Eleições a 21 de dezembro? Eu já votei a 1 de outubro!

GRA453. BARCELONA, 01/10/2017.- Empieza el recuento de papeletas en uno de los colegios de Barcelona a la finalización de la jornada de referéndum del 1 de octubre convocado por el Govern y suspendido por el Tribunal Constitucional. EFE/Juan Carlos Cárdenas

O objetivo do regime monárquico com as eleições de 21 de dezembro (21-D) é enterrar o referendo de 1 de outubro (1-O) e reintegrar o movimento independentista dentro dos limites constitucionais.

Marta Rovira, secretária-geral da ERC (Esquerda Republicana da Catalunha), disse que só haveria eleições se os partidos independentistas quisessem. E, efetivamente, se as tivessem boicotado, as eleições de 21-D teriam morrido à nascença.

Mas isso não muda a sua essência. As eleições de 21-D são as eleições do artigo 155: convocadas por Rajoy depois de acabar com o Governo e de intervir na Generalitat, com Puigdemont em Bruxelas e Junqueras e os Jordis na prisão, com um vários processos em curso, ataques à liberdade de expressão e ações impunes de grupos fascistas.

Os trabalhadores e a independência

Há um setor dos trabalhadores que, por origem, cultura e laços familiares se sentem espanhóis e apavorados com a possibilidade de a Catalunha se tornar independente. Amarrados a esse sentimento, esqueceram-se da sua condição de trabalhadores e deixaram-se arrastar pela direita espanholista, apoiando a proibição do direito a decidir e, até, a sua repressão. Puseram-se, assim, na mesma trincheira do Rei, dos banqueiros, dos grandes empresários e da Europa do capital, num grupo encabeçado pelo PP-Partido Popular e o Ciudadanos, a que se juntou também o Partido Socialista Operário Espanhol/Partido dos Socialistas da Catalunha (PSOE/PSC), que de operários e socialistas já só têm o nome.

Estes trabalhadores não perceberam que reforçar este grupo significa, para além de repressão e ataques às liberdades, novos ataques à Saúde, à Educação, às Reformas e aos direitos de toda a classe trabalhadora, seja ela “independentista” ou “espanholista”.

A maioria dos trabalhadores catalães repudiaram a brutalidade policial e são defensores do direito a decidir, mas, por razões várias, vivem o conflito independentista como algo que lhes é estranho. Os sindicatos dizem-lhes que o conflito não é com eles; partidos como os Comunes declaram-se neutros e, no resto do Estado, Unidos-Podemos não mexeu um dedo contra a repressão nem aproveitou o conflito para defender a República. Os trabalhadores veem também que o independentismo não tomou como sua nenhuma reivindicação dos trabalhadores e tem à cabeça personagens odiadas como Artur Mas.

O 21-D e o movimento independentista

Os dirigentes independentistas apresentam-se às eleições depois de se terem rendido ao 155 sem oferecerem resistência. Para eles, já não se trata de proclamar e defender a República Catalã, mas sim governar uma autonomia dentro das normas e dos limites do Estado e da União Europeia, que rejeitam a autodeterminação.

Há eleitores independentistas que pensam que se obtiverem uma maioria eleitoral a luta continuará como se não se tivesse passado nada. Para a maioria, porém, a preocupação é acabar com o 155, libertar os presos e, em particular, cortar as pernas ao Ciudadanos que, tal como o PP, já anunciou que, se formar Governo, se encarregará de aumentar a imersão linguística (castelhana) na estação de televisão da Catalunha (a TV3) e em todas as manifestações da identidade nacional catalã.

Recuperar o caminho das reivindicações e da ruptura com o regime monárquico

O objetivo do 21-D é subordinar o independentismo à Constituição e aprofundar a divisão entre os trabalhadores.

Na Corrent Roig acreditamos que, mais do que de resultados eleitorais, aquilo de que realmente precisamos é recuperar a luta nas ruas, o caminho das reivindicações e da ruptura com o regime monárquico. Não iremos votar nem apelaremos ao voto.

Acreditamos que os trabalhadores são os principais interessados em defenderem o direito à autodeterminação, entre outras razões, porque a unidade entre nós só é possível se aceitarmos a decisão democrática do povo.

Para além disso, nós, os trabalhadores, somos a única classe social que pode lutar de forma consequente pelo direito à autodeterminação, ganhando a simpatia das classes médias catalãs e lutando lado a lado com os trabalhadores do resto do Estado espanhol contra o regime monárquico herdeiro do franquismo, abrindo assim caminhos possíveis para uma transformação socialista da sociedade.

A República catalã não tem que ser uma palavra de ordem “separatista”, mas antes a base para construir uma união livre de repúblicas. Nós, os trabalhadores, precisamos de uma união, mas livre, não forçada.

A luta pela soberania catalã tem que estar vinculada às reivindicações sociais. Queremo-la para expulsarmos as forças policiais de ocupação e assegurarmos as liberdades e garantias, mas também para derrotarmos as reformas laborais, acabarmos com a precariedade, termos reformas dignas asseguradas pelos impostos, revertermos os cortes e privatizações e acabarmos de vez com os despejos.

 Corrent Roig

Texto em castelhano aqui.