O Green New Deal é uma saída para a crise climática?

Com as crescentes mobilizações da Greve Climática Estudantil, algumas figuras políticas apresentam um “Green New Deal” como alternativa para a crise climática, como solução para transformar a economia capitalista numa economia sustentável. Será esta a solução para o problema que coloca em causa o planeta?

O New Deal (Novo Acordo) foi implementado nos EUA em 1933 pelo presidente democrata Franklin Roosevelt. Era uma política para salvar o capitalismo norte-americano após a crise de 1929. Tinha como base a proposta de Lord J. M. Keynes de intervenção estatal na economia, criando grandes obras de infraestruturas, subsídio de desemprego, assistência aos trabalhadores e concessão de empréstimos.

De conjunto, o New Deal não pôde resolver as contradições económicas geradas pela crise, desembocando numa nova crise em 1937. O capitalismo norte-americano só conseguiu retomar o crescimento económico com a produção de armas para a II Guerra Mundial.

No entanto, o New Deal, com o apoio de parte importante das direções sindicais e políticas dos trabalhadores, conseguiu conter o conflito entre as classes intensificado pelos efeitos da crise económica, impedindo que o mesmo avançasse para o terreno político. Revelou-se-se uma medida de contenção social que não resolveu o problema de fundo dos trabalhadores: a exploração desregulada do capitalismo, que impõe instabilidade e fome aos trabalhadores e destrói o planeta.

O que é Green New Deal?

A proposta de Green New Deal (Novo Acordo Verde) surge nos EUA vindo de um setor do partido democrata impulsionado pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez. A proposta também chegou à Europa: o partido trabalhista inglês já aderiu e, mais recentemente, Yanis Varoufakis defendeu um Green New Deal europeu. Em Portugal, o Livre é também um impulsionador desta proposta, assim como setores do BE ligados ao ativismo ambiental.

O projeto propõe como resolução da crise climática uma “intervenção estatal” para desincentivar os combustíveis fósseis como o petróleo e o carvão, substituindo-os por fontes renováveis de energia, como vento e sol. A forma de alcançar estes objetivos seria o princípio do New Deal original: investimento e controle estatal na economia, de maneira a favorecer o investimento empresarial em setores como o das energias renováveis. Com estas medidas, espera-se que os grandes trusts capitalistas invistam fortemente nestes setores, desenvolvendo-os.

O lucro dos capitalistas vs. clima do planeta

No entanto, o que se vê é que poluir dá lucro. As atividades económicas que mais lucro dão são as mais poluentes. A empresa mais lucrativa do mundo é a petrolífera saudita Aramco. Alguém acredita realmente que renunciarão a esta fonte de lucro? Que interesse tem a EDP numa verdadeira transição energética em Portugal? Que interesse tem a TAP em conter a emissão de gases de efeito estufa (GEE) dos seus aviões? Tampouco a Volkswagen Autoeuropa quer investir em transportes públicos e diminuir os carros individuais, pois isso significaria mais gasto e menos lucro, e com isso ameaçam os empregos dos trabalhadores. E quando aderem ao discurso do capitalismo verde é para abrir novos mercados e criar novas necessidades, como é a propaganda ao redor do carro elétrico. Sendo a produção de baterias altamente poluente, o elétrico não vai resolver o problema das emissões, apenas abre um novo nicho de mercado.

Conciliação de classes não reverte alterações climáticas

O Green New Deal parte de um pressuposto: um “acordo” entre as classes com o Estado a intervir. É preciso dizer que isso não existe no capitalismo: quando o Estado intervém é a favor da burguesia, dos bancos, para salvar a economia capitalista, não o planeta. Já há exemplos conhecidos: os mercados de emissões de CO2 não ajudaram a diminuir as emissões, mas constituíram um negócio lucrativo. Também na crise económica de 2008, o Estado não interveio para salvar trabalhadores: a estes impôs as medidas de austeridade e aos bancos ofereceu 238 mil milhões de euros em 10 anos.

Este papel do Estado tampouco varia com os Governos, pois mesmo o Governo do PS, que é apoiado pelo BE e PCP, não reverteu as medidas de austeridade e não buscou resolver a crise climática. Governos e Estados não estão dispostos a implementar medidas reais para travarem as alterações climáticas. Parece-nos, então, que o Green New Deal é mais uma tentativa de salvar o capitalismo e não o planeta, frente à inegável crise ambiental e crescimento de mobilizações contra a mesma.

O Capitalismo é insustentável

O capitalismo é incompatível com uma atividade económica verdadeiramente sustentável. A sua tendência ao monopólio e a anarquia que tem na produção, onde impera a busca por mais lucro, só aumenta a destruição do planeta. É preciso, então, mudar as prioridades: os vossos lucros não estão acima do nosso clima e dos nossos empregos.

A alternativa climática tem de ser revolucionária e socialista

Para travar a crise climática é preciso começar por expropriar as 100 empresas responsáveis por 70% das emissões de GEE e colocar estas empresas sob o controle dos trabalhadores. Para conseguir dinheiro para investimento em medidas eficazes é preciso nacionalizar os bancos. É preciso uma economia planificada e controlada pela maioria, os trabalhadores, que decidam as prioridades de produção. É preciso produzir de acordo com as necessidades do conjunto, tendo em conta os limites do meio ambiente, e não do lucro, e desta forma diminuir a jornada de trabalho para que todos tenham emprego.

Esta é a única forma de verdadeiramente resolver a crise climática. As outras alternativas de reformas do capitalismo serão sempre uma tentativa de tapar o sol com a peneira. Não há tempo a perder com falsas propostas, é necessária a transformação total do sistema, que só será possível com uma alternativa revolucionária e socialista.

 

Joana Salay
Juan Parodi