Jeremy Corbyn, a nova alternativa?

Depois do fiasco de Tsipras (executor do saque à Grécia por ordem da Troika), a maioria da esquerda, dos velhos aos novos partidos reformistas, elegeu um novo herói: Jeremy Corbyn, o líder trabalhista britânico.

Corbyn foi o grande vencedor das eleições de 9 de junho e é um forte concorrente para, a curto prazo, presidir ao Governo britânico após a derrota humilhante de Theresa May.

Corbyn foi descartado pela direita trabalhista, pela imprensa britânica e pelas sondagens, mas obteve uma grande vitória, contra todas as probabilidades, protagonizando reuniões de massas, recuperando uma parte importante do voto operário e arrastando a maioria da juventude britânica, que vê nele a esperança de uma mudança real nas suas vidas.

O programa trabalhista

O manifesto trabalhista (“For the Many, Not the Few” [Para muitos, não para poucos]) propõe a eliminação do “contrato zero horas” (o contrato precário britânico)[1], o aumento do salário mínimo, matrículas universitárias gratuitas, um aumento expressivo do investimento em educação, saúde e assistência social, reversão das privatizações do Sistema de Saúde e a construção de 100 mil habitações sociais. Promete também revogar a última reforma sindical (embora não as leis antissindicais de Thatcher). Propõe também algumas nacionalizações: caminhos de ferro (ao longo de décadas, à medida que expirem as concessões), correios, água e parte do mercado energético (todos com a devida indenização). As medidas seriam financiadas mediante um aumento significativo dos impostos às empresas e para os 5% mais ricos.

Se aplicadas, estas promessas, sem dúvida, melhorariam a vida das pessoas. A pergunta é se este programa é viável.

O programa de Corbyn é viável?

Fazemos esta pergunta porque Corbyn não toca de todo na propriedade dos bancos e das grandes empresas nem questiona o regime político e as suas instituições básicas. Ou seja, deixa os recursos fundamentais intactos – económicos e estatais – nas mãos dos bancos, da City [centro financeiro de Londres] e dos grandes capitalistas. E assim, encontrará enormes dificuldades para concretizar as suas promessas; e mesmo que conseguisse concretizá-las parcialmente, através da mobilização social, seriam transitórias. As conquistas do Estado Social, após a Segunda Guerra Mundial, deveram-se ao medo da burguesia à revolução social. Não haverá maneira de recuperá-las a sério e de as estender sem expropriar o capital e assumir o poder pela classe trabalhadora.

Procurando um impossível “capitalismo de rosto humano” 

Corbyn assume os pactos e compromissos internacionais do capitalismo inglês (NATO, operação militar no mundo) e mantém o armamento nuclear. Em relação à UE, procura um acordo amigável entre o capitalismo britânico e o alemão dentro do mercado único e da união alfandegária.

Aliados da burocracia sindical, Corbyn e a sua equipa fazem parte do aparato trabalhista há muito tempo. Depois da sua eleição, negou-se a romper com a ala direita blairista e agora quer reconciliar-se com ela. Há poucos meses, apoiou que os eleitos locais trabalhistas assumissem os “orçamentos legais”, com novos cortes nos serviços municipais já super deteriorados.

Estão em busca de um “capitalismo de rosto humano”, impossível num país imperialista. O enaltecimento de Corbyn pela maioria da esquerda (incluindo a extrema esquerda) é a confirmação de que abandonaram a perspetiva revolucionária e se converteram na ala esquerda da democracia burguesa, da “democracia dos ricos”. Pela nossa parte, no centenário da Revolução Russa, continuamos a acreditar que sem expropriar o grande capital e construir um regime de democracia operária, não há saída para a Humanidade. Por isso, lutamos para construir um partido e uma Internacional revolucionários.

Felipe Alegría

Nota:

[1] Contrato de zero horas – regime de trabalho no qual o trabalhador recebe pelas horas em que exercer as funções, sem direitos sociais e benefícios, como indenizações decorrentes de demissão [nota da tradução].

Texto originalmente publicado aqui.