Emergência climática: greve ou apelo?

A lição da pandemia para enfrentar a emergência climática 

Antes que o mundo fosse atingido pela terrível pandemia de Covid-19, os jovens de todo o planeta haviam planejado, para 24 de abril, lotar novamente as praças das principais cidades do mundo pela quinta greve climática global.

As consequências dramáticas do coronavírus transformaram assim o Ataque Climático em um Ataque Digital, no qual bilhões de jovens em vez de uma praça, inspirados na emergência de saúde em andamento, “gritarão” nos teclados de seus PCs que “a nossa saúde vem antes do lucro”.

A explosão da pandemia de Covid-19, de fato, além de causar a mudança de programa, adicionou um novo elemento importante na elaboração da questão climática.

Do Rio a Madrid, passando por Paris

Para entender os desenvolvimentos que levaram aos argumentos atuais dos ‘Fridays for future’ e tudo o que ocorreu paralelamente, é necessário lembrar as tentativas de “diálogo” entre os vários países do mundo aos quais os ativistas da luta contra as mudanças climáticas fizeram referência ao longo dos anos.

Deve-se notar, entretanto, que o tema do aquecimento global e as primeiras negociações e acordos internacionais referidos, que visavam definir os limites das emissões de gases de efeito estufa, datam do início dos anos 90, quando Greta Thunberg ainda não havia nascido.

Foi a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, em 1992, que deu origem à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima (UNFCCC), o primeiro tratado internacional inútil, inútil sobretudo por sua natureza não vinculativa (no sentido de não impor limites obrigatórios de emissão de gases de efeito estufa para os países signatários) do ponto de vista legal. Foi precisamente a Cúpula do Rio que deu início às Conferências das partes (Cop), reuniões anuais para analisar os progressos no combate às mudanças climáticas.

Um dos mais conhecidos é certamente o Protocolo de Kyoto de 1997 (COP3) que, apesar da imposição da obrigação de reduzir as emissões nos países mais desenvolvidos, sofreu uma redução risível, considerando que os Estados Unidos nunca aderiram e que o Canadá, Rússia, Japão e Nova Zelândia gradativamente se afastaram.

Um alerta, especialmente na mídia, na inércia geral foi representado pelo Acordo Climático de Paris 2015 (Cop21) que, diante de 40 mil participantes, produziu o primeiro texto universal para reduzir a temperatura em 2 graus, ou seja, abaixo dos níveis da primeira revolução industrial (1861-1880), de 2015 a 2100 (ou seja, 2.900 bilhões de toneladas de Co2, isto é, um corte na ordem de 40 a 70% das emissões até 2050).

Depois disso, Marrakech, Bonn, Katowice e, finalmente, Madri (Cop25) tentaram definir melhor as regras de implementação do Acordo de Paris, que desde 2015 continua sendo o verdadeiro guia para os ativistas.

Cop25, a história de um fracasso universalmente reconhecido

O único mérito da 25ª conferência sobre mudança climática organizada pela ONU, a chamada Cop25, foi o de conseguir que todos concordassem com o resultado: um fracasso!

De fato, em Madri, na presença de 190 países de todo o mundo, o objetivo era encontrar uma solução para um dos pontos mais importantes e discutidos do Acordo de Paris sobre o clima: o mecanismo previsto no artigo 6, que deveria permitir aos países que poluem menos de “ceder” sua parcela remanescente de gases de efeito estufa a países que poluem mais, para permitir-lhes uma transição mais fácil sem comprometer a consecução dos objetivos gerais. Além de não ter conseguido nenhum acordo com o artigo 6, a Cop25 não produziu nada vinculativo sobre a obrigação de cada país de apresentar planos para reduzir ainda mais suas emissões de gases.

«Para chegar à lua, você precisa de mais do que um patinete»

Discutir as causas do fracasso da Cop25 em Madri, onde o Brasil, Austrália e Estados Unidos foram até acusados ​​de obstruir abertamente um acordo para evitar de serem sujeitos a regras mais rigorosas, tem uma importância relativa em relação ao gosto amargo na boca que deixou o resultado da conferência.

O egoísmo e os cálculos dos países mais desenvolvidos, ignorando as necessidades de recursos econômicos dos países mais expostos aos impactos das mudanças climáticas, bem como a tática de deslocar a discussão para detalhes técnicos estéreis, mostraram a verdadeira face dos abutres a jovens e menos jovens que hoje estão lentamente reformulando sua confiança nos governos e em suas organizações internacionais, também porque as notícias vindas dos cientistas não deixam muito espaço para a esperança: um novo relatório especial sobre o clima, produzido pelo grupo Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), com base em cerca de 7 mil pesquisas científicas, conclui que “o nível do mar continua subindo, as geleiras derretem rapidamente e muitas espécies estão se deslocando em busca de condições mais adequadas para a sua sobrevivência “.

A aumentar o desencanto de quem é mais sensível à emergência climática, foi a dura lição de outra emergência, a da saúde causada pelo coronavírus.

Certamente os próximos dias serão importantes para a fundamentação da análise e das consequentes ações do movimento nascido da iniciativa da estudante sueca Greta Thunberg, agora com dezessete anos, mas é claro que a advertência, lançada nas redes sociais para manter vivo o interesse pelo problema climático nos dias de quarentena forçada, representa mais do que um mero slogan: “não permitiremos que outras epidemias nos encontrem despreparados, não permitiremos que continuem alimentando as condições que favorecem a propagação de novos vírus, não permitiremos que o nosso e todos os governos usem essa crise como cobertura para voltar a destruir o planeta que nos garante a vida, como fizeram antes, em parceria com as empresas dos fósseis. Nossa saúde depende dos ecossistemas. Nossa saúde vem antes do lucro ».

Duas emergências, o mesmo culpado

Se os fracassos das conferências levaram os mais jovens a olhar para além do totem do Acordo de Paris, a pandemia de Covid-19 mostrou, como explicitamente afirmado no texto acima, que existe um culpado bem identificado que “alimenta as condições que favorecem a disseminação dos vírus” e é o mesmo culpado bem identificado que gerou a crise climática: o sistema capitalista.

Um sistema criminoso baseado na anarquia da produção para a acumulação de novos capitais na competição entre capitalistas concorrentes, não apenas destrói os ecossistemas e causa a crise climática, mas condena o proletariado e as massas mais pobres da sociedade à morte por causa da incapacidade de lidar com essas crises.

Um modelo de desenvolvimento sensível apenas e exclusivamente à opulência de poucos e indiferente às necessidades da grande maioria da população mundial.

A lição mais importante

Em 2018, descobrimos, através do relatório sobre segurança alimentar global divulgado pela FAO, Unicef ​​e outras agências das Nações Unidas, que o número de pessoas que sofrem de fome no mundo está crescendo: são, de fato, 821 milhões, ou seja, 1 habitante do planeta em 9, de acordo com “O Estado de Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018”.

Embora numerosos estudos mostrem que a produção mundial de alimentos é suficiente para atender à demanda de todos os habitantes do planeta, a incidência de fome aumentou nos últimos três anos, retornando aos níveis de uma década atrás.

Se acrescentarmos essa outra peça ao quebra-cabeça que começamos a compor com o quadro da crise climática e as formas de lidar com a crise da saúde deste início de 2020 que viu, até o momento em que escrevemos este artigo, mais de um milhão e meio de contágios oficiais e mais de 90.000 mortes em todo o mundo, somos confrontados com um retrato claro que representa a lição mais importante a ser lembrada, a “Lição para o futuro”: confiar nos Estados e em seus governos que, para dizer com as palavras de Marx e Engels, “administram os negócios comuns de toda a classe burguesa”, significa não apenas não resolver problemas dessa magnitude, mas agravá-los e destruir a classe trabalhadora e os explorados do planeta.

«A raposa de sempre que cuida do galinheiro»

No final de março, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (Epa) anunciou que as indústrias poderiam ter dificuldade em atender a certos requisitos dos padrões ambientais devido ao coronavírus, abrindo efetivamente o caminho para a suspensão da aplicação das leis ambientais e das relativas sanções em caso de violações. Escusado dizer que a medida foi invocada particularmente pela indústria de petróleo e gás.

Mais ou menos nos mesmos dias, os ‘Fridays for future’ da Europa, depois de finalmente declarar o New Deal verde “inadequado”, que para alguns representava um dos pilares sobre os quais construir a “revolução verde” para pressionar os órgãos da União Europeia, lançou um abaixo-assinado, sim, vocês leram corretamente, um abaixo-assinado no qual apela-se à Comissão Europeia para que implemente medidas mais rigorosas para enfrentar a crise climática e, para perseguir e alcançar esses objetivos, leis precisas são consideradas essenciais.

Se acrescentarmos a confiança de muitos ativistas na Agenda 2030 com seus 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (Sustainable development goals  – Sdgs), aprovada em 25 de setembro de 2015 pelas Nações Unidas, o retrato volta a ter tintas sombrias.

A discrepância entre o que é a análise e as consequentes iniciativas só pode ser evidente!

Uma única “agenda”, a que conduz ao socialismo

Diante do que estamos vendo com nossos próprios olhos, após a última experiência fracassada da Cop25 em Madri, constatada a incapacidade dos governos de lidar com crises sem a aprovação da burguesia e demonstrada a voracidade criminosa de países como os Estados Unidos (inclusive principal membro permanente do Conselho de Segurança da ONU) em meio a uma das piores crises de saúde, é simplesmente absurdo pensar que possamos deixar que a crise climática em curso seja resolvida à maneira deles.

O tempo de apelos, de esperança em sua democracia expirou, a saúde e a vida das populações estão em perigo iminente e somente tomando a iniciativa e construindo uma dura luta travada com a arma mais importante que as massas populares têm, que é a greve, pode ser vencida.

Os trabalhadores, nos últimos meses, perceberam que essa sociedade funciona graças a eles e que, se os governos não fecharem a roda gigante, as massas proletárias terão a força necessária para fechá-la com greves.

Não existem leis e reformas que possam resolver as contradições do capitalismo e aqueles que seguem esse caminho só o mantém vivo artificialmente, em detrimento da enorme população do planeta.

É por demais evidente que só a revolução socialista poderá salvar o planeta e seus habitantes da catástrofe.

Por: Giacomo Biancofiore
Tradução: Maria Teresa Albiero