Internacional

Levante popular sacode o Cazaquistão e expõe fratura do poder no país

Quando fechávamos a edição do jornal Em Luta, ainda muitas dúvidas pairavam sobre a real situação política no país, sobre os desdobramentos dos protestos que o sacudiram desde o dia 2 de janeiro, e que foram duramente reprimidos pelo governo cazaque, com apoio do exército russo.

A força das mobilizações populares contra a carestia nos primeiros dias de 2022 levou o presidente cazaque Kassym-Jomart Tokayev a prometer baixar o valor do gás, congelar tarifas de serviços de energia e adotar algum controle nos preços dos alimentos.

Após o levante, Tokayev demitiu ministros, e ainda prendeu um dos mais importantes deles, sob acusação de “traição”, para depois afirmar que o país havia passado por uma tentativa de “golpe”, com ajuda de “terroristas estrangeiros”, sem apresentar provas ou revelar quem seriam os supostos agentes golpistas que se teriam aproveitado da força das manifestações populares para tentarem tomar o poder.

Tal movimentação política de Tokayev na formação de um novo governo pode simbolizar uma profunda crise entre os “de cima” que até recentemente dividiam o poder. Ou seja, uma ruptura de Tokayev com quem o ajudou a eleger-se presidente: Nursultan Nazarbayev, que presidiu o país sob mão-de-ferro e corrupção desde a independência do país frente à ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991, e só saiu do cargo em 2019, sob fortes protestos. Ele também tinha várias pessoas da sua confiança no gabinete ministerial de Tokayev, entre eles o ministro que foi demitido e preso acusado de traição.

Repressão brutal com apoio de tropas russas

Tudo indica que no momento mais forte das mobilizações populares no país, o Governo fez uso de provocadores, que realizaram diversos roubos, como na cidade de Almaty, o que foi utilizado pelas autoridades para justificar a forte repressão que se seguiu e que resultou na morte de mais de 160 pessoas e prisão de cerca de 8 mil manifestantes, de acordo com noticiários internacionais.

A partir de 5 de janeiro, para reprimir ainda com mais força o próprio povo, o presidente Tokayev requereu e contou quase imediatamente com tropas militares externas compostas por cerca de três mil soldados da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC, uma espécie de “NATO” que reúne países vizinhos, mas com hegemonia política e bélica de Moscovo). Do presidente Tokayev também saiu a ordem de “atirar para matar” naqueles que continuassem a manifestar-se nas ruas.

Aparentemente, os protestos foram sufocados pela repressão criminosa do Governo e das forças militares russas. Mas como o cenário de crise não se resolverá com medidas paliativas anunciadas pelo Governo, novas explosões sociais não estão descartadas, apesar da repressão do regime. Por isso mesmo, no dia 11, em discurso ao parlamento, Tokayev anunciou novo ministério e deu o sinal de que o governo vai reforçar ainda mais sua política de repressão a opositores. Para que as justas reivindicações do povo cazaque sejam atendidas, é preciso construir uma direção revolucionária que oriente as mobilizações com o objetivo de derrubar o governo Tokayev e o que ainda restar da era Nulsutan Nazarbayev, e aponte ainda para um governo socialista dos trabalhadores. Porém, de imediato, é necessária uma ampla campanha internacional em apoio ao levante popular no Cazaquistão, e pela retirada imediata das tropas russas do território cazaque.

Por Daniel Gajoni