Autoeuropa: Uma luta pelo direito à saúde e à família, contra a chantagem patronal e a precariedade

Vivemos num país onde é normal os trabalhadores cederem a todas as vontades dos patrões em nome do medo do despedimento, das deslocalizações e das represálias, ou porque “se outros trabalham em situações piores, de que me hei de eu queixar?”. A maioria das organizações representativas dos trabalhadores afirmam que o mais importante é negociar e ter esperança de que quem lucra à custa da perda de direitos deixe cair umas migalhas pelo caminho. A luta dos trabalhadores da Autoeuropa foi uma pedrada neste charco de águas mais que paradas. E ainda bem!

Autoeuropa: um modelo de sucesso para os trabalhadores?

A crueldade implícita na proposta da Administração (AD) da fábrica, obrigando os trabalhadores a um horário (turnos rotativos com trabalho noturno) que reduz a sua esperança média de vida e com folgas de apenas um dia na maioria das semanas, não é nada de novo no sistema económico em que vivemos. Relembremos que se chama capitalismo e que a sua classe dominante – a burguesia – organiza tudo em torno da obtenção de mais lucro, inclusive a nossa vida ou morte. Provocam-se guerras, destrói-se o planeta, mantém-se a fome para muitos milhões em troca de poucos manterem os seus inimagináveis lucros. Contudo, na Autoeuropa, parece estar a descobrir-se agora que, afinal, a AD não é amiga dos trabalhadores e que no grupo Volkswagen – que diz ser uma grande família – há, na verdade, milhares de parentes pobres e meia dúzia de parentes ricos. Porque será que isto acontece?

A fábrica é tida pela opinião pública – uma opinião formada pelos tais burgueses que mandam no mundo e, como tal, também na imprensa – como um modelo de sucesso de diálogo entre trabalhadores e AD, no qual sempre se conseguiram boas condições para ambos. Será mesmo assim?

Não, não é de todo assim. Nos últimos 25 anos, o salário de entrada na fábrica aumentou apenas 150€, já o salário mínimo nacional viu um aumento de 250€. Os trabalhadores já estiveram obrigados a trabalhar mais que as 40 horas semanais pelo mesmo pagamento. Viram o pagamento do seu trabalho suplementar ser reduzido para metade e, mais recentemente, foram pressionados a emigrar para não perderem o posto de trabalho.

Os trabalhadores chegaram ao seu limite. Deixaram de perceber porque numa empresa modelo dentro do grupo Volkswagen, que aumenta cada vez mais os seus lucros, os trabalhadores são sempre prejudicados. Perceberam que afinal a democracia que vigorava até aí servia os interesses da empresa e não os seus.

O modelo de conciliação e a CT demissionária

Então, de onde vem esta imagem da Autoeuropa? A imagem da fábrica é construída, em grande parte, por responsabilidade da Comissão de Trabalhadores (CT) e do BE, que, durante vários anos, passaram a mensagem de que se iam conseguindo boas condições para os trabalhadores e para a empresa apenas através do diálogo e da “democracia” entre os trabalhadores. A consequência deste modelo de conciliação de interesses – supostamente democrático – levou a que, hoje em dia, um trabalhador da Volkswagen em Bratislava (no Leste europeu, associado a más condições de trabalho) ganhe em média 1800€, enquanto que em Portugal se ganhe, em média, menos de 1200€ brutos. Mesmo no Brasil, na Volkswagen Anchieta, no estado de São Paulo, um operário da linha de montagem ganha em fim de carreira (1500€/5600reais), valor que um operário português na mesma função não sonha atingir (em Portugal ganha no máximo 1250€).

Desta vez, os trabalhadores disseram “Basta!”, destronando uma CT instalada há mais de 20 anos – que os traiu repetidamente neste processo – e garantindo com as suas forças uma vitoriosa greve e a imposição de uma democracia que serve os seus interesses e não os da AD.

E o que diz a esquerda e o Governo?

À esquerda, perante uma luta de milhares de trabalhadores da maior fábrica do país, o silêncio foi ensurdecedor. O Governo PS, que diz ter virado a página da austeridade, não dirigiu uma única palavra de solidariedade aos trabalhadores vítimas do aumento da austeridade na fábrica de Palmela. Já o BE, ao invés de criticar, preferiu encobrir as traições aos trabalhadores que os seus militantes levaram a cabo durante o processo. Por seu lado, o PCP publicou uma nota de imprensa no seu site nacional, no dia da greve, cujo título indicava que o fazia por pressão da imprensa e não por necessidade de apoio aos trabalhadores em luta.

Assim, como derrubou a ideia de que é possível conciliar os interesses entre trabalhadores e patrões, a luta na Autoeuropa está a abanar a paz podre que se vive em Portugal. Por vassalagem a um acordo de governo, BE e PCP, os partidos que deveriam representar os interesses de quem trabalha, escondem-se, não incitam à luta contra a austeridade que continua a assolar a maioria da população e depositam as esperanças num Governo que continua a gastar mais dinheiro em juros da dívida que em saúde ou educação. Não é por acaso que, durante um dos principais conflitos de 2017, na maior fábrica do país, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins não dedicaram uma única palavra de solidariedade aos operários da Autoeuropa durante as entrevistas de pré-campanha autárquica a que tiveram direito.

Outro dos exemplos do isolamento a que foi votada esta greve foi a fraca adesão ao desafio lançado pela Rede Sindical Internacional, a que o Em Luta se somou. Conseguiram-se apoios importantes de sindicatos e grupos sindicais europeus e da América do Sul, mas, em Portugal, apenas o SEAL (Sindicato dos Estivadores) e os trabalhadores da Groundforce/SPDH responderam ao apelo em plenário sindical.

A continuidade da luta e as eleições para a CT

O conflito ainda não terminou, apesar de algumas batalhas já terem sido travadas. Os trabalhadores demonstraram que se mantêm alerta e que estão dispostos a continuarem a luta contra esta injustiça. Para isso, têm de existir novos plenários e novas ações que mantenham a resistência à imposição da AD.

Agora, nas eleições para a CT, estarão em confronto as diferentes conclusões que se estão a tirar deste processo. É um passo muito importante que haja uma ferramenta ao serviço dos interesses dos trabalhadores para que a luta avance e não se volte a permitir que a CT seja usada contra os próprios trabalhadores: uma CT independente da AD e que lute pelos interesses dos trabalhadores.

Além de uma nova ferramenta na fábrica, é muito importante que os trabalhadores no país percebam que esta luta vai fortalecer o combate à precariedade e à imposição da perda de direitos e que, portanto, apoiem os trabalhadores da Autoeuropa com novas iniciativas de solidariedade. Reunidas estas condições, os trabalhadores podem vencer o braço de ferro.