A NOSSA CLASSE SETOR AUTOMÓVEL

30 anos da fábrica Volkswagen Autoeuropa | Os trabalhadores iniciaram em 2017 uma nova caminhada

A 26 de abril de 1995, no final da década governativa cavaquista, era inaugurada a fábrica Volkswagen Autoeuropa, então denominada apenas de Autoeuropa, já que o acordo assinado em julho de 1991 para a sua construção juntava em torno de cerca de 2 mil milhões de euros Ford e Volkswagen, as duas gigantes multinacionais dos imperialismos norte-americanos e europeu para o que viria a ser, e recordado centenas de vezes desde então, o “maior investimento estrangeiro em Portugal” (o Grupo Volkswagen AG viria a comprar em 1999 a parte da Ford Motor Company).

Os empregos e salários são sempre negociáveis à mesa dos capitalistas e das multinacionais

Para a instalação da fábrica, as chamadas “contrapartidas portuguesas” fizeram inclinar a balança para a península de Setúbal, a partir de julho de 1991. Segundo o DN de 18 de maio de 2006 “Os incentivos industriais ascendiam a 349 milhões; os incentivos fiscais a 35 milhões e os incentivos para formação a 110 milhões de euros“. Mas estes “incentivos” foram apenas para a fase de arranque da fábrica; outros se seguiram ao longo de 30 anos, aliviando as despesas dos acionistas da VW em Wolfsburg. É um facto que todos os construtores automóveis – General Motors, Renault, etc – receberam também estes “incentivos”. No entanto estes “incentivos” e “ajudas” não impediram que as construtoras automóveis mundiais levantassem voo para outras paragens quando os seus lucros assim o exigiram. Em 2009, a GM encerraria a produção da Azambuja e iria para Saragoça, Espanha; A Renault de Setúbal (onde se produzia o Clio) encerraria a fábrica em julho de 1998 e acabaria por ir para a Eslovénia, enquanto recebia apoios para a sua outra fábrica de componentes em Cacia!

Mas todas estas “contrapartidas” e “incentivos” são menores quando comparadas com a grande “vantagem” que são os baixos salários da classe trabalhadora portuguesa alimentados por todos os governos, quer sejam os do PS, PS-PSD, das décadas de Cavaco Silva, Sócrates e Passos Coelho, ou de Costa/Geringonça.

A rebelião de 2017 inicia um novo caminho

Nas décadas seguintes, os operários da Autoeuropa experimentaram o “corporativismo de esquerda” de António Chora e do BE, que juntava trabalhadores e administração no abraço da “cultura e gestão da empresa”, “diálogo social” e “negociação exemplar”. De vez em quando lá vinha a ameaça da deslocalização do investimento para outras paragens mais baratas e dóceis (o ex-cavaquista Mira Amaral chegou a inventar o perigo da deslocalização para… Marrocos!), ou mesmo de serem uns privilegiados…

Mas, em 2017, os operários e trabalhadores da AEVW começaram a romper com esse “abraço”: sacudiram esse “abraço”, escolhendo novos ativistas e dirigentes para a Comissão de Trabalhadores, impuseram a convocação de uma greve a 30 de agosto com altíssima adesão e a 20 de dezembro do mesmo ano aprovaram em 5 dos 6 plenários realizados a convocação de uma greve de 2 dias caso a administração não recuasse no propósito de impor o trabalho aos fins-de-semana. Abriam assim um novo capítulo na fábrica e mandavam às urtigas os cantos de sereia sobre o eterno ‘realismo e concórdia entre patronato e trabalhadores’. Mas os dirigentes do SITE-SUL / CGTP viriam a demonstrar que, de facto, preferiam estar amarrados ao PCP e à Geringonça-Governo PS, em vez de seguir a vontade expressiva dos plenários: no dia 10 de janeiro proclamaram em conferência de imprensa que não subscreveriam o necessário pré-aviso de greve e iriam continuar em reuniões de negociação com a Administração. Desde agosto de 2018o trabalho por turnos e aos fins-de-semana é uma realidade na fábrica. Vão necessitar de seguir em frente, criando laços com a restante classe trabalhadora portuguesa e até criar “multinacionais dos trabalhadores”, aqueles que fazem as fábricas funcionar, para combater a poderosa “multinacional de Wolfsburg e do capital”.

Edu Dário