O novo Governo da mudança? O Executivo da Lega-5 Stelle (Liga-5 Estrelas) e as suas perspetivas: uma análise de classe

Após uma série de negociações, contra negociações, pressões mais ou menos marcadas do Presidente da República, bem como uma infinidade de declarações contraditórias de membros de vários grupos políticos (em particular do Partido Democrata, mergulhado numa crise vertical em que o ex-secretário Matteo Renzi, contradizendo o atual secretário Maurizio Martina, abandonou as negociações com o Movimento 5 Stelle – M5S), Legae M5S chegaram a um acordo político sobre o programa de Governo e os nomes do próprio executivo, incluindo o nome do Primeiro-Ministro, um importante obstáculo a ultrapassar, visto que, inicialmente, ambas as partes queriam conquistar a liderança da coligação. Importa agora analisar o próximo governo e as suas perspetivas do ponto de vista da classe operária, para tentar compreender o que os trabalhadores terão de enfrentar nos próximos meses e como podem preparar-se para um eventual embate.

“Acordo político” ou “contrato de governo”?

Enfatizamos que a expressão correta é “acordo político, apesar de todas as declarações de Luigi Di Maio – um pouco patéticas, para dizer a verdade – segundo o qual esta aliança seria apenas um “contrato de governo” e não aquilo que é efetivamente: uma aliança política entre um partido abertamente de direita e xenófobo e o Movimento 5 Stelle, formação política com um programa agora inteiramente burguês, camuflado com um discurso radical interclassista cada vez mais limitado (especialmente após a guinada à direita nas questões internacionais durante e depois da campanha eleitoral), que confere ao programa matizes pequeno-burguesas para atrair a simpatia tanto das classes médias empobrecidas pela crise quanto de setores operários atrasados. Uma parte importante do apoio eleitoral do M5S deve-se também à sua retórica anti-casta, uma retórica com grande poder de atração num país acostumado a pensar que os privilégios dos políticos são o problema principal, não compreendendo que estes privilégios são benefícios concedidos para garantir a estabilidade da ordem capitalista burguesa italiana e dos seus grupos económicos e financeiros. Di Maio, o líder do M5S, não pode, portanto, permitir que a aliança do M5S com a Legaseja vista tal como é: não um facto novo na política italiana, o “nascimento da Terceira República”, mas um regresso aos acordos políticos da Primeira República.

 MS5: mudança ou continuidade do regime político italiano?

A política burguesa, claramente, é esta: se aceitarmos a perspetiva de que a “mudança” pode ser construída pela via parlamentar, a própria lógica do parlamentarismo vai-nos conduzir à necessidade de fazer alianças com outras forças políticar para governar. O MS5, contudo, deve fazer de tudo para esconder essa realidade e manter a imagem de alternatividade, até porque, como temos vindo a repetir ao longo dos últimos anos, a sua utilidade para a burguesia italiana foi, principalmente, a de ter tirado espaço e “oxigénio” político aos movimentos de protesto e de ter, assim, provocado um difuso conflito social, causado também pelas políticas de austeridade com as quais os governos enfrentavam a crise económica capitalista, nos trilhos da oposição parlamentar, evitando assim que uma parte dos protestos assumissem contornos de classe. E isso foi feito de forma consciente por Grillo e os do seu grupo, especialmente nos anos em que estavam fora do Parlamento, isto é, nos anos mais difíceis da crise, como evidenciado por várias declarações dos expoentes do movimento.

O M5S nunca foi, portanto, uma força política que quisesse uma verdadeira mudança em Itália; foi sim, desde o seu nascimento, uma muleta do regime parlamentar italiano, ainda que sob a forma de oposição “radical”, mas interna à lógica do sistema burguês. E mais: com o passar dos anos, a evolução do MS5 foi cada vez mais para a direita, especialmente com a entrada nas instituições a nível nacional e regional; além do mais, o MS5 nasceu do pântano do fracasso da esquerda reformista (Refundação Comunista, em particular) e só progressivamente foram introduzidas questões marcadamente de direita, como a recusa dos sindicatos (alavancada num sentimento progressista dos trabalhadores contra a burocracia dos sindicatos reformistas, mas que era distorcida e transformada num sentimento reacionário contra os sindicatos em geral), a oposição xenófoba contra os imigrantes, parte importante da classe trabalhadora italiana. Tudo isso para arrancar votos nos setores sociais empobrecidos pela crise (classes média e trabalhadora), que estavam fortemente ressentidos com os partidos que tinham aplicado as políticas de austeridade e procuravam uma nova referência política. Este foi um processo muito parecido com o que aconteceu com Salvini e a Legaao centro, ainda que com dinâmicas e tempos diferentes no centro-direita.

O outro lado do populismo italiano: a Lega

Precisamos esclarecer imediatamente que a Legade Salvini passou por uma substancial mutação “genética”, que certamente não mudou o caráter de classe do partido, mas que o transformou de um partido populista regional, que administrava partes importantes de poder a nível local e, devido a esse predomínio regional, tembém a nível nacional, num partido populista xenófobo nacional que foi o eixo da coligação de centro-direita nas últimas eleições e que tem a força eleitoral necessária para romper com Berlusconi e começar um Governo com o M5S.

Salvini construiu conscientemente esta transformação, fazendo desde logo frentes com formações de extrema-direita (como o CasaPound Itália – CPI, mas também formações menores, mas não menos perigosas, como Lealtà e azione(Lealdade e Ação), que em alguns lugares realmente se juntaram à Lega), mas também relançando uma imagem mediática do partido, indo à caça de votos entre aquele eleitorado berlusconiano de centro-direita que procurava uma alternativa dinâmica e carismática a Berlusconi em quem pudesse confiar.

Escusado será dizer que o populismo da Leganão representa absolutamente, nem como direita e, portanto, num sentido nacionalista, uma alternativa às políticas económicas italianas e tampouco às políticas europeias.  Na melhor das hipóteses, a Legaquer renegociá-las para ter mais espaço de manobra, talvez em aliança com a Le Pen e outras  formações de direita xenófobas de outros países europeus.

Apenas mais um governo burguês do qual nada de bom virá!

Se das eleições não pode sair nada de benéfico para os trabalhadores, ainda menos esperávamos que algo de bom pudesse sair das consultas eleitorais: qualquer Governo que nascesse executaria medidas destinadas a privatizar os serviços públicos, a reduzir as pensões e os salários e a cortar direitos em geral. No entanto, o Governo M5S-Legacaracteriza-se pelo facto de combinar a intransigência e a propensão fascistóide à repressão da Legade Salvini (o qual, não por acaso, parece destinado a ser Ministro da Administração Interna) ao papel de freio/travão das mobilizações e das lutas que o M5S, na prática, sempre desempenhou eficazmente graças ao seu “radicalismo” verbal. No entanto, estando em contacto com a classe, percebe-se que este novo executivo elevou as expectativas dos trabalhadores, que de momento “estão a aguardar”.

E se é verdade que o novo governo deverá dispor de uma sólida base parlamentar, o mesmo não se aplica à sua base social: a base social do M5S em particular (mas em parte também a da Lega) é cheia de contradições, especialmente na medida em que são setores sociais que apoiam inconscientemente um programa de governo que é contrário aos seus interesses, mas que o fazem com a expectativa de uma mudança real que, no entanto, não existirá e não poderá existir.

É impossível dizer com certeza quanto tempo durará a “lua-de-mel” entre os trabalhadores e o governo M5S-Lega: se fosse muito longo, a desmoralização dos trabalhadores e o atraso da classe poderiam levar a uma apatia generalizada que fortaleceria o governo. No entanto, esta não é a alternativa mais provável, especialmente no contexto de uma crise económica global que não foi superada: se é verdade que o M5S recebeu apoio eleitoral de uma parte importante da classe trabalhadora italiana, a ligação deste partido com a classe não é de todo comparável à dos antigos partidos reformistas, como o PCI (Partido Comunista de Itália), que podia contar com clubes, associações e sindicatos para controlar a classe trabalhadora.

Se os trabalhadores forem capazes de reagir fortemente contra as previsíveis medidas anti trabalhistas a partir das lutas já em curso (Ilva, Alitalia, professores concursados e educação em geral, para citar os mais conhecidos), o governo será colocado perante a necessidade de reprimir as lutas: a base social que apoiou o M5S provavelmente desmoronará à primeira cacetada Grillo-Leganuma manifestação de trabalhadores. Se, por outro lado, o M5S e a Legapassarem no teste governativo sem solavancos, os setores sociais que os apoiaram correm o risco de ficarem mais ligados ainda a estes partidos.

O desafio que o movimento dos trabalhadores enfrenta é o de construir uma frente única de classe para realmente fazer oposição a este governo a partir das fábricas e locais de trabalho e que possa apoiar as lutas e as reivindicações dos trabalhadores, para além das siglas sindicais pelas quais passa a oposição, para derrotar o novo governo burguês de coligação e reconstruir uma ampla oposição social a partir de posições de classe.

Matteo Bavassano (PdAC – Partito di Alternativa Comunista, secção italiana da LIT-CI)
Tradução a partir do original italiano: Em Luta