Só a luta muda a vida

Saímos do Procedimento por Défice Excessivo, a economia está a crescer e a União Europeia diz que somos um resgate de sucesso. Mas enquanto se festeja o “défice mais baixo da nossa democracia”, estruturalmente, o país e as condições dos trabalhadores não mudaram.

Infelizmente, a tragédia de Pedrógão Grande mostra, de forma dramática e dolorosa, o que significam, no país real, os sucessivos cortes no investimento público: falta de um política florestal que evite as tragédias anunciadas, a privatização e falta de apoios aos que combatem os fogos.

A austeridade nas florestas e campos, nas cidades e periferias, continua a custar vidas. Os milhares de jovens filhos de imigrantes nascidos em Portugal (na sua maioria negros) continuam sem direito automático à nacionalidade portuguesa, discriminados no acesso à educação, emprego e na sua dignidade. A Autoeuropa, o exemplo apadrinhado por Costa e Marcelo, quer aumentar os lucros à custa da precarização da vida e salário dos trabalhadores. O Turismo cresce à custa dos baixos salários da hotelaria e da precarização dos trabalhadores aeroportuários. A especulação imobiliária ex- pulsa famílias das casas e bairros onde viveram uma vida inteira. Os serviços públicos continuam subfinanciados e os seus funcionários sem progressão de carreira, precários e mal pagos. O problema das florestas tem as mesmas bases dos restantes problemas do país real.

No Brasil, os Governos do PT, com Lula e Dilma, geraram durante anos a expectativa de que era possível governar para “todos”: trabalhadores e patrões. O PT, a CUT e a maioria da esquerda deixaram de lutar porque tinham no Governo “os seus”. A realidade foi mais forte e quando a crise económica veio, o Governo do PT mostrou toda a sua corrupção e ao serviço de quem sempre esteve: os ricos. Hoje, a classe trabalhadora no Brasil está na rua, a ferro e fogo, para enfrentar as reformas e o Governo de Temer, que Dilma começou. Em Portugal, o BE e PCP apostam na negociação com Costa e alimentam a ilusão de que através do Parlamento, conseguirão expulsar a austeridade, bastando, para isso, votar neles. Apoiar Governos para “to- dos” é manter Governos para ricos, que se preocupam com a tragédia de Pedrógão num dia, mas nada fazem para mudar estruturalmente a origem desse problema, que continuará a matar os trabalhadores e o povo pobre.

Contamos apenas com a solidariedade e a força das lutas da nossa classe. Os trabalhadores no Brasil apontam no caminho correto: a mobilização operária e popular, apenas confiando na sua própria organização. No Brasil, como em Portugal, é preciso construir um campo dos trabalhadores, independente da direita, dos governos “progressistas” e da esquerda das reformas parlamentares, pois só a luta mudará as nossas vidas.