70 ANOS DEPOIS DA NAKBA, EXISTIR É RESISTIR NA PALESTINA OCUPADA

 

Enquanto milhões viam uma israelita ganhar o Eurovisão, dezenas eram mortos pelo Estado de Israel em Gaza.

Nas últimas 24 horas, a Palestina foi palco de um massacre. 70 anos depois da Nakba (catástrofe, início da expulsão de 800 mil palestinianos da sua terra), já são dezenas de mortos e milhares de feridos. Os palestinianos estão a marchar de Gaza até a fronteira com Israel, simbolizando a luta daqueles que a partir do dia 15 de maio de 1948 foram expulsos das suas terras e casas sem nada e que hoje já somam milhões de descendentes palestinianos pelo mundo. Os  ataques ocorrem desde o início da Grande Marcha do Retorno, que começou dia 30 de março, mas a brutalidade israelita atingiu o auge nessa segunda-feira.

E qual o papel do Eurovisão nesse cenário?

No sábado dia 12, o Eurovisão – festival europeu de novos cantores –  terminou com uma vencedora israelita. Ex-membro das forças armadas com orgulho, Netta Barzilai cantou “Toy”, canção contra o bullying. Participando de um concurso no qual, teoricamente, nem deveria participar, pois Israel faz parte do Médio Oriente, esta vitória representa parte da política agressiva de Israel para criar uma imagem de país inclusivo e diverso.

Para tentar impor a falácia de que são “a única democracia do Médio Oriente utilizam-se de estratégias como o pinkwashing*, um grande esforço para se apresentarem como país recetivo às comunidades LGBTI. No mesmo sentido vai o veganwashing*, promoção da população vegana do país (destaque para os membros das forças armadas), a maior per capita do mundo, fazendo anualmente um grande festival.

A verdade é que, há mais de uma década, a política de Israel para justificar os seus crimes na Palestina vem encontrando muita resistência no mundo, em particular na Europa e Estados Unidos – importantes pontos de apoio para limpar a imagem do Estado militarizado que tem o objetivo explícito de eliminar a Palestina e os seus descendentes. Em 70 anos de ocupação, porém, cada vez mais o discurso de que criticá-los é antissemitismo não convence. O acesso às imagens e depoimentos, a desproporção de forças e o número de mortes palestinianas são os elementos que se evidenciam.  Se é “uma guerra de defesa” do Estado de Israel, por que só morrem palestinianos? Difícil convencer uma população cada vez mais crítica de que o Quarto maior exército do mundo – grande exportador de tecnologia militar – luta por igual com uma população sem nenhum direito a defender-se. Expressão disso foi a manifestação do BDS (Campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel) perto do local onde se realizou o Eurovisão, mas que foi reprimido pela Polícia portuguesa, como aliás já tinha acontecido noutros eventos que têm a participação de representantes de Israel.

Perante o massacre, Trump cumpre a sua promessa

Se em Gaza o cenário é de destruição, em Jerusalém (território reconhecido pela ONU como pertencente a Israel e Palestina, além de também ser histórico para cristãos), Trump enviou a sua filha para consolidar uma ameaça que chocou a comunidade internacional: decretar Jerusalém sede diplomática dos EUA. Perante o entusiasmo sionista, Trump evidencia simbolicamente a política norte-americana para a região: apoio à limpeza étnica que o Estado de Israel faz. Por outro lado, desnuda a falácia da possibilidade da existência de dois Estados. Não há nenhuma disposição por parte das administrações Trump-Netanyahu (primeiro-ministro israelense) para que a proposta mediada da ONU ocorra.

Qual a solução para o fim do massacre ao povo palestino

Nós do Em Luta e da LIT defendemos uma Palestina livre, laica, democrática e não racista, na qual vivam todos que lá desejarem viver, do rio ao mar, um só território. Para que isso seja justo, a política de reparação deve ser contundente: direito de retorno aos expulsos pela Nakba e descendentes além de reparação material de tudo o que lhes foi tirado.

Palestina Livre!

Fim do massacre pelo Estado de Israel!

Jerusalém é Palestina!

Boicote ao Eurovisão 2019!

*Termos utilizados pelos críticos a essas políticas que descrevem-na como uma forma de limpar e esconder seus crimes contra os palestinos a partir de demandas democratas no mundo. Também servem à visão de que seriam moralmente superiores e mais inclusivo que todo o Oriente Médio.