Para onde vai a Venezuela?

A crise política venezuelana divide águas em toda a esquerda latino-americana e mundial. A maior parte da esquerda reformista alinhou-se com o governo Maduro “contra o golpe”. Trata-se de uma manobra criminosa para esconder que o verdadeiro golpe está a ser dado por Maduro, que está a impor uma ditadura ao serviço da “boliburguesia”.

O imperialismo pressiona Maduro com sanções diplomáticas com uma farsa “em defesa da democracia”, em apoio aos seus representantes, agrupados na MUD.

Chamamos os ativistas do movimento de massas de todo o mundo a lutarem contra a ditadura de Maduro e por uma alternativa independente dos trabalhadores na Venezuela.

I. Breve resumo da história recente venezuelana

A Venezuela é um país com uma rica história revolucionária. Em 1989, a aplicação de um plano neoliberal do governo Carlos Andrés Pérez (com grande desvalorização da moeda e aumento do preço da gasolina) causou uma insurreição popular, o “caracaço”. O povo pobre de Caracas desceu os morros, enfrentou a polícia e saqueou os comércios durante quatro dias.

O exército reprimiu duramente, causando milhares de mortes. A burguesia conseguiu retomar o controle da situação, mas o governo e o regime saíram feridos. As Forças Armadas dividiram-se. O então coronel Hugo Chávez tentou um golpe militar em 1992. O golpe foi derrotado, mas Chávez ganhou enorme prestígio popular entre os setores mais pobres. Carlos Andrés Pérez foi destituído em 1993.

Chávez ganhou as eleições em 1998, dando início a um longo período de governos chavistas que permanece até aos dias de hoje.

O chavismo teve atritos parciais e uma retórica contra o imperialismo norte-americano, o que lhe rendeu grande prestígio em toda a América Latina. Os discursos de Chávez contra Bush eram claramente diferentes dos de Lula e de outros governos do continente.

O imperialismo, no início, atacou Chávez duramente. Bush armou um golpe em abril de 2002. As massas reagiram violentamente, iniciando uma nova insurreição que derrotou o golpe e só parou com o regresso de Chávez dois dias depois. Posteriormente, também houve a greve patronal (lockout) do petróleo, igualmente derrotada em 2003.

O imperialismo aprendeu com a derrota do golpe em 2002 e do lockout. Passou a conviver com os governos chavistas e a utilizá-los para manter a exploração do país. Enquanto isso, apoiava a oposição de direita para capitalizar eleitoralmente o desgaste dos governos chavistas e reconquistar o governo mais à frente. Passou a usar o que chamamos de reação democrática, ou seja, a utilização dos processos eleitorais para canalizar as crises políticas. Uma demonstração disso é que, em 2004, a oposição de direita propôs um “referendo revogatório”, que foi aceite por Chávez (e que ele venceu amplamente).

Chávez foi reeleito em 2006 e em 2012, e morreu em 2013. Maduro, vice-presidente de Chávez, assumiu o governo e depois foi eleito presidente em abril daquele mesmo ano.

A crise económica, com a queda dos preços do petróleo, derrubou a base material do chavismo. Desde 2014, o país vive uma depressão poucas vezes vista na história. O resultado político foi a ruptura dos setores populares que apoiavam tradicionalmente o chavismo. Em 2015, a oposição de direita ganhou as eleições parlamentares, capitalizando o desgaste de Maduro e elegendo mais de dois terços do Parlamento Nacional.

O governo Maduro simplesmente ignorou o Parlamento eleito e recorreu ao poder no país, que passava pelo apoio direto das Forças Armadas. As eleições para governadores, que deveriam ter sido realizadas em dezembro de 2016, foram adiadas porque tudo indicava que Maduro iria perder. A oposição passou a fazer uma campanha por um “referendo revogatório” (o mesmo mecanismo previsto na Constituição chavista e que Chávez aceitou em 2004), mas, apesar de conseguir as assinaturas previstas, Maduro manobrou de todas as maneiras para impedir o referendo porque sabia que seria destituído.

Hoje, o governo chavista tem contra si 80% da população venezuelana. Por isso, Maduro está a promover um golpe. Convocou uma “Assembleia Constituinte”, suprimindo o voto universal para eleição dos parlamentares. Estabeleceu critérios distorcidos entre os eleitores, privilegiando as zonas rurais onde tem mais peso. Além disso, 30% dos deputados foram eleitos de forma corporativa, por setores como “camponeses”, “estudantes”, “empresários”, “trabalhadores”, que foram indicados pelas burocracias desses setores, enquanto uma grande parte das associações e sindicatos está impedida pelo governo de realizar eleições para renovação das suas direções. Tudo isso para transformar uma minoria em maioria.

Houve uma fraude gigantesca na votação da “Constituinte” denunciada pela própria empresa contratada pelo governo Maduro encarregada da eleição. Não existiu a votação de 42% anunciada pelo governo. Fontes independentes apontam para uma participação de 15 a 17% da população, mesmo com toda a pressão do governo sobre os funcionários públicos e dependentes dos programas sociais para que fossem votar.

As eleições municipais que deveriam ocorrer em 2017 e as presidenciais de 2018 estão comprometidas, já que a “Constituinte” definiu que vai durar dois anos. A procuradora-geral do país, Luisa Ortega, nomeada por Chávez, mas crítica ao rumo bonapartista de Maduro, foi destituída pela “Constituinte” no seu primeiro dia.

Para impor esse golpe, a repressão é duríssima. Mais de 100 mortos, mais de 500 presos. Além dos ataques das Forças Armadas e da Polícia, existem os “coletivos”, que são grupos paramilitares que reprimem as mobilizações e matam os opositores. Assemelham-se aos tonton macoutes do Haiti e as “triple A” do peronismo.

Existe um golpe na Venezuela dado pelo governo Maduro. Um governo que não tem nada de “socialista”, nem de “anti-imperialista”. É um governo burguês, corrupto, repudiado pelas massas… e apoiado por parte importante da esquerda reformista em todo o mundo.

II. Que Estado existe na Venezuela?

O caráter de classe de um Estado é definido, segundo Trotsky, pelo “caráter das formas de propriedade e das relações de produção que o Estado em questão protege e defende”.

Não existem Estados “intermediários” no capitalismo: ou são burgueses ou são operários. O Estado na Venezuela é, sem dúvida, burguês, está ao serviço da manutenção do capitalismo, das multinacionais na exploração do petróleo venezuelano e de uma nova burguesia – a boliburguesia – no controle do país.

O Estado burguês venezuelano manteve-se intacto com as suas Forças Armadas controladas pelo chavismo. Nunca houve nada parecido a organismos de poder das massas. O PSUV (partido chavista) é um partido burguês, controlado a partir do Estado por máfias chavistas, semelhante ao peronismo argentino, ao PRI mexicano e ao Partido Colorado (Paraguai).

O “socialismo do século XXI” do chavismo é apenas uma ideologia para ganhar a vanguarda e as massas para o seu projeto burguês. Na realidade, o chavismo é uma corrente nacionalista burguesa, como o peronismo e o aprismo, mas com as limitações que o nacionalismo burguês tem em tempos de globalização da economia no século XXI. Chávez fez muito menos que a real nacionalização do petróleo de Cárdenas no México em 1938, ou mesmo que as nacionalizações do petróleo, da energia elétrica e dos caminhos de ferro na época de Perón na Argentina.

A retórica anti-imperialista (ou, para ser mais preciso, anti norte-americana) de Chávez nunca se concretizou numa ruptura real com o imperialismo. Depois dos enfrentamentos verbais com Bush, a relação com o imperialismo dos Estados Unidos mudou com Obama. Em 2008, Chávez chegou a dizer que, se fosse norte-americano, votaria em Obama. Além disso, com o imperialismo europeu, a relação sempre foi muito mais amigável.

O governo venezuelano continuou a pagar a alta dívida externa religiosamente.

A dita “nacionalização do petróleo” – a medida mais famosa de Chávez – foi apenas a manutenção das empresas mistas e um aumento da porcentagem recebida pelo Estado na parceria com as multinacionais implantadas no país para a exploração e a refinação. Essas multinacionais podem ser donas de até 49% das empresas e reservas de petróleo. No caso do gás, podem ser donas de até 100%. Esse tipo de acordo com as multinacionais é semelhante ao existente em países como o Brasil. O chavismo manteve o fornecimento de petróleo aos EUA mesmo quando o imperialismo invadia o Iraque.

As poucas nacionalizações de empresas de outros setores – como a Compañía Anónima Nacional de Teléfonos, a Electricidad de Caracas ou a Siderúrgica de Orinoco – foram feitas de acordo com os critérios de compra e venda das ações aceites pelos capitalistas.

Alguns setores centrais da indústria, como o de automóveis, são controlados por multinacionais.

Além das multinacionais, o Estado venezuelano serve outro setor burguês: a “boliburguesia” (combinação das palavras “bolivariano” e “burguesia”). Esse setor burguês surgiu do aparato de Estado, em particular da cúpula das Forças Armadas. A sua acumulação capitalista veio da intermediação dos negócios do petróleo no estrangeiro, da corrupção aberta para os contratos públicos, das “empresas de maletín” (de fachada), das fraudes com o mercado de divisas. A partir desse enriquecimento, os novos burgueses passaram a comprar ou fundar empresas. A cúpula do chavismo ajudou e ainda ajuda a saquear os lucros do petróleo como parte de sua própria acumulação capitalista.

O grupo mais forte é o de Diosdado Cabello, alto oficial das Forças Armadas. É o segundo grupo empresarial do país, dono de bancos, indústrias e empresas de serviços. O segundo grupo tem como dono outro oficial aposentado, Jesse Chacón, com um banco, uma fábrica de leite em pó e fazendas. Existe um terceiro grupo empresarial muito forte, também propriedade de dois militares aposentados, Ronald Blanco La Cruz e Edgar Hernández Behrens.

Além desses, a boliburguesia inclui os empresários e banqueiros que se aproximaram de Chávez desde o início e aumentaram assim as suas fortunas, como Alberto Cudemus, presidente da Feporcina. Ou ainda Alberto Vollmer, dono da empresa de rum Santa Teresa, e Miguel Pérez Abad, presidente da Fedeindustria e funcionário do governo, e Víctor Vargas Irasquín, do Banco Occidental de Descuento, e muitos outros.

A boliburguesia ostenta a sua riqueza de forma abusiva com carros, casas e festas (muitas em Miami). Além disso, os militares estão diretamente ligados ao tráfico de alimentos.

O chavismo manteve o capitalismo na Venezuela, enquanto falava em “socialismo do século XXI”. A face “social” do chavismo é a mesma usada por outros governos latino-americanos de esquerda e de direita: programas sociais compensatórios, assistencialistas.

As “misiones” venezuelanas têm o mesmo caráter do “Bolsa Família” no Brasil, do “Juancito Pinto” e “Renta Dignidad” da Bolívia, do “Hambre Cero” da Nicarágua, do “Familias en Acción” da Colômbia, “Oportunidades” do México, “Juntos” do Peru.

Esses programas não têm absolutamente nada de contraditório com os planos neoliberais. Na verdade, são recomendações do Banco Mundial e do FMI para serem aplicados em paralelo com os planos neoliberais. São compensações parciais da redução dos orçamentos da saúde, educação e reformas para garantir o pagamento das dívidas aos banqueiros. Segundo essas instituições do imperialismo, esses são “programas eficientes” a um “custo baixo” que ajudam a aplicar os planos neoliberais e a manter a estabilidade política.

O neoliberalismo é aplicado na Venezuela pelo chavismo da mesma forma que no resto do mundo. A diferença em relação a outros países é o peso do petróleo na economia, que possibilita um aumento do peso quantitativo desses programas compensatórios, que ali chegou a atingir mais de 40% da população. Durante muitos anos, isso assegurou apoio eleitoral e político ao chavismo. Não existe nada de “socialismo” na Venezuela. Trata-se do capitalismo colonial, preservado pelo chavismo.

III. De quem é a responsabilidade pela crise económica venezuelana?

Existe uma depressão na Venezuela. Em 2016, o PIB retrocedeu 18,6%. Em 2017, prevê-se outra queda de aproximadamente 10%.

Segundo o economista Michael Roberts, “o PIB da Venezuela em 2017 é 35% menor que o de 2013, e 40% menor em termos per capita. Isso é uma contração significativamente mais acentuada do que a ocorrida durante a repressão de 1929-1933 nos Estados Unidos, quando o PIB do país caiu 28%”.

A essa catástrofe acrescem outras duas: a hiperinflação e o desabastecimento. A inflação atingiu 180% em 2015, 800% em 2016, e deve chegar a 1.000% este ano.

O desabastecimento é terrível. Os venezuelanos são obrigados todos os dias a enfrentarem filas enormes para conseguirem pão. Para conseguirem produtos básicos são obrigados a comprar os que são importados a preços caríssimos.

A situação dos trabalhadores é dramática. O salário mínimo atual equivale a cerca de 15 dólares mensais, bem menos do que o existente na China ou em qualquer país sul-americano.

A realidade atual da Venezuela poucas vezes foi vista na história em países fora de situações de guerra. Já existem ondas de refugiados venezuelanos escapando dessa situação para os países vizinhos, em especial Colômbia e Brasil. Essa é a base material para a ruptura com o chavismo.

O governo chavista e os seus apoiantes na esquerda mundial atribuem essa crise às “multinacionais e a sabotagem da burguesia”. Nós concordamos que o domínio da economia pela burguesia é a raiz dessa crise. Mas é necessário ainda responder à pergunta: o que fez o chavismo em 19 anos de poder para acabar com esse domínio? Qual é a responsabilidade do chavismo nessa crise?

Uma comparação é necessária. Em 2017, comemoramos 100 anos da revolução russa. Os bolcheviques assumiram o poder em 1917 num país atrasadíssimo e devastado pela guerra. Com a expropriação da burguesia, o país pode resolver os problemas básicos da população, como emprego, educação, alimentação e habitação.  Enquanto o mundo capitalista afundava na depressão de 1929 (doze anos depois da revolução russa), a URSS aumentava a sua indústria em 16% por ano entre 1928 e 1940.

Na Venezuela, o chavismo fez o contrário nesses 19 anos. Manteve o domínio das multinacionais e ainda aprofundou o modelo rentista petroleiro, parasitário e colonial. O petróleo representava 64% das exportações em 1998 e passou a 92% em 2012.

O país desindustrializou-se com o chavismo, passando de 18% do PIB em 1998 para 14% em 2012. Um relatório da Conindustria indica que das 33.000 indústrias que existiam no país em 1998 se passou a 17.000 em 2012.

O petróleo representa 90% dos recursos do Estado. Quando o boom das commodities terminou veio o desastre económico e a depressão.

A boliburguesia é corresponsável pela crise económica, como parte da burguesia dominante. Esses grupos burgueses parasitários aproveitam-se da crise e do tráfico de alimentos e de divisas como os outros setores da burguesia.  O alto comando das Forças Armadas está diretamente associado à corrupção e ao tráfico.

O governo chavista agravou a crise ao priorizar o pagamento da dívida externa e reduzir a importação de alimentos e medicamentos. É impressionante como um país em depressão económica, com hiperinflação e desabastecimento, paga pontual e obedientemente a dívida externa aos banqueiros internacionais. Todos os defensores do chavismo como “anti-imperialista” deveriam explicar isso. Segundo o próprio Maduro: “a Venezuela pagou US$ 60 biliões em compromissos internacionais durante os últimos dois anos”.

Michael Roberts afirma: “o governo decidiu ‘honrar’ os pagamentos da dívida externa e cortar as importações em vez disso. Como consequência, as importações de bens e serviços per capita caíram 75% (ajustadas pela inflação) em termos reais entre 2012 e 2016, com uma queda ainda maior em 2017”.

A outra reação de Maduro perante a crise económica foi aprofundar a entrega do país. Ao contrário da ideologia do “anti-imperialismo” de Maduro, em 2016 o governo anunciou o plano do Arco Mineiro do Orinoco, que entrega às multinacionais 12% do território do país, rico em ouro, diamante, ferro e outros minerais.

Os governos chavistas são responsáveis pela catástrofe que se abate sobre a Venezuela por terem mantido e aprofundado o controle das multinacionais e de uma burguesia parasitária sobre o país.

IV. Um regime bonapartista, agora muito mais autoritário

O regime chavista já era bonapartista antes da “Constituinte”, apoiado no governo e nas Forças Armadas. Agora fechou-se muito mais.

O regime político de um país é definido pela combinação das instituições por onde passa o poder. Se o poder passa pelo Parlamento e por eleições periódicas, trata-se de uma democracia burguesa. Se passa pelas Forças Armadas, é um regime bonapartista, autoritário.

No caso venezuelano, o chavismo impôs uma mudança no regime democrático-burguês após a posse de Chávez, que depois se concretizaria com a Constituição bolivariana em 1999. O poder real passava pelo governo Chávez e pelas Forças Armadas. Mas, naquele período, ele tinha grande apoio popular. Por isso, durante muitos anos, essa característica bonapartista foi mascarada pela maioria eleitoral que apoiava o governo. Tinha um Parlamento eleito, mas sem poderes. E existiam eleições presidenciais, que foram mantidas enquanto o chavismo pudesse ganhá-las, assim como para governador, etc. E quem indicava as candidaturas do PSUV era Chávez, que assim impunha a sua vontade a todos os níveis de governo.

Esse tipo de regime político populista foi caracterizado por Trotsky como bonapartista sui generis. Houve algo semelhante em vários países dirigidos pelo nacionalismo burguês, como o peronismo na Argentina, o cardenismo no México e o nasserismo no Egito. Essas burguesias baseavam-se em regimes autoritários e apoiavam-se em setores do movimento de massas – fazendo algumas concessões – para negociarem conflitos com o imperialismo, por uma margem um pouco maior de independência e melhores condições económicas.

Mesmo nesses momentos, mantinham uma postura repressiva em relação às massas. Chávez reprimiu duramente as greves, como a da Sanitarios Maracay, em 2007. Em 2009, dois trabalhadores da Mitsubishi em greve foram assassinados pela polícia.

Existe uma burocracia sindical chavista corrupta e mafiosa, semelhante à burocracia peronista argentina. As eleições sindicais em setores-chaves como os petroleiros foram suspensas há quatro anos para manter esses burocratas gangsteristas no comando.

A crise económica e a queda dos preços do petróleo mudaram tudo. No final de 2015, a oposição de direita ganhou a maioria parlamentar, mas o governo desprezou o resultado. O poder continuou a passar pelo governo e pelas Forças Armadas.

As próximas eleições presidenciais, em 2018, colocariam em xeque o poder chavista, porque a maioria eleitoral passou amplamente para a oposição de direita. Essa é a explicação da “Constituinte”, na verdade um golpe.

A “Constituinte” é um giro bonapartista dentro do regime, passando inclusivamente por cima da Constituição chavista. Anula o voto universal, base da democracia burguesa, suprime o Parlamento eleito e já levou à destituição da procuradora opositora. Em síntese, acaba com a “contradição democrática” dentro do regime bonapartista.

Na Venezuela, estamos a ver a consolidação da transformação do bonapartismo sui generis chavista num bonapartismo clássico de direita. Acompanha a evolução de outros processos do nacionalismo burguês que evoluíram para o bonapartismo de direita, como o PRI mexicano a partir de Cárdenas e a evolução de Nasser a Sadat e a Mubarak no Egito.

V. A farsa “democrática” do imperialismo

O governo Trump “defende a democracia” na Venezuela e não reconhece a Constituinte de Maduro. A União Europeia fez a mesma coisa, assim como a maioria dos governos sul-americanos.

Trata-se de uma farsa. O mesmo imperialismo que apoia o Estado nazifascista de Israel fala em “democracia” na Venezuela. O governo dos EUA, que patrocinou um golpe de Estado em 2002, agora diz-se defensor das liberdades democráticas.

Na verdade, o imperialismo não tem qualquer compromisso com liberdades democráticas. Apenas usa essa tática para desgastar ainda mais o governo venezuelano. Trump pressiona Maduro para um acordo que possibilite eleições para que a MUD ganhe – a oposição de direita pró-imperialista.

Assim, essa direita burguesa retomaria o controle do país. O programa económico da MUD é a radicalização do neoliberalismo na Venezuela, abrindo ainda mais o país para o imperialismo e reduzindo ou suprimindo os programas sociais.

Mas é importante definir a política concreta do governo dos EUA, porque a maioria da esquerda reformista denuncia o “golpe militar imperialista”. Pelo menos até este momento, isso não existe, exatamente porque o imperialismo aprendeu com a derrota do golpe de 2002, e agora defende outra tática, com o mesmo objetivo estratégico.

Isso é tão evidente que o The New York Times fez um artigo explicando por que o governo dos EUA não faz uma intervenção militar, dizendo que isso poderia desatar um “choque mais violento”. E que “as ondas de choque em todo o hemisfério poderiam criar mais complicações para o governo americano no momento em que ele tenta concentrar-se na Coreia do Norte e no Irão”.

O governo dos EUA também impôs sanções económicas menores, bloqueando os bens de Maduro nos EUA. Se Trump quisesse atacar duramente em termos económicos, bastaria parar de comprar o petróleo venezuelano. Mas isso não interessa nem económica nem politicamente a Trump.

A maioria dos governos sul-americanos acompanhou a posição do imperialismo. O Mercosul suspendeu a Venezuela por “ruptura da ordem democrática”. Esses mesmos governos mantêm acordos comerciais e tratados com Israel. Além disso, é impressionante ver a farsa de Temer e de Peña Nieto, que são repudiados por 90% da população dos seus países, criticando Maduro.

Estivemos na linha da frente da luta contra o golpe de 2002 patrocinado pelo imperialismo. Em qualquer iniciativa de golpe militar do imperialismo, teremos a mesma postura que tivemos em 2002, categoricamente contra o golpe e na linha da frente do enfrentamento. E hoje somos contra as pressões do imperialismo, diplomáticas ou económicas. Nada de positivo virá de Trump, dos governos europeus ou da burguesia sul-americana. São as massas venezuelanas que devem derrubar Maduro.

VI. A ruptura das massas com o chavismo

Existe uma mudança central na situação política do país com a ruptura dos setores populares com o chavismo. Os bairros populares, antes redutos chavistas, hoje votam abertamente contra o governo. A tragédia venezuelana é que não se construiu uma alternativa dos trabalhadores (nem sindical nem política) contra os dois blocos burgueses independente do chavismo.

As mobilizações contra Maduro já não refletem mais apenas os bairros de classe média, como nas mobilizações da MUD do passado. Já incluem setores populares importantes, como as mobilizações contra o governo argentino em 2001 e as jornadas de junho de 2013 no Brasil. As pesquisas indicam de 80 a 85% de repúdio a Maduro e à “Constituinte”.

O movimento operário está paralisado pela depressão económica, pela duríssima repressão e pelo controle burocrático-estatal. A PDVSA, assim como as fábricas estatais como a Sidor, é dirigida por militares.

A base operária e popular do país está contra o governo. Essa é a mudança mais importante na situação política do país e que causou a crise aberta do chavismo. Uma série de setores chavistas tem vindo a romper com Maduro.

A síntese da situação venezuelana pode ser expressa numa imagem simples de um companheiro venezuelano: no passado, quem falasse contra Chávez num autocarro num bairro popular de Caracas podia ser agredido e jogado para fora do autocarro. Hoje, quem defender Maduro nos mesmos bairros pode ser agredido.

Mas também existe uma desconfiança nos setores populares contra a MUD. Esse é o motivo de fundo pelo qual até hoje os bairros populares, mesmo estando fortemente contra Maduro, não saíram à luta num novo caracaço. Isso não ocorreu ainda, mas pode ocorrer a qualquer momento.

Alguns ativistas na Venezuela falam de 15% da população apoiando o governo, 35% apoiando a MUD e o restante contra os dois.

O enorme problema é que não se construiu uma alternativa de esquerda contra o chavismo, ainda que minoritária, devido à capitulação da “esquerda” reformista.

VII. Quais são as perspectivas?

Hoje, o governo Maduro apoia-se essencialmente nas Forças Armadas. Se existir uma ruptura militar, o regime chavista pode vir abaixo. O que explica esse apoio das Forças Armadas a Maduro é a boliburguesia. A cúpula das Forças Armadas é parte essencial da boliburguesia e perderia parte dos seus privilégios caso o governo e o regime caíssem.

Segundo Rolando Astarita: “Os militares podem comprar em mercados exclusivos (por acaso, em bases militares), têm acesso privilegiado a créditos e compras de automóveis e apartamentos, receberam substanciais aumentos de salários. Também ganharam contratos lucrativos, explorando os controles cambiais e os subsídios. Por exemplo, vendendo nos países vizinhos a gasolina comprada barata na Venezuela, com enormes lucros”.

Mas, se a cúpula é parte da boliburguesia, isso não se estende ao conjunto das Forças Armadas, em particular à baixa oficialidade e aos soldados. Para esse setor, sobra a crise e a repressão ao povo. Por isso, acumulam-se elementos de crise na base das Forças Armadas. Já existem mais de 100 militares presos segundo informação da imprensa.

Ao bloquear uma saída eleitoral, o chavismo tensiona fortemente o país. A crise pode caminhar para algumas dessas hipóteses:

  • uma explosão popular semelhante ao Caracaço, agora contra o governo chavista;
  • uma repressão sangrenta, com uma variante “síria”;
  • uma crise das Forças Armadas chavistas que obrigue o governo a ceder e negociar uma saída eleitoral.

Pode ser que exista uma variante combinada dessas três primeiras hipóteses. Ou pode ser que ocorra ainda a consolidação do regime bonapartista pós-constituinte por algum tempo. A continuidade da crise económica e política tende a reduzir estrategicamente essa hipótese.

VIII. O apoio criminoso da maioria da esquerda reformista ao golpe de Maduro

A maioria da esquerda reformista e centrista no mundo está a apoiar o golpe “constituinte” de Maduro. Não se trata de toda a esquerda reformista, mas da sua maioria. Trata-se dos partidos estalinistas de todo o mundo, assim como de partidos socialdemocratas com quadros de direção com origem estalinista, como o PT no Brasil. Isso dá-se também em partidos neorreformistas, como o PSOL (Brasil), o Podemos e a Izquierda Unida (Estado espanhol) e o Die Linke (Alemanha). Existem também setores centristas, e alguns que se dizem trotskistas, como o CWI (Comitê Internacional dos Trabalhadores) e o MAIS (Brasil), em apoio aberto a Maduro.

Existem também os setores reformistas mais próximos da socialdemocracia que se contrapõem, ainda que de forma limitada, como o Bloco de Esquerda (Portugal), Mélenchon (França) e uma parte do PSOL (Brasil). Afinal, ser aliado de Maduro não é bom para ganhar votos. Bachelet, do Chile, pronunciou-se contra o golpe de Maduro. O governo uruguaio apoiou a suspensão da Venezuela do Mercosul.

Existem ainda setores centristas, como o PO, o PTS e o Nuevo MAS (Argentina), que se contrapõem à Constituinte de Maduro, mas recusam-se a defender “Fora Maduro”, capitulando à ditadura venezuelana.

Os reformistas e centristas que apoiam o golpe são cúmplices dos assassinatos de mais de 100 pessoas e das prisões de mais de 500. E assumem a sua responsabilidade por tudo o que ainda pode vir com a consolidação do golpe. São cúmplices de uma ditadura capitalista, dando-lhe uma cobertura “de esquerda”. Trata-se de um crime político.

Falam em defesa do “socialismo” e da “esquerda”. Na verdade, fazem o jogo da propaganda anticomunista da burguesia, associando o socialismo à imundície capitalista e corrupta de Maduro. Ajudam, assim, a deformar completamente a imagem do socialismo, exatamente como fazia o estalinismo. É preciso que os trabalhadores da América Latina e do mundo saibam que não existe nada de socialismo na Venezuela e que os socialistas revolucionários se opõem a essa ditadura capitalista e corrupta.

O reformismo e o centrismo cansaram-se de denunciar os “golpes parlamentares ou militares” contra os governos de frente popular e nacionalistas burgueses quando eles não existiam. Agora que existe um golpe, mas dado pelo chavismo, assumem a sua defesa.

IX. Um programa para o país 

Fora Maduro!

Por uma greve geral organizada pela base para derrubar o governo e esse regime! Por um “venezuelaço” que unifique todas as lutas contra Maduro!

Eleições gerais imediatamente!

Abaixo a repressão! Liberdade e autonomia sindical! Eleições livres em todos os sindicatos, sem interferência do Estado!

Pela mais ampla unidade de ação contra a ditadura de Maduro! Os trabalhadores devem organizar-se e decidir pela base as ações contra o governo.

Nenhum apoio à MUD, que quer capitalizar o descontentamento da população para impor um plano económico ainda pior!

Pela independência política dos trabalhadores em relação aos dois blocos burgueses!

Por um programa económico dos trabalhadores baseado na expropriação das multinacionais e das grandes empresas. Abaixo o plano neoliberal de Maduro, assim como o da MUD. O petróleo e o gás devem ser 100% venezuelanos. Pela revogação do plano do Arco Mineiro do Orinoco. Pelo não pagamento da dívida externa. Expropriação das empresas da boliburguesia e de todas as grandes empresas! Congelamento dos preços dos alimentos, prisão e expropriação dos especuladores!

Pelo controle operário e popular da produção e da distribuição dos alimentos! Em defesa do povo pobre, expropriar os alimentos das empresas burguesas!

Prisão e confisco dos bens de todos os corruptos e corruptores! Escala móvel de salários de acordo com a inflação!

Pela autodefesa dos trabalhadores! Chamamos as bases das Forças Armadas a romperem com a sua direção e a não reprimirem os trabalhadores e somarem-se com as suas armas às mobilizações.

Nem Maduro, nem MUD! Por um governo socialista dos trabalhadores!

Pela construção de uma direção revolucionária na Venezuela!

Secretariado Internacional da LIT-QI