Internacional

Bolsonaro nunca mais! Voto crítico em Lula na 2ª volta. Construir uma alternativa revolucionária!

A primeira volta das eleições no Brasil foi acompanhada pelo mundo todo. Há um sentimento grande de rejeição ao que significaram os 4 anos do Governo de Bolsonaro e, por isso, se esperava com expectativa a possibilidade de uma derrota eleitoral da extrema-direita no Brasil.

As eleições brasileiras estão a ser marcadas por uma forte polarização, que se expressou com nitidez nas cidades de Lisboa e do Porto. Diferente de 2018, quando Bolsonaro teve 56,10% dos votos em Lisboa contra 13,45% de Haddad (PT), agora Lula obteve 61,55% dos votos e Bolsonaro 30,61%.  Os resultados totais no Brasil foram de 48,4% para Lula e 43,2% para Bolsonaro, totalizando os dois 91,6% dos votos. O Brasil vai agora a uma segunda volta muito mais polarizada.

Compreender o fenómeno Bolsonaro

A maior parte dos ativistas dos movimentos sociais e sindical acreditam que derrotar Bolsonaro é uma tarefa fundamental do movimento de massas. E estão corretos. Bolsonaro não é apenas Presidente do Brasil, mas é parte importante da sustentação internacional do fortalecimento político da extrema-direita. Não é à toa que, nas vésperas das eleições, Trump fez um vídeo de apoio ao Bolsonaro e que Steve Bannon, estratega político da extrema-direita, declara Bolsonaro como “grande herói para todos nós” (“nós”, veja-se, a organização internacional da extrema-direita onde se organizam Orbán da Hungria, Meloni da Itália, a família Bolsonaro e também André Ventura).

Compreender esse fenómeno político mundial passa por analisar o contexto internacional em que ele se insere. Este é atravessado pelos efeitos políticos e económicos da crise económica de 2008, que teve como consequência muitos ataques à classe trabalhadora e aos pequenos empresários nos EUA, na Europa e no Brasil; pela pandemia; e pela crise climática.  É importante lembrar que os ataques aquando da crise foram levados a cabo pelas mãos da social democracia, do novo reformismo e do velho estalinismo, além da direita do costume. E dessa forma vão mostrando de forma crua a verdadeira face da barbárie capitalista e causando a deterioração das condições de vida de milhões de pessoas, que já não vêm alternativas no sistema político e económico atual.

A extrema-direita, com a aparência de um discurso radical, procura apontar a responsabilidade da crise para os imigrantes ou os outros países concorrentes, com discursos como “Make America Great Again” ou “American First”, que acabou por conquistar as esperanças de um amplo sector da sociedade.

O Brasil insere-se neste contexto mundial, mas tem as suas particularidades. Neste sentido, uma correta avaliação do significado dos 14 anos de governo do PT, com Lula e Dilma, é crucial.

A promessa de um governo para todos, onde os super-ricos “nunca ganharam tanto dinheiro”

A estratégia que norteou a política do PT foi chegar ao Governo em aliança com partidos burgueses progressistas para governar o capitalismo. O vice de Lula foi José Alencar, o maior empresário têxtil do país; o de Dilma, foi Temer.

O crescimento económico do período do Governo do PT favoreceu, em sua maior parte, os mais ricos. Os 10% mais ricos ficaram com 61% do que o país cresceu. A metade do povo mais pobre, com só 18%. Ou seja, ao contrário do que o PT diz, o seu governo não combateu a desigualdade, e o crescimento serviu aos mais ricos, que ficaram ainda mais ricos.

Lula falou que era “barato e fácil cuidar dos pobres”: ampliou o Bolsa Família e o crédito, habitação e educação, aumentou o salário mínimo. Isto, somado com um forte crescimento económico mundial entre 2002 e 2008, deu uma sensação de desenvolvimento económico e inclusão social. Mas esta sensação de bem-estar evaporou-se aos primeiros sinais de crise económica.

O crescimento económico baseado em exportação de produtos primários escondeu também o processo de desindustrialização, atraso tecnológico e decadência do país. Além disso, foi durante os governos do PT que explodiu o genocídio da população negra e o encarceramento em massa. Foi também sob o PT que foram editadas leis e portarias repressivas, como a Garantia de Lei Ordem (GLO), investindo nas Forças Armadas para repressão interna e para ocupar o Haiti em defesa das multinacionais e do sistema capitalista e imperialista.

Votar Lula, mas não depositar nenhuma confiança no seu Governo

O Governo Bolsonaro significou genocídio, discurso golpista, destruição do património ambiental, perseguição aos povos indígenas, mulheres, negros e LGBTI, retrocesso nas leis laborais, e muitas outras tragédias. A votação para a câmara dos deputados e para o senado brasileiro consolidaram o partido de Bolsonaro como o maior partido da Câmara e dão ao presidente, se reeleito, muito mais possibilidades de ataques aos direitos democráticos, aos setores oprimidos e à classe trabalhadora.

Perante esse cenário, a maior parte das pessoas procuram uma alternativa eleitoral viável para derrotar o inominável. É preciso votar Lula na segunda volta, porque é preciso derrotar Bolsonaro eleitoralmente. Mas isso não basta. Estas eleições mostraram que o bolsonarismo é uma força política e social que se vai manter.

A candidatura de Lula defende manter a mesma receita que nos trouxe até aqui: aprofunda sua adaptação ao capitalismo e faz acordos com setores da direita e reacionários, tendo como vice Geraldo Alckmin, grande expressão dos ricos e poderosos do país.

A defesa da “unidade da esquerda” para derrotar eleitoralmente Bolsonaro é um equívoco, pois fortalece as ilusões num projeto que já se demonstrou equivocado. E, principalmente, porque atrasa a construção de uma alternativa independente dos trabalhadores, que possa fazer frente a Bolsonaro e à extrema-direita. O papel que cumprem estes setores de esquerda no bloqueio das mobilizações em alternativa à crise é também parte importante do crescimento da extrema-direita. Estes disputam a consciência de setores de massas apresentando-se desde fora do “sistema”, enquanto os aparatos reformistas estão cada vez mais integrados para salvar o capitalismo.

Para derrotar Bolsonaro é preciso construir uma alternativa revolucionária

A verdadeira derrota de Bolsonaro faz-se construindo uma alternativa socialista e revolucionária, que combata a extrema-direita nas ruas e que se oponha à lógica do mal menor e não se some ao projeto petista de unidade nacional ao serviço dos super-ricos.

A candidatura do PSTU, no Polo Socialista Revolucionário, que apresentou Vera Lúcia, operária e negra, como candidata a presidente, e a indígena Raquel Tremembé, como candidata a vice, foi um importante passo para apresentar uma candidatura dos trabalhadores, com independência da burguesia, e de defesa de um programa socialista e revolucionário.

É nesse sentido que temos que avançar, no Brasil como em Portugal: fortalecer e construir uma alternativa socialista e revolucionária.

Fascismo?

Há uma tendência em igualar o atual fenómeno da extrema-direita com o que foi o fascismo. Existem pontos em comum no discurso da extrema-direita e do fascismo: machismo, xenofobia, racismo, para dividir o movimento operário e desviar as massas de seus verdadeiros inimigos.

Mas existem também importantes diferenças. Uma das características próprias do fascismo é ser um amplo movimento espontâneo de massas direcionado e financiado por grandes poderes capitalistas; com base pequeno burguesa, ainda que incorpore setores marginais do proletariado e que utiliza métodos de guerra civil contra o proletariado.

Por isso, as organizações realmente fascistas, ainda que namorem com a extrema-direita, têm-se pautado por atos isolados, de tipo guerrilheirista. A extrema-direita, por sua vez, tem optado por conviver com as instituições da democracia burguesa, ainda que tenham fortes tendências bonapartistas, enquanto a principal característica do fascismo é a sua absoluta incompatibilidade com este regime.

No entanto, não podemos descartar que, no desenvolvimento da luta de classes, ocorra uma mudança no carácter das atuais organizações de extrema-direita, armando e mobilizando os estratos médios contra o proletariado. E que ante a ausência de uma direção revolucionária e as traições do reformismo, o fascismo acabe por ganhar peso de massas. Por isso é estratégico não alimentar ilusões de que se derrota a extrema-direita nas urnas e organizar, desde já, a autodefesa das organizações populares e dos trabalhadores e trabalhadoras.

Joana Salay