Trump: a nova cara do Imperialismo

Donald Trump tomou posse no dia 20 de janeiro de 2017. O facto de essa personagem caricata e reacionária ter sido eleita para a presidência da principal potência imperialista mundial chocou a comunidade internacional e preocupa diversos setores da classe trabalhadora. Estamos a assistir a uma onda conservadora mundial? Qual serão os efeitos da eleição de Trump para os trabalhadores de todo o mundo?

O que levou à eleição de Trump?

Donald Trump é um burguês populista reacionário de extrema direita (com posições xenófobas, racistas e machistas). Saiu vencedor porque grande parte das pessoas está farta. Nas sondagens à boca das urnas, cerca de 60% dos eleitores afirmaram que o país “está no caminho errado” e 2/3 estavam fartos e irritados com o governo do Partido Democrata. Obama, que tinha gerado expectativas de mudança, governou para os ricos sem resolver nenhum dos problemas mais sentidos pelos trabalhadores. Este desgaste de 8 anos do Governo de Obama afetou em cheio Hilary Clinton. A candidata do status quo, associada a anos de governação burguesa e à corrupção no país, não era alternativa.

Trump ganhou porque prometeu gerar empregos e melhorar as condições daqueles que foram afetados pela crise económica. A sua votação vem de eleitores brancos de regiões rurais, pequenos proprietários e  trabalhadores brancos empobrecidos pela desindustrialização, a crise, os baixos salários e a precarização laboral ou o desemprego. Este setor de trabalhadores expressou a sua frustração e raiva contra “o sistema” rompendo com o Partido Democrata e apoiando eleitoralmente Trump, virando à direita. Ainda assim, todos os eleitores de Trump representam apenas 25% do eleitorado real.

Polarização social e política

Se a degradação das condições de vida da classe trabalhadora deu votos a Trump, também gerou a viragem de alguns setores à esquerda. É isso que explica o fenómeno Bernie Sanders, que quase ganhou a Clinton falando de socialismo. Apesar de não ser realmente uma alternativa, apresentou-se como alguém novo que queria romper com os excessos do capitalismo financeiro, mostrando que uma parte dos trabalhadores busca também alternativas pela esquerda.

A maioria da esquerda mundial analisa de forma isolada as eleições e conclui que existe um “giro reacionário” em todo o mundo. Vemos este processo de outra forma. Acreditamos que estas eleições expressam uma crise do regime democrático burguês dos EUA – causada pelos efeitos da crise económica – que abre um período de maior instabilidade política e de crescente polarização social e política à medida que a classe trabalhadora americana procura alternativas ao beco sem saída da crise.

Um governo para os ricos

Ao mesmo tempo que prometia gerar empregos, Trump fazia uma campanha reacionária, prometendo expulsar 11 milhões de imigrantes sem documentos, proibir a entrada de muçulmanos e instituir programas agressivos de vigilância, restringir o direito ao aborto, mudar as leis de difamação da nação e restringir a liberdade de expressão. Estas promessas demonstram que Trump pretende um governo duro e reacionário.

Também a composição do novo Governo demonstra que Trump não pretende a ruptura com o status quo que prometeu, mas, pelo contrário, estará ao serviço da grande burguesia. Um ex-executivo da Goldman Sachs, Steven Mnuchin, vai dirigir o Departamento do Tesouro; o diretor executivo da Exxon Mobil, Rex Tillerson, foi nomeado Secretário de Estado; o diretor executivo de uma cadeia de restaurantes de fast food (CKE Restaurants) que paga salários miseráveis, Andrew Puzder, será o Secretário do Trabalho; uma milionária que defende a privatização da educação, Betsy DeVos, vai dirigir o Departamento da Educação; o novo Secretário do Comércio Wilbur Ross, é gestor de fundos e visto como um tuburão de Wall Street.

Segundo a página de economia Quartz, a riqueza conjunta dos 17 nomeados para o Executivo ultrapassa o rendimento de 43 milhões de famílias americanas (i.e.  em média, 55 mil dólares/ano).

Enquanto prepara um amplo arsenal de ataques aos trabalhadores e às suas organizações, as propostas económicas do Governo Trump limitam-se à redução de impostos, à redução dos gastos governamentais e à tributação das importações. Os principais beneficiários dos cortes fiscais seriam os muito ricos, pois, segundo o economista Michael Roberts, a maioria das pessoas teria uma redução de 7% no IRS, mas a poupança para os 1% mais ricos seria de 19% do seu rendimento. Para equilibrar o orçamento federal, os gastos do Governo teriam de ser reduzidos em cerca de 20%, atingindo a Segurança Social, a Educação e a Saúde.

Instabilidade internacional

O Governo da principal potência imperialista mundial poderá significar ataques para os trabalhadores de todo o mundo. O slogan de Trump (“tornar a América grande outra vez”) baseia-se numa ideologia nacionalista, racista e agressiva que atribui aos EUA o direito a oprimir, invadir e superexplorar ou eliminar qualquer povo ou nação.  Podemos já notar os seus efeitos nas boas relações com a Rússia (Putin) e com os países do Oriente Médio, quando Tayyip Erdogan (presidente de Turquia), Abdel Fatah al-Sisi (presidente do Egito) e o próprio Assad (chefe do regime sírio) – três dos piores ditadores da região – se mostraram dispostos a dialogar e trabalhar com Trump.

O destino do Governo Trump será determinado pela luta de classes

Trump deixou claro que pretende governar de forma dura, mas conseguirá implementar as suas medidas sem obstáculos? A própria burguesia imperialista tentou evitar a sua eleição por não confiar nele e o considerar um elemento de instabilidade política no país e internacionalmente, o que poderá fazer com que Trump enfrente e aprofunde divisões internas na burguesia americana e internacional. Por outro lado, as mobilizações ocorridas pelo país logo após a eleição demonstram que a luta de classes dificultará os seus planos. Existe um setor da classe trabalhadora que apoia as suas medidas, mas os demais setores já o veem como inimigo.

Construir lutas nacionais e internacionais contra o Governo Trump

Assim que foram encerradas as eleições no dia 8 de novembro, mais de 50 000 pessoas protestaram em Oakland, Los Angeles, Seattle, Nova York e outras cidades sob o slogan “não é o nosso presidente”, seguidas de mobilizações diárias pelo país que culminaram numa marcha de 100 000 pessoas liderada pela comunidade latina em Los Angeles a 14 de novembro.

Organizações sindicais, comunitárias, do movimento negro e da juventude estudantil estão também a convocar mobilizações para o dia 20 de janeiro em diversos estados e há uma convocatória independente para uma marcha de mulheres em Washington, no dia 21.

É preciso combater as divisões xenofóbicas, racistas e machistas que querem impor entre os trabalhadores e unificar todas as lutas e reivindicações contra o novo Governo. É necessário construir ações nacionais e promover a unidade das lutas em todo o mundo no dia 20 de janeiro. 

Construir uma nova direção para o movimento de massas para lutar contra Trump

Clinton, Obama e Sanders pedem que o resultado das eleições seja aceite passivamente, pois, apesar das diferenças com Trump, estão principalmente preocupados com a estabilidade e os interesses da burguesia. Não serão a alternativa para a classe trabalhadora, para os negros, mulheres e imigrantes que buscam uma saída e estão a lutar e a  enfrentar Trump nas ruas.

As mobilizações dos trabalhadores e da juventude mostram o único caminho possível para enfrentar e derrotar os ataques de Trump.

Perante a crise do Partido Democrata e a crescente polarização política e social existe uma oportunidade histórica para os trabalhadores e para a esquerda revolucionária lutarem pela construção de uma direção alternativa. É necessário avançar na construção de um partido operário socialista e revolucionário, que expresse os interesses de todos os setores da classe trabalhadora, incorpore o programa anti-imperialista e a luta contra todas as opressões.

Joana Salay