados pela pandemia. A alternativa tem de vir da unidade das lutas, cada vez mais necessárias para não pagarmos esta crise, nem morrermos de doença. Os trabalhadores têm que tomar as rédeas das suas próprias vidas, para que possa realmente existir uma verdadeira normalidade. Mas para isso é preciso ir além do capitalismo, onde não há normalidade possível para os trabalhadores, os mais oprimidos e toda a população mais pobre.